“Meus senhores, é mesmo um problema / Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos / Toda oportunidade / De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo / Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável / Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável / Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade / Dizer que é inexplicável / Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer / A confiança das massas / Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer / Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer / Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber / Com esse desemprego! / Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir / Esta opinião: o problema / Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego /Não será solucionado
Enquanto os senhores não / Ficarem desempregados!” Bertold Brecht
—-
Eppur si muove
Não se pode calar um homem.
Tirem-lhe a voz, restará o nome.
Tiram-lhe o nome / e em nossa boca restará / a sua antiga fome…
Mente quem fala que quem cala consente.
Quem cala, às vezes, re-sente,
Por trás dos muros dos dentes,
edifica-se um discurso transparente…
A ausência da voz / é, mesmo assim, um discurso…
Ah, o silêncio é um discurso invertido / modo de falar alto / -proibido.
Se um silencio é demais,
quando é de dois, geminado,
mais que silêncio / -é perigo,
é uma forma de ruido.
Por isso que o silêncio / da consciência,
quando passa a ser ouvido / não é silêncio / -é estampido.
Affonso Romano de Sant’ Anna
—
Poema Obsceno
Façam a festa
cantem e dancem
que eu faço o poema duro
o poema-murro
sujo
como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
Bethânia Martinho
Clementina
Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente da Vila Isabel e Madureira
todos
façam
a nossa festa
enquanto eu soco este pilão
este surdo
poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)
Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
– e espreitam
(Na vertigem do dia)
Ferreira Gullar [ http://www.scipione.com.br/educa/oficinas/literatura/gullar/poesia.htm ]