só posso ser o poema que ainda não escrevi

achei essas coisinhas escritas lá pelas bandas de 2004. e a coincidência [que alguém acessou, aleatoriamente]… e ver que a criança que nascia [a memória me trai] neste dia e inspirava o desejo de fazer poesia… hoje já é gente grande [é, eu vi com meus olhos… e foi essa semana mesmo. e lembrei desse versinho… essas conexões aleatórias]
estes textos foram registrados numa sexta-feira. 16, julho de 2004.
manuscritos à mão e/ou em uma sperry remington 22. não sei precisar se todos foram feitos neste dia, mas são da mesma safra/leva/dias inspirados…

 

que o sol sem fim
sai de um todo ali
a meta metade de um
                  (mim)
claro, boreal
                                jasmim.

—————————

no fim
ele finge
que finge
e/ou acredita,
no fim?

—————————

terminei a gramatura
posso ser então acordes graves na compostura
posição suave e alegrotriste pois é de cada um…
terminei a chuva que pintaria em tua face
com grandes olhos e pequenas gotas deslizando
tua boca dentes e dedos
só posso ser o poema que ainda não escrevi.

————————————-

dormem…
as casa antigas
as fechadas janelas

a calçada, a rua…

os cães vadios
os carros abandonados
os bancos não sentados
a vazia praça

o pensamento

dormem…
o balanço sem crianças
a praia sem distância

as estrelas mortas

as placas sem sentido
as folhas caídas
o mosaico sem olhar
o silêncio absorvente

o distante indecifrável

dormem…
as fachadas e o poeta,
imune ao mar,
afogado.
Praça macário rocha. Ponta sambaqui.

——————————-

——————————-

nas suas asas andor
inhas
voa ao silêncio este corpo
nas suas asas andor
inhas
flutua imenso este peito
em suas asas andor
inhas

——————————-

.

nos rios alagoando
         o ledo engano
destes fios de cor
         rosicler

——————————-

somos outros
habitando outras
hipóteses
e vivos

.

diante de todo
amor
em quase nada.
Jpeg

 

«SU LA POPPA SEDEA D’UNA BARCHETTA» Por Giovanni Boccaccio

POETA: GIOVANNI BOCCACCIO

Giovanni Boccaccio (Florença ou Certaldo, 16 de junho de 1313 — Certaldo, 21 de dezembro de 1375) foi um poeta e crítico literário italiano, especializado na obra de Dante Alighieri. Sua Magnum opus: Decamerão

POEMA: VI (Caccia e Rime)

Su la poppa sedea d’una barchetta,
che ‘l mar segando era tirata,
la donna mia con altre accompagnata,
cantando or una or altra canzoneta.
Or questo lito et or quest’isoletta,
et ora questo et or quella brigata
di donne visitando, era mirata
qual discesa dal cielo una angioletta.
Io che seguendo lei, vedeva farsi
di tutte parti incontro a rimirarla
gente, vedea miracol nuovo.
Ogni spirito in me destarsi
sentiva, vedea, e con amor di commendarla
sazio non vedea il ben ch’io provo.

TRADUÇÃO DE: Francisco Sales de Sousa

Sentada sobre a proa de um barquinho,
que navegava rápido, atravessando as ondas
a minha amada de outras acompanhada,
cantando ora uma, ora outra canzãozinha.
Ora esta praia, ora esta pequena ilha,
ora esta, ora aquela comitiva
de mulheres em visita, era observada
como um anjinho descido do céu.
Eu, que seguindo-a, via chegarem
de todos os lugares, para revê-la
pessoas, via como um novo milagre.
Sentia todos os meus ânimos despertarem
e, desejoso de louvá-la com amor
Satisfeito, nunca havia sentido o bem que sinto.

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Giovanni_Boccaccio
Boccaccio e a poesia, por Pedro Falleiros Heise
As Etimologias de Giovanni Boccaccio, por Pedro Falleiros Heise
Soneto, 1 (versão em espanhol por J. Aulicino)
A mulher na poesia de Dante, Petrarca e
Boccaccio, por Francisco Sales de Sousa
Caccia e Rime (Boccaccio)/Rime/VI
51z3dx-U8qL

não é cair: é voar com estilo [Matilde Campilho]

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«I was going to write you a poem, but then I didn’t. A week ago I wrote you a tiny telegram e dizia “I’ll be home soon. Do not cry, Princess.” Foi dura pra caramba essa distância, mas é bom saber que você se fez rainha e que o afastamento de dois corpos em muito contribuiu para isso. Doeu, mas foi. E os santos padroeiros ajudaram: Sebastião, António, Jorge e as multidões revolucionárias que andam às cabeçadas com a crise económica. Às vezes penso na fazenda do meu pai. É como aquela imagem do rosto do tigre que me vem às barbas, mas depois passa. Também escuto as canções do Tim Maia mas nada resolve muito bem. Só sei da fazenda do pai, da fronha do tigre, do choro do mendigo e… vá lá, vai… já é do caraças. Fiz-me poeta para dizeres “Ok, don’t you understand?”, como dizia o rapaz à chuva. “Don’t you?” Isto não é um videoclipe, esquece. Alguns monges andam procurando mirra nas extremidades dos grãos da terra, mas já sabemos que isso é um valente estado de ilusão. Ou então é fé, sabe-se lá. Tu deves saber. Tu sabes muito sobre escavação e oração. Esta noite escrevi o terceiro pedido de casamento, mas acho que já não vais na conversa. Faz tripas, coração mas sei muito bem que me amas pelos olhinhos e nunca pelas coisas que um dia morrem de podres, zonas internas e tal. Poemas… bah! Andas aí empenhada em saber por que raio é que escrevo em inglês mas… nem eu sei. Deve ser tão mais fácil mentir em estrangeiro, disse que isto de poesia era tudo verdade mas, não sei não. Também achei que o amor tinha muito menos mutação que um plátano, e agora fico aqui sentada na fazenda assistindo à transição das estações. Alguém fez disto uma enorme ilusão, e olha que nem sei o que é a morte. My bad, or my luck. Os olhos da avó ainda são azuis. Está tudo igual naquela sala, só puxaram os sofás um pouco mais pra frente. É da crise, sei lá. A Europa não parece querer ter outra palavra. Vi que na cidade um homem se suspende a troco de dinheiro e que fica na praça por horas e horas. Faz um cento e tal de euros por mês. Saudade do Real, my friend… Saudade de tudo aquilo que a gente foi um dia mas agora só existem os poemas, a mentira dos poemas e a tradução dos poemas feita por heróis que julgam…sei lá, amar a história que já morreu. Guarda o número sessenta mil. Pode ser que te dê sorte.» Matilde Campilho

 

«POESIA MATEMÁTICA» por Millôr Fernandes

#umpoetaumpoemapordia #290 (16/8)

POETA: MILLÔR FERNANDES

Millôr Viola Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923[1] — 27 de março de 2012), foi um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista brasileiro. Conquistou notoriedade por suas colunas de humor gráfico em publicações como Veja, O Pasquim e Jornal do Brasil.

POEMA: POESIA MATEMÁTICA

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
“Quem és tu?”indagou ele
Com ânsia radical.
“Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
– O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs –
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Millôr_Fernandes
http://www.jornaldepoesia.jor.br/millor.html
http://www.jornaldepoesia.jor.br/millor07.html
https://cdeassis.wordpress.com/tag/millor-fernandes/
https://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/2014/07/1493236-leia-poemas-de-millor-fernandes-escritos-na-decada-de-1940.shtml
https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1602

Poesia Geométrica – Millor Fernandes

OUTROS

Jules Laforgue, poeta franco-uruguaio
António Nobre, poeta romântico português
Charles Bukowski , escritor e poeta americano
Eduardo Cote Lamus , poeta e político colombiano
Mary Gilmore , socialista, poeta e jornalista australiana
Reiner Kunze , poeta e tradutor alemão

«EL POETA» por Armando Buscarini

#umpoetaumpoemapordia #259 (16/7)

POETA: ARMANDO BUSCARINI

Antonio Armando García Barrios (Ezcaray, Espanha, 16 de julho de 1904 – Logroño, Espanha, 9 de junho de 1940) foi um poeta boêmio espanhol.

POEMA: EL POETA

Sentado junto a una mesa
carcomida por el tiempo
y alumbrado débilmente
por la luz de un quinqué viejo,
un joven pálido escribe
en cuartillas, varios versos.

Es un poeta, las noches
pásaselas escribiendo…
Anhela la gloria, joya
más valiosa que el dinero.

Y continua impasible,
sin descansar un momento,
hasta ver recompensados
algún día sus desvelos.

+ SOBRE

https://es.wikipedia.org/wiki/Armando_Buscarini

Armando Buscarini


http://www.epdlp.com/texto.php?id2=8353

OUTROS

Reinaldo Arenas, poeta cubano
Ennio, poeta romano.
Miguel Labordeta, poeta e dramaturgo espanhol
Amy Paterson, compositora, cantora, poeta e professora argentina
Sheri S. Tepper, autor e poeta americano
Susan Wheeler, poeta americana e acadêmica

«EM FORMA DE AMOR» por Dante Milano

#umpoetaumpoemapordia #229 (16/6)

POETA: DANTE MILANO

(Rio de Janeiro, 16 de junho de 1899 — Petrópolis, 15 de abril de 1991) foi um poeta brasileiro. Dante Milano é um dos poetas representativos da terceira geração do Modernismo

POEMA: EM FORMA DE AMOR

Por que me apertas com tanta força?
Por que não tiras os olhos dos meus?

Teu abraço me esmaga,
Teu beijo me sufoca,
Teus dedos se cravam nos meus cabelos,
Tua voz rouca parece exprimir num rugido o que as palavras
[ não podem significar…

Por que me agarras?

Assim dois inimigos se abraçam para lutar.

In: Obra Reunida. Organização e estabelecimento do texto, Sérgio Martagão Gesteira. Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2004

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Milano
http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet241.htm
http://www.jornaldepoesia.jor.br/dante.html
http://veredasdalingua.blogspot.com/2013/07/dante-milano-poemas.html
http://www.antoniomiranda.com.br/Brasilsempre/dante_milano.html
http://jeffersonbessa2.blogspot.com/2009/08/corpo-um-poema-de-dante-milano.html

“Poesias”, de Dante Milano – UFJF

A EXPERIÊNCIA DA POESIA DO AMOR EM DANTE MILANO

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OUTROS

Salawat Yulayev , poeta russo
Torgny Lindgren , autor e poeta sueco
Māris Čaklais , poeta, escritor e jornalista da Letônia
Younus AlGohar , poeta e acadêmico paquistanês
Giovanni Boccaccio, escritor e poeta italiano
Bessie Rayner Parkes, poetisa, ensaísta e jornalista britânica
Ariano Suassuna, dramaturgo, romancista e poeta brasileiro

«TONIGHT NO POETRY WILL SERVE» por Adrienne Rich

#umpoetaumpoemapordia #198 (16/5)

POETISA: ADRIENNE RICH

Adrienne Rich (Baltimore, 16 de Maio de 1929 – 27 de Março de 2012) foi uma feminista radical, poetisa, professora e escritora dos Estados Unidos.

POEMA – TONIGHT NO POETRY WILL SERVE

Tonight No Poetry Will Serve
May 26, 2008

Saw you walking barefoot
taking a long look
at the new moon’s eyelid

later spread
sleep-fallen, naked in your dark hair
asleep but not oblivious
of the unslept unsleeping
elsewhere

Tonight I think
no poetry
will serve

Syntax of rendition:

verb pilots the plane
adverb modifies action

verb force-feeds noun
submerges the subject
noun is choking
verb disgraced goes on doing

there are adjectives up for sale

now diagram the sentence

TRADUÇÃO DE: ANDRÉ CARAMURU AUBERT

Esta noite nenhuma poesia servirá

Te vi andando descalça
dando uma longa olhada
para as pálpebras da lua nova

depois esparramada
dormindo pesado, nua em seus cabelos negros
dormindo mas não ignorante
dos que não dormiram não dormem
por aí

Hoje eu penso
nenhuma poesia
servirá

Sintaxe da rendição:

verbo pilota o avião
advérbio modifica a ação

verbo alimenta o substantivo à força
submerge o sujeito
substantivo sufocando
verbo desgraçado segue fazendo

agora diagrame a frase

 

MAIS SOBRE:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Adrienne_Rich
https://www.thenation.com/article/five-poems-adrienne-rich/
http://rascunho.com.br/adrienne-rich/

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2012/04/adrienne-rich-1929-2012.html

https://pontesoutras.wordpress.com/2018/02/16/um-ensaio-de-adrienne-rich-sobre-anne-sexton-traduzido-por-beatriz-regina-guimaraes-barboza/

«DON’T YOU WONDER, SOMETIMES?» por Tracy K. Smith

#umpoetaumpoemapordia #168 (16/4)

POETISA: TRACY K. SMITH

Tracy K. Smith ( 16 de abril de 1972 ) é um poetisa e educadora estadunidense. Ela publicou três livros de poesia. Ela ganhou o Prêmio Pulitzer em 2011 por seu livro Life on Mars.

POEMA: DON’T YOU WONDER, SOMETIMES?

1.
After dark, stars glisten like ice, and the distance they span
Hides something elemental. Not God, exactly. More like
Some thin-hipped glittering Bowie-being—a Starman
Or cosmic ace hovering, swaying, aching to make us see.
And what would we do, you and I, if we could know for sure
That someone was there squinting through the dust,
Saying nothing is lost, that everything lives on waiting only
To be wanted back badly enough? Would you go then,
Even for a few nights, into that other life where you
And that first she loved, blind to the future once, and happy?
Would I put on my coat and return to the kitchen where my
Mother and father sit waiting, dinner keeping warm on the stove?
Bowie will never die. Nothing will come for him in his sleep
Or charging through his veins. And he’ll never grow old,
Just like the woman you lost, who will always be dark-haired
And flush-faced, running toward an electronic screen
That clocks the minutes, the miles left to go. Just like the life
In which I’m forever a child looking out my window at the night sky
Thinking one day I’ll touch the world with bare hands
Even if it burns.

2.
He leaves no tracks. Slips past, quick as a cat. That’s Bowie
For you: the Pope of Pop, coy as Christ. Like a play
Within a play, he’s trademarked twice. The hours
Plink past like water from a window A/C. We sweat it out,
Teach ourselves to wait. Silently, lazily, collapse happens.
But not for Bowie. He cocks his head, grins that wicked grin.
Time never stops, but does it end? And how many lives
Before take-off, before we find ourselves
Beyond ourselves, all glam-glow, all twinkle and gold?
The future isn’t what it used to be. Even Bowie thirsts
For something good and cold. Jets blink across the sky
Like migratory souls.

3.
Bowie is among us. Right here
In New York City. In a baseball cap
And expensive jeans. Ducking into
A deli. Flashing all those teeth
At the doorman on his way back up.
Or he’s hailing a taxi on Lafayette
As the sky clouds over at dusk.
He’s in no rush. Doesn’t feel
The way you’d think he feels.
Doesn’t strut or gloat. Tells jokes.
I’ve lived here all these years
And never seen him. Like not knowing
A comet from a shooting star.
But I’ll bet he burns bright,
Dragging a tail of white-hot matter
The way some of us track tissue
Back from the toilet stall. He’s got
The whole world under his foot,
And we are small alongside,
Though there are occasions
When a man his size can meet
Your eyes for just a blip of time
And send a thought like SHINE
SHINE SHINE SHINE SHINE
Straight to your mind. Bowie,
I want to believe you. Want to feel
Your will like the wind before rain.
The kind everything simply obeys,
Swept up in that hypnotic dance
As if something with the power to do so
Had looked its way and said:
Go ahead.

TRADUÇÃO DE: BRUNA DANTAS LOBADO

Você não se pergunta, às vezes?

1.
Ao cair da noite, estrelas cintilam como gelo e a distância que elas cobrem
Oculta algo elementar. Não Deus, exatamente. Mais como
Um ser estreito, magrelo, com o espírito reluzente de Bowie — um Starman
Ou craque cósmico pairando, se remexendo, se doendo para que possamos ver.
E o que faríamos, você e eu, se pudéssemos saber com certeza

Que alguém estava ali espiando através da poeira
Dizendo que nada está perdido, que tudo vive apenas da espera
Para voltar a ser querido o suficiente? Você iria, então,
Mesmo que por algumas noites, para esta outra vida em que você
E aquele primeiro que ela amou, uma vez cegos para o futuro, e felizes?

Quem sabe eu colocaria meu casaco e retornaria à cozinha, onde minha
Mãe e pai esperam sentados, jantar esquentando no fogão?
Bowie nunca morrerá. Nada vai o acometer em seu sono
Ou se apressar por suas veias. E ele nunca vai envelhecer,
Assim como a mulher que você perdeu, que sempre terá cabelos castanhos

E cara corada, correndo em direção a uma tela eletrônica
Que conta os minutos, as milhas que falta seguir. Assim como a vida
Em que sou sempre uma criança olhando pela minha janela para o céu noturno
Pensando que um dia tocarei o mundo com minhas próprias mãos
Mesmo que queime.

2.
Não deixa rastros. Desliza, rápido como um gato. Isto é Bowie
Para você: o Papa do Pop, recatado como Cristo. Como uma peça
Dentro de uma peça, duas vezes marca registrada. As horas

Pingam como água do ar condicionado. Nos aturamos com suor,
Nos ensinamos a esperar. Silenciosamente, preguiçosamente, acontece o colapso.
Mas não para Bowie. Ele apruma a cabeça, sorri aquele sorriso perverso.

O tempo nunca para, mas ele acaba? E quantas vidas
Antes da decolagem, antes de nos encontrarmos
Além de nós mesmos, todos glamour de glitter, todos faísca e ouro?

O futuro não é o que costumava ser. Até mesmo Bowie tem sede
De algo bom e gelado. Jatos piscam no céu
Como almas migratórias.

3.
Bowie está entre nós. Bem aqui
Em Nova York. De boné de beisebol
E jeans caros. Se enfiando em
Uma deli. Deslumbrando com todos aqueles dentes
O porteiro ao retornar.
Ou ele está chamando um táxi na Lafayette
À medida que o céu se nubla no crepúsculo.
Não tem a menor pressa. Não se sente
Como você acha que ele se sente.
Não se empertiga ou se exalta. Conta piadas.

Morei aqui durante todos esses anos
E nunca o vi. Como não saber distinguir
Um cometa de uma estrela cadente.
Mas aposto que ele brilha incandescente,
Arrastando uma cauda de matéria quente e branca
Do jeito que alguns de nós criam rastros de papel
da privada. Ele tem
O mundo inteiro sob seus pés,
Ao seu lado, somos pequenos,
Ainda que haja ocasiões

Quando um homem desse tamanho pode encontrar
Seu olhar por somente um bipe de instante
E enviar um pensamento: SHINE
SHINE SHINE SHINE SHINE
Diretamente para a sua mente. Bowie,
Quero acreditar em você. Quero sentir
Sua vontade como vento antes da chuva.
Do tipo que tudo simplesmente obedece,
Embalado naquela dança hipnótica
Como se algo com o poder de fazê-lo
Tivesse olhado na sua direção e dito:
Vá em frente.

Don’t You Wonder, Sometimes? do livro Life on Mars.

+ SOBRE:

https://es.wikipedia.org/wiki/Tracy_K._Smith
http://arspoeticaethumanitas.blogspot.com.br/2016/05/tracy-k-smith.html
http://rascunho.com.br/poemas-de-tracy-k-smith/
http://arspoetica-lp.blogspot.com.br/2014/08/tracy-k-smith.html

OUTROS:

Tristan Tzara, poeta e ensaísta romeno
Anatole France , escritor, jornalista, romancista e poeta francês, Prêmio Nobel de Literatura em 1921
Kingsley Amis , romancista, crítico e poeta inglês
Ángel Sierra Basto , poeta colombiano
Javier Adúriz , poeta argentino
Octave Crémazie , poeta e livreiro canadense
Sarah Kirsch , poeta e autor alemão

Efeito Werther, citação.

imagesEm 1846, a obra de Goethe já estava publicada há 72 anos e a já existia uma versão censurada desde 1787. Marx, que tinha 28 anos, publicou um pequeno texto chamado “Sobre o suicídio”, no qual, através das palavras de Jacques Peuchet diz o seguinte:

“Tudo o que se disse contra o suicídio gira em torno do mesmo círculo de ideias. Contra ele são postos os desígnios da Providência, mas a própria existência do suicídio é um notório protesto contra esses desígnios ininteligíveis. Falam-nos de nossos deveres para com a sociedade, sem que, no entanto, nossos direitos em relação a essa sociedade sejam esclarecidos e efetivados, e termina-se por exaltar a façanha mil vezes maior de dominar a dor ao invés de sucumbir a ela, uma façanha tão lúgubre quanto a perspectiva que ela inaugura. Em poucas palavras, faz-se do suicídio um ato de covardia, um crime contra as leis, a sociedade e a honra. Como se explica que, apesar de tantos anátemas, o homem se mate? [..] O que dizer da indignidade de um estigma lançado a pessoas que não estão mais aqui para advogar suas causas? […] As medidas infantis e atrozes que foram inventadas conseguiram combater vitoriosamente as tentações do desespero? Que importam à criatura que deseja escapar do mundo as injúrias que o mundo promete a seu cadáver? Ela vê nisso apenas uma covardia a mais da parte dos vivos. Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões; em que se pode ser tomado por um desejo implacável de matar a si mesmo, sem que ninguém possa prevê-lo? Tal sociedade não é uma sociedade; ela é, como diz Rousseau, uma selva, habitada por feras selvagens.” (Boitempo, 2006).

via Allan Kenji

«DE PEDRA» por Lupe Cotrim Garaude

#umpoetaumpoemapordia #137 (16/3)

POETISA: LUPE COTRIM GARAUDE

Lupe Cotrim Garaude, de nome completo Maria José Cotrim Garaude Gianotti, (São Paulo, 16 de março de 1933 – São Paulo, 18 de fevereiro de 1970) foi uma poetisa e tradutora brasileira, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

POEMA: DE PEDRA

— Eu sou de pedra, me dizias,
a defender tua distância.

E esquecias o musgo,
essa tua epiderme de ternura,
e o teu corpo de carinhos,
num horizonte de água e terra,
a te envolver na vida.

— Eu sou de pedra — insistias.
— Pesado. Denso. Inalterável.
De estofo eterno.

Apenas estou, não sofro;
se algum gesto me ferir,
eu sou duro;
quebrarei o gesto sem sentir.

E esquecias
que és pouso de borboletas,
alicerce de flores,
abraço de raízes,
vulnerável em tudo
do que em ti pertence
e minha mão possui, acaricia.

— Eu sou de pedra.
E esquecias, esquecias.

 

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lupe_Cotrim
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/sao_paulo/lupe_cotrim_garaude.html
http://zunai.com.br/post/117085174708/especial-revisitando-lupe-cotrim-parte-2
http://www.banquetepoetico.com.br/2015/07/lupe-cotrim.html

http://www.jornaldepoesia.jor.br/lupe.html

Lupe Cotrim, um inédito, LEILA V. B. GOUVÊA
http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/navegacoes/article/viewFile/8444/6029

OUTROS

César Vallejo, poeta peruano
Tonino Guerra, poeta, escritor e roteirista italiano
Sully Prudhomme , poeta francês, Prêmio Nobel de Literatura em 1901
Ethel Anderson , poeta australiano, autor e pintor
René Daumal , autor e poeta francês

«A GENTE NUNCA ESTÁ SÓ» por Adelmar Tavares

adelmar_tavares#umpoetaumpoemapordia #109 (16/2)

POETA: ADELMAR TAVARES

Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti (Recife, 16 de fevereiro de 1888 — Rio de Janeiro, 20 de junho de 1963) foi um advogado, professor, jurista, magistrado e poeta brasileiro.

POEMA: A GENTE NUNCA ESTÁ SÓ

A gente nunca está só. / Ou se está com uma saudade / De um sonho desfeito em pó; / Ou se está com uma esperança / De nova felicidade / No coração que não cansa… // Sempre uma sombra com a gente, / Constantemente, / Uma sombra… Boa… ou má… / Só é que nunca se está.
(Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 59)

 

MAIS SOBRE

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/adelmar_tavares.html
http://falandodetrova.com.br/poesiascompletasadelmarII
https://www.avozdapoesia.com.br/autores.php?poeta_id=205
http://www.jornaldepoesia.jor.br/@atv01.html
http://www.recantodasletras.com.br/biografias/4193454
https://peregrinacultural.wordpress.com/2014/02/24/a-gente-nunca-esta-so-poesia-de-adelmar-tavares/

«SONETO CLXXIII» por Vittorio Alfieri

#umpoetaumpoemapordia #078 (16/1)

POETA: VITTORIO ALFIERI

Vittorio Alfieri Amadeo (Asti, Piemonte, 16 de janeiro de 1749 – Florença, 08 de outubro de 1803) foi um dramaturgo, poeta e escritor italiano.

POEMA – SONETO CLXXIII

Tacito orror di solitaria selva / di sì dolce tristezza il cor mi bea, / che in essa al par di me non si ricrea / tra’ figli suoi nessuna orrida belva. // E quando addentro più il mio piè s’ inselva, / tanto più calma e gioia in me si crea; / onde membrando com’ io là godea, / spesso mia mente poscia si rinselva. // Non ch’ io gli uomini aborra, e che in me stesso / mende non vegga, e più che in altri assai; / né ch’ io mi creda al buon sentier più appresso: // ma, non mi piacque il vil mio secol mai: / e dal pesante regal giogo oppresso, / sol nei deserti tacciono i miei guai.

(Tradução de Ramiro Rosón Mesa) Soneto CLXXIII
El mudo horror de solitaria selva / me trae al corazón tan dulce pena / que en ella, salvo yo, no se descubre / ninguna fiera horrible entre sus hijos. // Y cuanto más adentro mi pie llega, / tanta más calma y gozo en mí se forma, / o, recordando cómo allí gozaba, / luego torna mi mente hacia la selva. // No es que a los hombres odie, y que en mí mismo / yerros no vea, y muchos más que en otros, / o crea estar cercano al buen camino; // mas el vil siglo nunca me ha gustado, / y del grave, real yugo oprimido, / solo en desiertos callo mis lamentos.

MAIS SOBRE
http://traducciones.lagallaciencia.com/2015/07/vittorio-alfieri-ii.html
https://poetassigloveintiuno.blogspot.com.br/2015/11/vittorio-alfieri-17413-poeta-de-italia.html
https://www.revistafogal.com/2014/11/25/cuatro-poemas-de-vittorio-alfieri/
http://www.classicitaliani.it/alfieri/alf_rime1.pdf

OUTROS

Laura Riding – poeta modernista norte-americana

«LÍNGUA PORTUGUESA» por Olavo Bilac

#umpoetaumpoemapordia #047 (16/12)

POETA: OLAVO BILAC

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — 28 de dezembro de 1918) foi um jornalista, contista (vide ”Contos Pátrios”), cronista e poeta brasileiro do período literário parnasiano, membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15 da instituição, cujo patrono é Gonçalves Dias. wikepedia

POEMA: LÍNGUA PORTUGUESA

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Olavo_Bilac
http://www.releituras.com/olavobilac_menu.asp
http://www.nilc.icmc.usp.br/nilc/literatura/olavobilac.htm

OUTROS

Piet Hein, matemático, escritor e poeta dinamarquês

Rafael Alberti , poeta espanhol

Jaime Serfaty Laredo , industrial e poeta espanhol

Louis Jules Mancini Mazarini , poeta e diplomata francês

Elizabeth Carter , poeta e estudioso inglês

George Santayana , filósofo, romancista e poeta espanhol

Peter Dickinson , autor e poeta rodesiano-inglês

Randall Garrett , autor e poeta americano

Sally Emerson , escritor e poeta inglês

Seyhan Kurt , poeta e sociólogo franco-turco

 

«PROCESSO» por José Saramago

#umpoetaumpoemapordia #017 (16/11)

POETA: JOSÉ SARAMAGO

José de Sousa Saramago (Azinhaga, Golegã, 16 de novembro de 1922 — Tías, Lanzarote, 18 de junho de 2010) foi um escritor português. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou, em 1995, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.

POEMA: PROCESSO

As palavras mais simples, mais comuns, 
As de trazer por casa e dar de troco, 
Em língua doutro mundo se convertem: 
Basta que, de sol, os olhos do poeta, 
Rasando, as iluminem. 
– José Saramago, em “Os poemas possíveis”. 3ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1981.

 

+ SOBRE

http://www.elfikurten.com.br/2015/05/jose-saramago-poemas.html
http://www.avozdapoesia.com.br/autores.php?poeta_id=280
https://www.escritas.org/pt/jose-saramago
https://cartilhadepoesia.wordpress.com/2011/04/09/jose-saramago/

 

exercícios sob a trilha sonora vespertina

exercícios sob a trilha sonora vespertina
[qui] 16 de janeiro de 2014

DOS ELEFANTES

Não começar pelo que lhe é fácil. Lembre-se. Assim morrem os elefantes. Na tarde azul há um branco em forma de balão e o preto em forma de luto ou luta. Há toda uma solidão e um silêncio só. Há o sono acidentado e a dor cinzenta… Dor que um dia cairá tal qual a tempestade. E lá, onde for, longe do que é fácil, emerge no fio sonoro do trompete uma lembrança do que fora uma juventude ou sonhos verdes. E explode – sem poder iniciar – o poema vermelho, o desconforto agudo, o fim crônico. Solitário, como a ilusão tão real que este mundo azul é triste e seco. Seco é o som. É a orquestra em silêncio. Lá longe é tão cá dentro e é tão imenso como o nó da madeira e a dor do músculo esquerdo. Mas aquieta. Espera. Não começar pelo que é fácil… E vem em gritos, entra, atravessa, preenche todos os cantos com este som inteiro. Há tempo e tudo crescerá. Após a chuva cerrar e após o sol – que um dia chegará. E assim, repara o trilho sonoro que comporá o caminho que os teus pés e ouvidos farão. Orquestrarás o esquecimento… Morrerás, frente a frente, como todos os elefantes – imensos e terminais.

DO MAR

Não se caminha sobre o mar à tarde. Voa-se – como só os peixes sabem, refletidos, sobre os fragmentos estelares, estes milhares de brilhos solares, tão filhos do vento e dos meus olhos vespertinos.

não te pergunto quando virás…

não te pergunto quando virás.
te espero.
me encontraras lá no fundo.
pensando.
e envolto em minha pequenez.
não te pergunto quando virás,
porque te aguardo
como aguardo o sol.
não sabendo sua hora
e seu instante.
sabendo apenas
que é quentura
que desperta.
que levanta,
e acorda este corpo velho.
não te pergunto.
sempre te espero.

[qui] 16 de dezembro de 2010

democracia corrompida

Slavoj Zizek

O potencial autêntico da democracia vem perdendo terreno hoje para a ascensão de um novo capitalismo autoritário

O filósofo alemão Peter Sloterdijk (que, definitivamente, não é um de nós e tampouco um completo idiota) observou que, se há uma pessoa para quem farão monumentos daqui a cem anos, ela é Lee Kuan Yew, o líder de Cingapura que inventou e colocou em prática o chamado “capitalismo de valores asiáticos”. O vírus desse capitalismo autoritário tem se espalhado de maneira vagarosa porém certeira pelo globo.
Antes de dar início a suas reformas, Deng Hsiao-Ping visitou Cingapura e enalteceu expressamente aquele país como um modelo que toda a China deveria seguir. Essa mudança tem um significado histórico mundial: até agora, o capitalismo parece inextricavelmente ligado à democracia – viu-se, é claro, de tempos em tempos, o recurso da ditadura direta, mas, depois de uma década ou duas, a democracia se impôs de novo (lembre-se, por exemplo, apenas dos casos da Coreia do Sul e do Chile). Agora, no entanto, a ligação entre a democracia e o capitalismo está rompida.
Diante da atual explosão do capitalismo na China, os analistas com frequência perguntam-se quando a democracia política, como acompanhamento político natural do capitalismo, se fortalecerá. Não obstante, uma análise mais detida rapidamente desfaz essa esperança – e se o prometido segundo estágio democrático que se segue ao autoritário vale de lágrimas nunca chegar? Talvez seja isso o que há de mais inquietante sobre a China de hoje: a suspeita de que seu capitalismo autoritário não é apenas uma sobra do nosso passado, a repetição do processo de acumulação capitalista que, na Europa, deu-se do século 16 ao 18, e sim um sinal do nosso futuro.
E se “a perniciosa combinação do açoite asiático com a bolsa de valores europeia” (a velha caracterização de Trotski da Rússia tsarista) provar-se economicamente mais eficiente que o nosso capitalismo liberal? E se ela sinalizar que a democracia, como a entendemos, não é mais condição e mola propulsora do desenvolvimento econômico, mas seu obstáculo?

Salto adiante

Há  aqui ainda um paradoxo adicional: existe, para além de todos os comentários maliciosos e analogias superficiais, uma profunda homologia estrutural entre o permanente autorrevolucionamento maoísta, o permanente combate contra a ossificação das estruturas estatais, e a dinâmica inerente ao capitalismo. Aqui torna-se tentador parafrasear o trocadilho de Bertolt Brecht “o que é o roubo de um banco se comparado com a fundação de um novo banco?”: o que são os ímpetos violentos e destrutivos de um membro da Guarda Vermelha durante a Revolução Cultural se comparados à verdadeira Revolução Cultural, a dissolução permanente de todas as formas de vida necessárias à reprodução capitalista? Hoje, a tragédia do Grande Salto Adiante [campanha de Mao Tsé-tung para tornar a China uma nação desenvolvida e socialmente justa em tempo recorde] está se repetindo como a comédia do acelerado Grande Salto Adiante capitalista para a modernização, com o velho slogan “fundição de ferro em cada vilarejo” ressurgindo como “um arranha-céu em cada rua”. Ou, para dizer de uma maneira brutalmente irônica, a liquidação dos inimigos nos expurgos maoístas dá lugar à liquidação total dos estoques nos centros de comércio.

Mao Tsé-tung, o grande capitalista?

Alguns esquerdistas ingênuos alegam que o legado da Revolução Cultural e o maoísmo em geral atuam como força contrária ao capitalismo desenfreado, evitando seus piores excessos, mantendo um mínimo de solidariedade social. E se, entretanto, o caso for exatamente o oposto? E se, numa espécie de malandragem involuntária e, por isso mesmo, ainda mais cruelmente irônica, a Revolução Cultural, com seu apagamento brutal de tradições passadas, foi um “choque” que criou as condições para a subsequente explosão capitalista? E se a China tiver de ser adicionada à lista de Naomi Klein de Estados nos quais uma catástrofe natural, militar ou social abriu o caminho para uma nova explosão capitalista?

A suprema ironia da história é tal que foi o próprio Mao quem criou as condições ideológicas para o rápido desenvolvimento capitalista demolindo a base da sociedade tradicional. Qual foi o seu clamor para o povo, especialmente para os jovens, na Revolução Cultural? “Não esperem que outra pessoa lhes diga o que fazer, vocês têm o direito de se rebelar! Então pensem e ajam por si próprios, destruam relíquias culturais, denunciem e ataquem não apenas os mais velhos, mas também o governo e oficiais do partido! Varram do mapa o mecanismo repressor estatal e organizem-se em comunas!” E o clamor de Mao foi ouvido – o que se seguiu foi uma explosão de paixão desenfreada que visava deslegitimar todas as formas de autoridade, de modo que, no fim, Mao teve de chamar o exército para restabelecer alguma ordem. O paradoxo é tal que a batalha-chave da Revolução Cultural não se deu entre o aparato do Partido Comunista e os inimigos tradicionais denunciados, mas entre exército e Partido Comunista e as forças que Mao havia invocado.

Confrontar a limitação da democracia parlamentar

Isso não significa, é claro, que devamos renunciar à democracia em favor do progresso capitalista. Mas deveríamos confrontar a limitação da democracia parlamentar representativa, bem formulada por Noam Chomsky quando disse que “é apenas quando a ameaça de participação popular é superada que formas democráticas podem ser contempladas com segurança” e, dessa forma, destacou o núcleo “apassivador” da democracia parlamentar que a torna incompatível com a auto-organização política direta do povo.
Walter Lippmann, o ícone do jornalismo norte-americano no século 20, desempenhou um papel fundamental na compreensão da democracia estadunidense. Apesar de politicamente progressista (tendo defendido uma relação justa com a União Soviética etc.), propôs uma teoria da mídia pública que tem um arrepiante efeito de verdade. Ele cunhou a expressão “manufatura do consentimento”, mais tarde tornada famosa por Chomsky – mas Lippmann a pensou de uma maneira positiva. Em Public opinion (1922), ele escreveu que “uma classe governante” deve se erguer para enfrentar o desafio – ele via o povo à maneira de Platão, como uma enorme besta ou um rebanho perplexo – debatendo-se no “caos das opiniões locais”.
Assim, o rebanho de cidadãos deve ser governado por “uma classe especializada cujos interesses não se limitem à sua localidade” – essa elite deve agir como uma maquinaria de conhecimento que remedia o defeito primário da democracia, o ideal impossível do “cidadão onicompetente”.

Cada cidadão é um rei

É assim que funcionam nossas democracias: com nosso consentimento. Não há mistério no que Lippmann estava dizendo. É um fato óbvio; o mistério reside no fato de que, cientes disso, nós jogamos esse jogo. Agimos como se fôssemos livres e estivéssemos decidindo livremente, não só aceitando silenciosamente, mas até mesmo exigindo que uma injunção invisível (inscrita na própria forma de nosso discurso livre) nos diga o que fazer e pensar. Como há muito já sabia Marx, o segredo está na própria forma.

Nesse sentido, numa democracia, cada cidadão ordinário é efetivamente um rei – mas um rei numa democracia constitucional, um rei que decide apenas formalmente, cuja função é a de assinar medidas propostas pela administração executiva. É por isso que o problema dos rituais democráticos é homólogo ao grande problema da democracia constitucional: como proteger a dignidade do rei? Como manter a aparência de que o rei de fato decide, quando todos sabemos que isso não é verdade? Trotski estava, portanto, certo em sua reprovação da democracia parlamentar, que não se deve ao fato de ela dar demasiado poder às massas incultas, mas, paradoxalmente, ao fato de ela apassivar demasiadamente as massas, deixando a iniciativa para o aparato de poder estatal (diferentemente do que ocorreria nos “sovietes”, nos quais as classes trabalhadoras se mobilizam de maneira direta e exercem o poder).

A crise da democracia

O que chamamos “crise da democracia” não ocorre, portanto, quando as pessoas deixam de acreditar em seu próprio poder, mas, ao contrário, quando deixam de confiar nas elites, naqueles de quem se espera que saibam por elas e que as orientem, quando experimentam a ansiedade que indica que “o (verdadeiro) trono está vago”, que a decisão é agora de fato sua. Há, assim, nas “eleições livres” sempre um aspecto mínimo de polidez: os que estão no poder educadamente fingem não reter o poder e nos pedem que decidamos livremente se queremos dar-lhes o poder – uma forma que imita a lógica de um gesto que se espera que seja recusado.
Ou, posto em termos da Vontade Popular: a democracia representativa em sua própria noção envolve um apassivamento da Vontade Popular, sua transformação em não voluntariedade – a voluntariedade é transferida para o agente que representa o povo e que exerce a vontade em seu lugar.
Quando alguém é acusado de comprometer a democracia, deveria então responder com uma paráfrase da réplica à similar acusação (de que os comunistas estão comprometendo a família, a propriedade, a liberdade etc.) no Manifesto comunista: a própria ordem dominante já os está comprometendo. Da mesma forma que a liberdade (de mercado) é não liberdade para aqueles que vendem sua força de trabalho, da mesma maneira que a família é comprometida pela família burguesa sob a forma de prostituição legalizada, a democracia é comprometida por sua forma parlamentar com seu concomitante apassivamento da grande maioria e os crescentes privilégios executivos implicados pela contagiosa lógica de estado de emergência.

Tipos de corrupção na democracia

Badiou propôs uma distinção entre dois tipos (ou, antes, níveis) de corrupção na democracia: a corrupção empírica de fato e a corrupção que é inerente à própria forma da democracia com sua redução da política à negociação de interesses privados. Essa separação torna-se visível nos casos (raros, admita-se) em que um político “democrático” honesto luta contra a corrupção empírica ao mesmo tempo em que apoia o espaço formal da corrupção. (Claro que também ocorre o caso oposto do político empiricamente corrupto que age em favor da ditadura da Virtude.)
Tendo em vista a distinção benjaminiana entre violência constituída e constituinte, seria possível dizer que estamos lidando com a distinção entre a corrupção constituída (casos empíricos de violação da lei) e a corrupção “constituinte” da própria forma de governo:

“Se a democracia é uma representação, em primeiro lugar ela representa o sistema geral que sustenta sua forma. Em outras palavras, a democracia eleitoral só é representativa na medida em que é antes a representação consensual do capitalismo, hoje chamado de ‘economia de mercado’. Tal é a sua corrupção em princípio.” (Alain Badiou, De quoi Sarkozy est-il le nom?)

Essas linhas de Badiou deveriam ser tomadas em seu sentido mais estritamente transcendental: é claro que no nível empírico a democracia liberal multipartidária “representa” – espelha, registra, mede – a dispersão quantitativa das diferentes opiniões das pessoas, o que elas pensam sobre os programas propostos pelos partidos e sobre seus candidatos etc.; no entanto, mais importante que esse nível empírico e num sentido muito mais “transcendental”, a democracia liberal multipartidária “representa” – institui – uma certa visão de sociedade, política e do papel que os indivíduos nela têm.

A indiferença política das pessoas

A democracia liberal multipartidária “representa” uma visão muito precisa da vida social na qual a política se organiza em partidos que competem por meio de eleições para exercer o controle sobre o estado legislativo e o aparato executivo etc. Deve-se sempre estar ciente de que essa “moldura transcendental” nunca é neutra – ela privilegia certos valores e práticas.
Essa não neutralidade torna-se palpável nos momentos de crise ou indiferença, quando experimentamos a incapacidade do sistema democrático de captar o que as pessoas de fato querem ou pensam – essa incapacidade foi demonstrada por fenômenos anômalos como as eleições britânicas de 2005: apesar da crescente impopularidade de Tony Blair (ele era constantemente eleito a pessoa mais impopular do Reino Unido), não houve meio de esse descontentamento encontrar uma expressão política efetiva.
Havia algo de obviamente problemático nesse caso – não que as pessoas “não soubessem o que queriam”, mas, antes, a resignação cínica as impediu de agir de acordo com essa vontade, de modo que o resultado foi o estranho desencontro entre o que as pessoas pensavam e como elas agiram (votaram).
Já Platão, em sua crítica à democracia, mostrava-se totalmente ciente desse segundo tipo de corrupção; e essa crítica também é claramente discernível no favorecimento jacobino da Virtude: na democracia no sentido de representação e negociação da pluralidade de interesses privados, não há espaço para a Virtude. É por esse motivo que, na revolução proletária, a democracia tem de ser substituída pela ditadura do proletariado.

Eleições não são um meio de Verdade

Não há razão para desprezar as eleições democráticas; deve-se apenas insistir que não existe uma indicação per se da Verdade – como regra, elas tendem a refletir a doxa predominante determinada pela ideologia hegemônica.
Tomemos um exemplo que certamente não é problemático: a França em 1940. Até Jacque Duclos, o segundo homem do Partido Comunista Francês, admitiu numa conversa particular que se, àquela altura da história, eleições livres tivessem ocorrido na França, o marechal Pétain teria ganhado com 90% dos votos. Quando De Gaulle, em seu ato histórico, recusou-se a reconhecer a rendição aos alemães e continuou a resistir, alegando que apenas ele, e não o regime de Vichy, falava em nome da verdadeira França (em nome da verdadeira França como tal, não apenas em nome da “maioria dos franceses”!), o que ele estava dizendo era profundamente verdadeiro ainda que do ponto de vista “democrático” fosse não apenas ilegítimo como também claramente oposto à opinião da maioria do povo francês…
Pode haver eleições democráticas que sancionem um evento de Verdade – uma eleição na qual, contra a inércia cético-cínica, a maioria “desperte” momentaneamente e vote contra a opinião ideológica dominante -, porém, o caráter bastante excepcional de um tal surpreendente resultado eleitoral prova que as eleições como tal não são um meio de Verdade.

A ascensão do capitalismo autoritário

É esse potencial autêntico da democracia que vem perdendo terreno para a ascensão do capitalismo autoritário, cujos arroubos se aproximam cada vez mais do Ocidente – de acordo, é claro com os “valores” de cada país. O capitalismo de Putin com “valores russos” (demonstração brutal de poder), o capitalismo de Berlusconi com “valores italianos” (uma postura cômica)…

Tanto Putin quanto Berlusconi governam em uma democracia que é cada vez mais reduzida para sua casca vazia e ritualizada e, a despeito da situação econômica que se degrada rapidamente, ambos gozam de amplo (acima de dois terços dos votos) apoio popular. Não admira que sejam amigos pessoais: cada um deles apresenta tendência a escândalos ocasionais e “espontâneos” (que são, pelo menos no caso de Putin, preparados com antecedência para que se adéquem ao “caráter nacional” russo). De tempos em tempos, Putin gosta de usar um palavrão vulgar ou de soltar uma ameaça obscena – quando, há alguns anos, um jornalista ocidental lhe fez uma pergunta desagradável sobre a Chechênia, Putin retrucou que, se ele ainda não fosse circuncidado, estava cordialmente convidado a visitar Moscou, onde há excelentes cirurgiões que poderiam circuncidar seu pênis com um corte um pouco mais profundo que o habitual…

Itália: laboratório da barbárie futura?

A imagem de um Berlusconi como um líder “humano, demasiado humano” aqui é crucial, já que a Itália de hoje é uma espécie de laboratório experimental do nosso futuro. Se nossa cena política se dividir entre a tecnocracia permissiva liberal e o fundamentalismo populista, a grande façanha de Berlusconi foi a de unir os dois, de ser os dois ao mesmo tempo. Talvez seja essa combinação que o torne invencível, ao menos no futuro próximo: os remanescentes da “esquerda” italiana agora o aceitam resignadamente como seu Destino. Essa silenciosa aceitação de Berlusconi como Destino é talvez o mais triste aspecto do seu reino: sua democracia é uma democracia daqueles que ganharam graças à inércia, que reinam por meio da desmoralização cínica.
A fórmula do “antissemitismo razoável” foi mais bem elaborada em 1938 por Robert Brasillach, que se viu como um antissemita “moderado”:

“Nós nos permitimos aplaudir Charlie Chaplin, um meio judeu, nos cinemas; admirar Proust, outro meio judeu; aplaudir Yehudi Menuhin, um judeu; e a voz de Hitler é carregada por ondas de rádio que receberam seu nome do judeu Hertz (…) Nós não queremos matar ninguém, nem queremos organizar nenhum pogrom. Mas também pensamos que a melhor maneira de conter as sempre imprevisíveis ações do antissemitismo instintivo é organizar um antissemitismo razoável.”

Não  é essa a mesma atitude dos atuais governos europeus ao lidar com a “ameaça imigrante”? Depois de rigorosamente rejeitar o racismo populista direto como “irracional” e inaceitável para nossos padrões democráticos, eles endossam medidas “razoavelmente” racistas e protetoras… ou, como Brasillachs de hoje, ainda que alguns deles sejam social-democratas, nos dizem:

“Nós nos permitimos aplaudir os esportistas africanos e europeus orientais, os doutores asiáticos, os programadores de software indianos. Nós não queremos matar ninguém, nós não queremos organizar nenhum pogrom. Mas também pensamos que a melhor maneira de conter as sempre imprevisíveis e violentas medidas defensivas anti-imigrante é organizar uma proteção anti-imigrante razoável.”

Essa visão de desintoxicação do Vizinho apresenta uma clara passagem do barbarismo direto para o barbarismo berlusconiano com rosto humano.

Slavoj Zizek, publicado na Revista CULT, Nº 137, JULHO 2009.

Obs: Zizek nasceu em Liubliana, Eslovênia, em 1949. Filósofo, psicanalista, crítico cultural, professor e pesquisador do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana.

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esos son los imprescindibles

Hay hombres que luchan un día
Y son buenos
Hay otros que luchan un año
Y son mejores
Hay quienes luchan muchos años
Y son muy buenos
Pero hay los que luchan toda la vida
Esos son los imprescindibles
Bertolt brech

EIV – SC/PR

II EIV PR/SC – Documentário – Parte 1

II EIV PR/SC – Documentário – Parte 2

II EIV PR/SC – Documentário – Parte 3

II EIV PR/SC – Documentário – Parte 4

II EIV PR/SC – Documentário – Parte 6 Final

Documentário sobre o II EIV – Estágio Interdisciplinar de Vivência – PR e SC – Edição, Produção e Direção: Amara Fotografie.

e guardo com carinho as palabras de chino, este hermano cordobeño, pra mim:

“Siempre sereno, siempre pensando. Cuando voce caminha siembra bondad, cuando voce habla contagia tranquilidad”. Hernandez Flores (FAEA).