no caderno de poesias

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vou
eu precisava sair
vou
porque não há lugar
estou triste
sou profundamente triste
e nada
nenhuma palavra
aninha
ou anima
há um sono nestes olhos
uma melancolia neste corpo
eu precisava sair
a esmo, atrás d’uma fresta…
eu precisava ser

uma folha ocre no chão
ou aquela pedra bruta pequeninha
esse odor marinho
essa água turva na maré vazia

pois estou triste
e sou profundamente triste
e nada
nenhuma palavra
dá-me fim.

«FIDELITY» por Ted Hughes

#umpoetaumpoemapordia #291 (17/8)

POETA: TED HUGHS

Edward James Hughes (West Yorkshire, Inglaterra, Reino Unido, 17 de agosto de 1930 – Londres, 28 de outubro de 1998) foi um poeta e escritor de livros infantis britânico, comummente considerado pela crítica como um dos melhores poetas de sua geração. Foi casado e teve dois filhos com a romancista e poetisa Sylvia Plath.

POEMA: FIDELITY

It was somewhere to live. I was
Just hanging around, courting you.
Afloat on the morning tide and tipsy feelings
Of my twenty-fifth year. Gutted, restyled
A la mode, the Alexandria House
Became a soup-kitchen. Those were the days
Before the avant-garde of coffee bars.
The canteen clatter of the British Restaurant,
One of the war’s utility leftovers,
Was still the place to repair the nights with breakfasts.
But Alexandria House was the place to be seen in.
The girls that helped to run it lived above it
With a retinue of loose-lifers, day-sleepers
Exhausted with night-owling.
Somehow I got a mattress up there, in a top room,
Overlooking Petty Cury. A bare
Mattress, on bare boards, in a bare room.
All I had, my notebook and that mattress.
Under the opening, bud-sticky chesnuts,
On into June, my job chucked, I laboured
Only at you, squandering all I’d saved.
Free of University I dangled
In its liberties.
Every night I slept on that mattress, under one blanket,
With a lovely girl, escaped freshly
From her husband to the frontier exposure
Of work in the soup-kitchen. What
Knighthood possessed me there? I think of it
As a kind of time that cannot pass,
That I never used, so still possess.
She and I slept in each other’s arms,
Naked and as easy as lovers, a month of nights,
Yet never once made love. A holy law
Had invented itself, somehow, for me.
But she too served it, like a priestess,
Tender, kind and stark naked beside me.
She traced out the fresh rips you had inscribed
Across my back, seeming to join me
In my obsession, in my concentration,
To keep my preoccupation intact.
She never once invited, never tempted.
And I never stirred a finger beyond
Sisterly comforting. I was like her sister.
It never seemed unnatural. I was focused,
So locked onto you, so brilliantly,
Everything that was not you was blind-spot.
I still puzzle over it — doubtful, now,
Whether to envy myself, or pity. Her friend,
Who had a bigger room, was wilder.
We moved in with her. That lofty room
Became a dormitory and HQ
Alternative to St Botolph’s. Plump and pretty,
With a shameless gap-tooth laugh, her friend
Did all she could to get me inside her.
And you will never know what a battle
I fought to keep the meaning of my words
Solid with the world we were making.
I was afraid, if I lost that fight,
Something might abandon us. Lifting
Each of those naked girls, as they smiled at me
In their early twenties, I laid them
Under the threshold of our unlikely future
As those who wanted protection for a new home
Used to bury, under the new threshold,
A sinless child.

TRADUÇÃO DE: Manuel Dias

ted hughes / fidelidade

Era um lugar para viver. Andava
só a ver passar o tempo, a namorar-te,
a flutuar na maré da manhã com as confusas sensações
dos meus vinte e cinco anos. Esvaziada e redecorada
À la mode, a Alexandra House
tinha-se tomado a sopa dos pobres. Estes eram os dias
anteriores à moda vanguardista dos cafés.
A ruidosa cantina do Restaurante Britânico,
uma das marcas deixadas pela guerra,
era um lugar para retemperar noitadas com pequenos-almoços.
Mas a Alexandra House era o lugar onde se ia para ser visto.
As raparigas que recebiam viviam no andar de cima,
acompanhadas por um grupo de perdidos, pessoas que só
dormiam de dia,
exaustos de andarem pela noite. Nem sei como
consegui um colchão ali, num quarto do andar de cima,
com vista para Petty Cury. Um colchão
sem mais, em cima de umas tábuas nuas, num quarto vazio.
Era tudo o que eu tinha, o meu caderno e aquele colchão.
Sob os pegajosos ouriços dos castanheiros que se abriam,
pelo mês de Junho, abandonei o emprego, preocupava-me
só contigo, esbanjando tudo o que tinha poupado.
Livre da Universidade perdia-me
nas suas liberdades. Todas as noites
dormia naquele colchão, debaixo de uma manta,
com uma rapariga encantadora, que acabava de se escapar
ao marido para aquela experiência limite
de servir na sopa dos pobres. Que
cavalheirismo se apoderou de mim? Penso nisto tudo
como se tivesse acontecido num tempo que nunca passou,
que nunca usei, e ainda está, portanto, em meu poder.
Essa rapariga e eu dormimos nos braços um do outro,
nus e tranquilos como amantes, todas as noites, durante um mês,
sem nunca termos feito amor. Uma qualquer lei sagrada
tinha sido inventada só para mim.
Mas também ela lhe obedecia, como uma sacerdotisa,
delicada e meiga e completamente nua a meu lado.
Seguia com o dedo os arranhões que tu tinhas acabado
de inscrever
a toda a largura das minhas costas, e até parecia que se queria
juntar a mim
na minha obsessão, na minha concentração,
para manter a minha preocupação intacta.
Nem uma única vez me convidou, nunca tentou nada.
E eu nunca movi um dedo para além
de um consolo fraterno. Eu era como uma irmã,
e aquilo nunca me pareceu antinatural. Estava absorto,
tão fechado em ti, de uma forma tão cega,
que tudo o que não fosses tu não existia para mim.
E ainda hoje medito — embora já tenha dúvidas
se é motivo para me orgulhar, ou para me lamentar. A sua amiga
tinha um quarto maior, e era mais selvagem.
Mudámo-nos e ficámos no quarto dela. Aquele quarto enorme
transformou-se em dormitório e em quartel-general
alternativo a St Botolph’s. Bonita e roliça,
com um desenvergonhado riso de dentes ralos, esta
sua amiga
fez tudo o que pôde para me ter dentro dela.
E nunca saberás da batalha
que eu travei para manter o sentido às minhas palavras,
no mundo que nós estávamos a construir.
Eu tinha medo que, se perdesse aquela luta,
alguma coisa nos abandonasse. Erguendo do solo uma
daquelas raparigas nuas, enquanto elas me sorriam
nos seus vinte e poucos anos, coloquei-as
no limiar do nosso improvável futuro
como aqueles que, precisando de proteger a sua casa
tinham por hábito sepultar, no limiar da nova casa,
uma criança inocente.

ted hughes
cartas de aniversário
trad. de manuel dias
relógio d´água
2000

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ted_Hughes
http://www.babelmatrix.org/works/en/Hughes%2C_Ted-1930/Fidelity
https://canaldepoesia.blogspot.com/2012/01/ted-hughes-fidelidade.html
http://amediavoz.com/hughes.htm
http://www.elfikurten.com.br/2018/04/ted-hughes-poemas.html

OUTROS

Fagundes Varela, poeta brasileiro e patrono da Academia Brasileira de Letras
Liberato Marcial Rojas, político, jornalista e poeta paraguaio.
Carlos Alberto Leumann , jornalista e poeta argentino
Oliverio Girondo , poeta argentino
António Botto , poeta português
Wilfrid Scawen Blunt , poeta inglês e ativista
Evan S. Connell , romancista americano, poeta e escritor de contos
Rachel Pollack , autora americana, poeta e educadora
Herta Müller , poeta e escritora romeno-alemã, laureada com o Prêmio Nobel
Korrie Layun Rampan , autor indonésio, poeta e crítico
Laurence Overmire , poeta, escritor e ator americano

«PARAÍSO PERDIDO» por João José Cochofel

#umpoetaumpoemapordia #260 (17/7)

POETA: JOÃO JOSÉ COCHOFEL

João José de Mello Cochofel Aires de Campos (Coimbra, Portugal, 17 de julho de 1919 – 1982), foi um poeta, ensaísta, e crítico literário e musical português.

POEMA: PARAÍSO PERDIDO

Que vens aqui fazer, espírito velho
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?

Então…
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.

Foi mais tarde…
que a vida me entardeceu.

(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu… )
Foi mais tarde…
que a tal desgraça se deu.

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/João_José_Cochofel
http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/portugal/joao_jose_cochofel.html
http://bibliotecariodebabel.com/geral/quatro-poemas-de-joao-jose-cochofel/
https://www.escritas.org/pt/joao-jose-cochofel
http://www.jornaldepoesia.jor.br/jjc.html
http://wwwpoetanarquista.blogspot.com/2013/07/poesia-joao-jose-cochofel.html

OUTROS

Isaac Watts, poeta e teólogo britânico
Bruno Jasieński, poeta polonês
Donald Davie , poeta e crítico literário inglês
Shmuel Yosef Agnon , romancista ucraniano-israelense, escritor de contos e poeta, ganhador do Prêmio Nobel

«VOU PÔR UM ANÚNCIO OBSCENO NO DIÁRIO» por António Franco Alexandre

#umpoetaumpoemapordia #230 (17/6)

POETA: ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

(Viseu, Portugal, em 17 de Junho de 1944) é um matemático, filósofo e poeta português

POEMA: VOU PÔR UM ANÚNCIO OBSCENO NO DIÁRIO

Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.

Quatro Caprichos
Assírio & Alvim, 1999

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/António_Franco_Alexandre
http://revistamododeusar.blogspot.com/2011/04/antonio-franco-alexandre.html
https://ler.blogs.sapo.pt/um-poema-de-antonio-franco-alexandre-1061477
http://revistamododeusar.blogspot.com/2011/04/antonio-franco-alexandre.html
http://cronicasderobertolima.blogspot.com/2011/03/4-poemas-de-antonio-franco-alexandre.html
https://asfolhasardem.wordpress.com/tag/antonio-franco-alexandre/

OUTROS

Henrik Wergeland , poeta e linguista norueguês
Ferdinand Freiligrath , poeta alemão
José Luis García Martín , poeta e crítico literário espanhol.

«SONETO DO DESMANTELO AZUL» por Carlos Pena Filho

umpoetaumpoemapordia #199 (17/5)

POETA: CARLOS PENA FILHO

Carlos Pena Filho (Recife, 17 de maio de 1929 — Recife, 10 de junho de 1960) foi um advogado, jornalista e poeta brasileiro, considerado um dos mais importantes poetas pernambucanos da segunda metade do século XX depois de João Cabral de Melo Neto.

POEMA: SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

 

 

+ SOBRE

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2017/04/carlos-pena-filho-1929-1960.html
http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet328.htm
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/carlos_pena_filho.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Pena_Filho
http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=537
http://www.jornaldepoesia.jor.br/cpena.html
Pena, documentário sobre Carlos Pena Filho

Em gravação de 1962, a cantora Maysa (1936-1977) interpreta “A Mesma Rosa Amarela“, do compositor Capiba, com letra de Carlos Pena Filho

OUTROS

José Emílio-Nelson (Espinho17 de maio de 1948) é um poetacrítico e editor português

«DÉDALO» por Jaime Torres Bodet 

#umpoetaumpoemapordia #169 (17/4)

POETA: JAIME TORRES BODET

Mario Jaime Torres Bodet (Cidade do México, 17 de abril de 1902 – Cidade do México, 13 de maio de 1974) foi um proeminente político, filósofo e escritor mexicano. T

POEMA: DÉDALO

Enterrado vivo
en un infinito
dédalo de espejos,
me oigo, me sigo,
me busco en el liso
muro del silencio.

Pero no me encuentro.

Palpo, escucho, miro.
Por todos los ecos
de este laberinto,
un acento mío
está pretendiendo
llegar a mi oído.

Pero no lo advierto.

Alguien está preso
aquí, en este frío
lúcido recinto,
dédalo de espejos…
Alguien, al que imito.
Si se va, me alejo.
Si regresa, vuelvo.
Si se duerme, sueño.
“¿Eres tú?”, me digo…

Pero no contesto.

Perseguido, herido
por el mismo acento
-que no sé si es mío-
contra el eco mismo
del mismo recuerdo
en este infinito
dédalo de espejos
enterrado vivo.

+ SOBRE:

http://www.los-poetas.com/b/bodet1.htm
http://amediavoz.com/torresbodet.htm
http://www.poetaspoemas.com/jaime-torres-bodet
https://es.wikipedia.org/wiki/Jaime_Torres_Bodet

OUTROS:

Henry Vaughan, físico, escritor e poeta galês
John Ford, dramaturgo e poeta inglês
Jaime Torres Bodet , diplomata, ensaísta e poeta mexicano
Hervé Bazin , autor e poeta francês

«POEMA TRÁGICO CON DUDOSOS LOGROS CÓMICOS» por José Watanabe

#umpoetaumpoemapordia #138 (17/3)

POETA: JOSÉ WATANABE

José Watanabe Varas (Trujillo , março 17, como como 1945 – Lima , 25, em abril de 2007 ), foi um renomado poeta peruano.

POEMA: POEMA TRÁGICO CON DUDOSOS LOGROS CÓMICOS

Mi familia no tiene médico
ni sacerdote ni visitas
y todos se tienden en la playa
saludables bajo el sol del verano.

Algunas yerbas nos curan los males del estómago
y la religión sólo entra con las campanas alborotando los canarios.

Aquí todos se han muerto con una modestia conmovedora,
mi padre, por ejemplo, el lamentable Prometeo
silenciosamente picado por el cáncer más bravo que las águilas.

Ahora nosotros
ninguno doctor o notable
en el corazón de modestas tribus,
la tribu de los relojeros
la más triste de los empleados públicos
la de los taxistas
la de los dueños de fonda
de vez en cuando nos ponemos trágicos y nos preguntamos por la muerte.

Pero hoy estamos aquí saludables escuchando el murmullo
de la mar que es el morir.

Y este murmullo nos reconcilia con el otro murmullo del río
por cuya ribera anduvimos matando sapos sin misericordia,
reventándolos con un palo sobre las piedras del río tan metafórico
que da risa.

Y nadie había en la ribera contemplando nuestras vidas hace años
sino solamente nosotros
los que ahora descansamos colorados bajo el verano
como esperando el vuelo del garrote
sobre nuestra barriga
sobre nuestra cabeza
nada notable
nada notable.

+ SOBRE

https://es.wikipedia.org/wiki/José_Watanabe
Cinco poemas de José Watanabe | Selección por Martín Zúñiga Chávez
http://dosis.pe/5-poemas-de-jose-watanabe/
http://el-placard.blogspot.com.br/2009/11/poemas-de-jose-watanabe_04.html
http://www.latinamericanliteraturetoday.org/es/2017/april/tres-poemas-de-josé-watanabe

biblioteca audiovisual de José Watanabe

watanabe

OUTROS
Antônio Maria de Araújo Morais, poeta e compositor brasileiro
Francisco Acuyo, poeta e escritor espanhol
Ebenezer Elliott, poeta e educador inglês
Jean Ingelow, poeta e autor inglês
Patrice Contamine de Latour, poeta espanhola

«MONÓLOGO DE SEGISMUNDO (fragmento LA VIDA ES SUEÑO)», por Pedro Calderón de la Barca

#umpoetaumpoemapordia #079 (17/1)

POETA: PEDRO CALDERÓN DE LA BARCA

Pedro Calderón de la Barca (Madrid, 17 de janeiro de 1600 – Madrid, 25 de maio de 1681) foi um dramaturgo e poeta espanhol.

POEMA –  LA VIDA ES SUEÑO (fragmento)

(Este fragmento trata-se do Monólogo de Segismundo da peça A vida é sonho, de Pedro Calderón de la Barca (1600-1681)
Es verdad, pues: reprimamos / esta fiera condición, / esta furia, esta ambición, / por si alguna vez soñamos. / Y sí haremos, pues estamos / en mundo tan singular, / que el vivir sólo es soñar; / y la experiencia me enseña, / que el hombre que vive, sueña / lo que es, hasta despertar. // Sueña el rey que es rey, y vive / con este engaño mandando, / disponiendo y gobernando; / y este aplauso, que recibe / prestado, en el viento escribe / y en cenizas le convierte / la muerte (¡desdicha fuerte!): / ¡que hay quien intente reinar / viendo que ha de despertar / en el sueño de la muerte! / Sueña el rico en su riqueza, / que más cuidados le ofrece; / sueña el pobre que padece / su miseria y su pobreza; / sueña el que a medrar empieza, / sueña el que afana y pretende, / sueña el que agravia y ofende, / y en el mundo, en conclusión, / todos sueñan lo que son, / aunque ninguno lo entiende. // Yo sueño que estoy aquí, / de estas prisiones cargado; / y soñé que en otro estado / más lisonjero me vi. / ¿Qué es la vida? Un frenesí. / ¿Qué es la vida? Una ilusión, / una sombra, una ficción, / y el mayor bien es pequeño; / que toda la vida es sueño, / y los sueños, sueños son.
Tomada del libro “La vida es sueño” Pedro Calderón de la Barca

TRADUÇÃO DE: SALOMÃO SOUSA

Da peça “A vida é sonho”:
Certo; então reprimamos / esta fera condição, / esta fúria, esta ambição, / pois talvez ainda sonhamos. / E assim faremos, se estamos / em mundo tão singular / que viver não é mais que sonhar, / e a experiência, risonha, / diz que o homem que vive sonha / aquilo que é até despertar. / Sonha o rei que é rei, e vive / com este engano mandando, / dispondo e governando; / e aquele aplauso, que, breve, / recebe, no vento se escreve / e em cinzas o converte / a morte: desgraça forte! / Existe quem tente reinar / vendo que irá despertar / dentro do sonho da morte! / Sonha o rico em sua riqueza, / que mais zelos lhe oferece; / sonha o pobre que padece / sua miséria e sua pobreza; / sonha o que inicia a destreza; / sonha o que afana e pretende; / sonha o que agrava e ofende; / e no mundo, em conclusão, / todos sonham o que são, / e que é assim ninguém entende. / Eu sonho que estou aqui / destes grilhões carregado / e sonhei que em estado / mais lisonjeiro me vi. / Que é a vida?: um frenesi. / Que é a vida?: uma ilusão, / uma sombra, uma ficção; / e o maior bem é bisonho, / que toda a vida é sonho, / e os sonhos, sonhos são.

TRADUÇÃO DE: RENATA PALLOTINI

É certo; então reprimamos / esta fera condição, / esta fúria, esta ambição, / pois pode ser que sonhemos; / e o faremos, pois estamos / em mundo tão singular / que o viver só é sonhar / e a vida ao fim nos imponha / que o homem que vive, sonha / o que é, até despertar. / Sonha o rei que é rei, e segue / com esse engano mandando, / resolvendo e governando. / E os aplausos que recebe, / vazios, no vento escreve; / e em cinzas a sua sorte / a morte talha de um corte. / E há quem queira reinar, / vendo que há de despertar / no negro sonho da morte? / Sonha o rico sua riqueza / que trabalhos lhe oferece; / sonha o pobre que padece / sua miséria e pobreza; / sonha o que o triunfo preza, / sonha o que luta e pretende, / sonha o que agrava e ofende / e no mundo, em conclusão, / todos sonham o que são, / no entanto, ninguém entende. / Eu sonho que estou aqui / de correntes carregado / e sonhei que noutro estado / mais lisonjeiro me vi. / Que é a vida? Um frenesí. / Que é a vida? Uma ilusão, / uma sombra, uma ficção; / o maior bem é tristonho, / porque toda a vida é sonho / e os sonhos, sonho são.

MAIS SOBRE

http://www.rjgeib.com/thoughts/barca/barca.html
http://insightsliterarios.blogspot.com.br/2010/05/vida-e-sonho-la-vida-es-sueno.html
http://cryslira.blogspot.com.br/2012/02/vida-e-sonho-pedro-calderon-de-la-barca.html
http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/espanha/calderon_de_la_barca.html
http://poemacoleccion.blogspot.com.br/p/la-vida-es-sueno.html

http://www.rjgeib.com/thoughts/barca/barca.html

 

«ANDO PENANDO» por Alcides Malandro Histórico

#umpoetaumpoemapordia #048 (17/12)

POETA: ALCIDES MALANDRO HISTÓRICO

Alcides Dias Lopes, mais conhecido como Alcides Malandro Histórico, (Rio de Janeiro, 17 de dezembro de 1909 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1987) foi poeta, compositor e intérprete brasileiro e integrante da Velha Guarda da Portela. wIKIPÉDIA

POEMA: ANDO PENANDO

Ando Penando
A razão, ainda não sei
Eu desejava saber
Porque tanto assim sofrer
Para mim ficar ciente
Muito embora assim tristonho até morrerPara mim viver mais sossegado
Eu queria saber a razão
Para não viver enganado
Nem reclamar em vão

 

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Alcides_Malandro_Histórico
http://peledegato.blogspot.com.br/2012/01/alcides-malandro-historico-da-portela.html
https://sambafalado.blogspot.com.br/2009/02/ando-penando-alcides.html

OUTROS

Thomas Woolner , escultor e poeta britânico

Władysław Broniewski , soldado polonês e poeta

Abdul Rahim Khan-I-Khana , poeta paquistanês-indiano

Thomas Tickell , poeta inglês

John Greenleaf Whittier , poeta e ativista americano

Ford Madox Ford , romancista inglês, poeta e crítico

Penelope Fitzgerald , autora e poeta inglesa

Jüri Talvet , poeta e crítico estoniano

 

«NÃO AQUI» por José Bento

#umpoetaumpoemapordia #018 (17/11)

POETA: JOSÉ BENTO

José Bento de Almeida e Silva Nascimento (Pardilhó, Estarreja, 17 de novembro de 1932) é um poeta e tradutor português, e importante divulgador da cultura hispânica em Portugal, tendo começado a fazer traduções do espanhol para o português há mais de meio século. Wikipédia

POEMA: NÃO AQUI

Não parti, não regressei
não estive nunca
neste lugar.
Nem estou aqui agora.

Tanto como hoje,
outrora estar aqui
foi conhecer
não uma terra mas o seu vazio

A ciência dos lugares
É duvidosa e vã
Arde a paisagem
nos olhos que a contemplam.

Uma viagem, – como?
Os mapas traçam-se
com um sopro indelével
de sombra
e esquecimento.

BENTO, José, Alguns Motetos

+ SOBRE

http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/portugal/jose_bento.html
https://www.publico.pt/2002/02/02/jornal/traduzir-e-escrever-um-poema-que-nao-seja-nosso-167004
https://lusografias.wordpress.com/2016/10/16/jose-bento-nao-aqui/
http://www.relampago.pt/premiolmn/jose-bento-sitios.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/JoséBento(poeta)

 

a língua tem som

o código, a cauda e o sal

na tua língua há o som,
o sentido e um gosto de sal

em ti gasto a saliva,
em nossa lassa língua
nos engendramos humanos

E antes da língua,
de nossas línguas
seríamos música, guturais, sem tradução,
a expressão pré-verbal, de nós,

animais sem coda

Vagner Boni, 17 nov, 2010.

Aula de Teoria Antropológica II, sala 333/CFH.


Joan Miró, Homem, mulher, pássaro, 1959.
Joan Miró, Homem, mulher, pássaro, 1959.

os barcos

treze e quatorze acampei [fizemos o caminho pântano-lagoinha, ida e volta]. dezesseis subi o pico da coroa [fizemos o caminho matadeiro-lagoinha e pântano-lagoinha, ida e volta, respectivamente.

houve sol e chuva, choro e riso e uma infinidade de sentimentos. as fotografias ficaram lindas. haviam até barquinhos. compartilhamos emoções, amigos, família. mas engraçado, admito… sempre falta alguém né!

os barcos comprovam isto.

estágio interdisciplinar de vivência

Segundo Estágio Interdisciplinar de Vivência nos movimentos campesinos de Santa Catarina – 2º EIV SC.

Aprendi um tantão: que fazemos a diferença quanto ousamos desafiar nossos medinhos, que nossas lutinhas coletivas, comunitárias e individuais são as cunhas dinâmicas nessa estrutura carcomida e pré-histórica que vive ainda… Hermanas y hermanos soy ahora un sujeito com mais corações…

“Juventude que ousa lutar constrói o poder popular” . Adelante…

exercícios sob o crepúsculo

                                                à beta

O céu azul negro
As árvores, os galhos,
As folhas que vão indo, indo…
O céu riscado
Silêncio! São os carros…
O céu vermelho,
O pássaro, o céu…
As luzes e os carros,
Os carros, os carros…
O carro amarelo, a moça
A moça que me olha no espelho
Eu imóvel, eu indo, eu espelho
O céu vermelho
O meu corpo exausto
A moça me olha
Nus e vermelhos
Os carros
À noite
A moça
O espelho…

Volta ao morro, Beira-mar, Florianópolis – 17 jul, 2006. [seg]