POEMA DIÁRIO #6

poema “para canção”, da poeta “olga beirggolts”. no livro “poesia soviética”. seleção e tradução de lauro machado coelho.

POEMA DIÁRIO (6)


mas sobre Ольга Фёдоровна Берггольц

«DU VAR VINDEN» por Olav H. Hauge

#umpoetaumpoemapordia #292 (18/8)

POETA: OLAV H. HAUGE

Olav Håkonson Hauge (Ulvik, Noruega, 18 de agosto de 1908 – Ulvik, 23 de maio de 1994) foi um horticultor, tradutor e poeta norueguês

POEMA: DU VAR VINDEN

Eg er ein båt
utan vind.
Du var vinden.
Var det den leidi eg skulde?
Kven spør etter leidi
når ein har slik vind!

TRADUÇÃO DE:

Foste o vento

Eu sou um barco
sem vento.
Tu foste o vento.
Era este, o meu rumo?
Ao diabo a rota
com um vento assim!

(In Dropar i Austavind (Gotas no Vento Oeste), ( 1966), Olav H. Hauge, um dos mais celebrados poetas noruegueses, tradutor de poesia, agricultor-fruticultor de toda a vida.

TRADUÇÃO DE: Amadeu Baptista

TU ERAS O VENTO

Sou um barco
sem vento.
Tu eras o vento.
Era esse o rumo que eu devia tomar?
A quem importa o rumo
com um vento assim!
Dropar i austavind, 1966

+ SOBRE

https://en.wikipedia.org/wiki/Olav_H._Hauge
http://qohelet.altervista.org/pagine/Sogno_Hauge/Hauge.htm

Poesía noruega: Olav H. Hauge


https://ancorasenefelibatas.net/2012/06/23/foste-o-vento-du-var-vinden/
https://poemadelasemana.wordpress.com/2008/11/10/olav-h-hauge-noruega-1908-1994/
https://ancorasenefelibatas.net/2013/03/11/ler-os-outros-mais-hauge-em-portugues/
http://amadeubaptista.blogspot.com/2013/03/olav-h-hauge.html
http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/search?q=hauge
http://faustomarcelo.blogspot.com/2016/02/poemas-de-olav-h-hauge.html

OUTROS

Jami, poeta persa
Marko Marulić, poeta croata
Nettie Palmer, poeta e crítico australiano
Gulzar, poeta indiano, autor e diretor de cinema

«Мой почерк [Minha letra]» por Ievguêni Ievtuchenko

#umpoetaumpoemapordia #261 (18/7)

POETA: IEVGUÊNI IEVTUSHÊNKO

Ievguêni Ievtuchenko (em russo: Евге́ний Алекса́ндрович Евтуше́нко, por vezes transliterado como Yevgeny Aleksandrovich Yevtushenko ou Ievgueni Ievtuchenko ou ainda Evgueni Ievtuchenko; Zima, 18 de julho de 1932[3] – Tulsa, Oklahoma, 1 de abril de 2017[4]) foi um poeta russo.

Escreveu, entre outros, os poemas Stantsiia Zima (Estação Zima, 1956) e Mamãe e a bomba atômica (1984), em que expressa suas convicções pacifistas.

POEMA: Мой почерк

Мой почерк не каллиграфичен.
За красотою не следя,
как будто бы от зуботычин,
кренясь,
шатаются слова.

Но ты, потомок, мой текстолог,
идя за прошлым по пятам,
учти условия тех штормов,
в какие предок попадал.

Он шёл на карбасе драчливом,
кичливом несколько,
но ты
увидь за почерком качливым
не только автора черты.

Ведь предок твой писал при качке,
не слишком шквалами согрет,
привычно,
будто бы при пачке
его обычных сигарет.

Конечно, вдаль мы пёрли бодро,
но трудно выписать строку,
когда тебе о переборку
с размаху бухает башку.

Пойми всей шкурой и костями,
как это тяжко воспевать,
когда от виденного тянет
не воспевать, а лишь блевать.

Когда моторы заверть душит
и целит в лоб накат волны,
то кляксы лучше завитушек.
Они черны – зато верны.

Тут –
пальцы попросту немели.
Тут-
зыбь замучила хитро.
Тут –
от какой-то подлой мели
неверно дернулось перо.

Но если мысль сквозь всю корявость,
сквозь неуклюжести тиски
пробилась, как по Лене карбас
пробился все же до Тикси,-

потомок, стиль ругать помедли,
жестоко предка не суди
и даже в почерке поэта
разгадку времени найди.
1967

TRADUÇÃO DE: LAURO MACHADO COELHO

Minha letra não é caligráfica.
Sem seguir as regras da beleza,
as palavras se atropelam,
cambaleando,
como se tivessem levado um soco nos queixos.

Mas você, o descendente, meu crítico textual,
seguindo nos calcanhares do passado,
leve em contas esses escolhos
nos quais seu ancestral tropeçou.

Ele andou num belicoso barco de frete costeiro.
um tanto arrogante,
mas você
deveria poder ver, além da letra torta,
não apenas os traços do autor.

O seu ancestral escreveu atirado de um lado para o outro,
fustigado por rajadas de vento que não o mantinham aquecido,
e sem ter o consolo
de hábitos como o maço
de cigarros a que estava acostumado.

É claro, fomos corajosamente longe,
mas não é fácil escrever uma só linha,
quando estão batendo a sua cabeça, com gosto,
contra o tabique.

Arriscando pele e osso,
é difícil cantar loas,
quando o que você te compele,
não a louvar, mas a vomitar…

Quando água suja afoga o seu motor
e uma saraivada de golpes tem como alvo a sua testa,
hematomas são melhores do que floreios,
porque eles são pretos – mas verdadeiros.

Aqui –
os dedos simplesmente se entorpeceram
Aqui –
a curva secretamente atormenada.
Aqui –
a pena, cheia de incerteza, deu um salto,
afastando-se de algum mesquinho perigo oculto.

Mas se, através de toda essa falta de jeito,
através das garras da inaptidão,
uma ideia irrompe no caminho do cargueiro que segue pelo rio Lená,
irrompe até atingir as praias árticas –

então, descendente, não se apresse em amaldiçoar o estilo,
não julgue o seu ancestral severamente,
e até mesmo na letra do poeta
encontre a solução para o enigma de seu tempo.

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ievguêni_Ievtuchenko
http://ruialme.blogspot.com/2004/05/yevgeny-yevtushenko-ftima-estive-na_13.html
https://traducaoliteraria.wordpress.com/2015/03/09/na-loja-poema-de-yevgeny-yevtushenko/
http://sylviabeirute.blogspot.com/2010/11/russia-yevgeny-yevtushenko-poema.html
http://ev-evt.net/stihi/m/kaligraf.php
https://ru.wikipedia.org/wiki/Евтушенко,ЕвгенийАлександрович

OUTROS

Tristan Corbière, poeta francês
Joaquín Romero Murube , poeta e ensaísta espanhol
Angel Crespo , poeta, ensaísta, crítico de arte e tradutor de espanhol
Saverio Bettinelli , poeta italiano, dramaturgo e crítico
William Makepeace Thackeray , escritor e poeta inglês
Bishnu Dey , poeta indiano, crítico e acadêmico
Alan Morrison , poeta britânico

«FADO DO RETORNO» por Lídia Jorge

#umpoetaumpoemapordia #231 (18/6)

POETISA: LÍDIA JORGE

Lídia Guerreiro Jorge (Loulé, Boliqueime, 18 de junho de 1946) é uma escritora portuguesa

POEMA: FADO DO RETORNO

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E páras no tapete

Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Tocados pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Amor, o que será
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lídia_Jorge
https://www.escritas.org/pt/l/lidia-jorge
https://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?poeta=63
http://arquivolidiajorge.blogspot.com/search/label/Poemas
http://amulhereapoesia.blogspot.com/2008/11/ldia-jorge.html

OUTROS

Frithjof Schuon , poeta e pintor suíço
Efraín Huerta , poeta mexicano
Henri Chopin , poeta e músico de vanguarda francês
Geoffrey Hill , poeta britânico.
Raymond Radiguet , autor e poeta francês
Angela Johnson , romancista e poeta americana

«PUNK» por Celso Borges

#umpoetaumpoemapordia #200 (18/5)

POETA: CELSO BORGES

Antonio Celso Borges Araújo (São Luís, 18 de maio de 1959) . Radicado em São Paulo, é um poeta, letrista e jornalista brasileiro. Já publicou cinco livros de poesias: No Instante da Cidade (1983), Pelo Avesso (1985), Persona Non Grata (1990) e Nenhuma das Respostas Anteriores(1996)

POEMA: PUNK

a pomba da paz não quer mais migalhas

    todos os atos são a partir de agora

       instrumentos de força e vício

            there is no future

                 declaro findo os elementos de cortesia

                    nenhuma concessão de praça ou perdão

                        na palma da mão napalm

                           eis a urgência da estética de guerra

 

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Celso_Borges_(poeta)
http://www.jornaldepoesia.jor.br/cborges.html
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/maranhao/celso_borges.html
http://www.ofuturotemocoracaoantigo.com.br/lancamento.html
http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2014/01/celso-borges.html
http://rogeriohenriquerocha.blogspot.com.br/2011/08/poemas-de-celso-borges.html
http://oimparcialblog.com.br/zemaribeiro/2012/04/a-poesia-cortante-de-celso-borges/
Ver no Medium.com
https://www.portalaz.com.br/blog/dom-severino/391668/a-poesia-segundo-celso-borges
https://opoemadopoeta.wordpress.com/2017/05/25/celso-borges/
.

O Futuro tem o Coração Antigo – Poemas de Celso Borges

Vídeo produzido pelo cineasta Beto Matuck e Celso Borges para o lançamento do livro ‘O Futuro tem o Coração Antigo’.

OUTROS

Omar Caiam

«LA FLOR DEL CAFÉ» por Plácido, Gabriel de la Concepción Valdés

#umpoetaumpoemapordia #139 (18/3)

POETA: PLÁCIDO – GABRIEL DE LA CONCEPCION VALDÉS

Diego Gabriel de la Concepción Valdés (Havana, Cuba, 18 de março de 1809 – Havana, 28 de junho de 1844), mais conhecido por seu pseudônimo Placido, era um poeta Afrocubano

POEMA: LA FLOR DEL CAFÉ

Prendado estoy de una hermosa
Por quien la vida daré
Si me acoge cariñosa:
Porque es cándida y hermosa
«Como la flor del café».

Son sus ojos refulgentes,
Grana en sus labios se ve,
Y son sus menudos dientes,
Blancos, parejos, lucientes,
«Como la flor del café».

Una sola vez la hablé
Y la dije: «Me amas, Flora,
Y más cantares te haré
Que perlas llueve la aurora
Sobre la flor del café».

Ser fino y constante juro,
De cumplirlo estoy seguro,
Hasta morir te amaré
Porque mi pecho es tan puro
«Como la flor del café».

Ella contestó al momento:
«—De un poeta el juramento
En mi vida creeré,
Porque se va con el viento
“Como la flor del café”».

Cuando sus almas fogosas
Ofrecen eterna fe,
Nos llaman ninfas y diosas,
Mas fragantes que las rosas
«Y las flores del café».

«Mas cuando ya han conseguido,
Cual céfiro que embebido,
En el valle de Tempé,
Plega sus alas dormido
“Sobre la flor del café”.»

«Entonces, abandonada
En soledad desgraciada
Dejan la que amante fue,
Como en el polvo agostada
“Yace la flor del café”.»

Yo repuse: «Tanta queja
Suspende, Flora, porque
También la mujer se deja
Picar de cualquier abeja,
“Como la flor del café”».

«Quiéreme, trigueña mía,
Y hasta el postrimero día
No dudes que fiel seré;
Tú serás mi poesía
“Y yo tu flor de café”.»

«A tu vista cantaré,
Y lucirá el arrebol
Que a mis dulces trovas dé,
Como a los rayos del Sol
“Brilla la flor del café”.»

Suspiró con emoción,
Miróme, calló y se fue;
Y desde tal ocasión
Siempre sobre el corazón
«Traigo la flor del café».

+ SOBRE

https://linkgua-digital.com/libros/poesia/poemas-de-gabriel-de-la-concepcion-valdes/
https://www.ecured.cu/Gabriel_de_la_Concepción_Valdés
https://verbiclara.wordpress.com/2009/03/18/plegaria-a-dios-gabriel-de-la-concepcian-valdas-placido/

OUTROS

Stéphane Mallarmé, poeta francês
Robert P. T. Coffin, escritor e poeta estado-unidense
Wilfred Owen, poeta britânico
Ronaldo Cunha Lima, político e poeta brasileiro
Manuel de Faria e Sousa , historiador e poeta português
Plácido (Gabriel de la Concepción Valdés), poeta afro-cubano
Srečko Kosovel , poeta esloveno.
Gabriel Celaya , poeta espanhol.
William Cosmo Monkhouse , poeta e crítico inglês
Franz Wright , poeta e tradutor austro-americano

«AMA TU RITMO» por Rubén Darío

#umpoetaumpoemapordia #080 (18/1)

POETA: RUBÉN DARÍO

Félix Rubén García Sarmiento, conhecido como Rubén Darío (Metapa, hoje Ciudad Darío, Matagalpa, 18 de janeiro de 1867 – León, 6 de fevereiro de 1916), foi um poeta nicaraguense, iniciador e máximo representanto do Modernismo literário em língua espanhola. É possivelmente o poeta que tem tido uma maior e mais duradoura influência na poesia do século XX no âmbito hispânico. É chamado de príncipe de las letras castellanas.

POEMA: AMA TU RITMO

 Ama tu ritmo y ritma tus acciones / Bajo su ley, así como tus versos; / Eres un universo de universos / Y tu alma una fuente de canciones. / La celeste unidad que presupones / Hará brotar en ti mundos diversos, / Y al resonar tus números dispersos / Pitagoriza en tus constelaciones. / Escucha la retórica divina / Del pájaro, del aire y la nocturna / Irradiación geométrica adivina; / Mata la indiferencia taciturna / Y engarza perla y perla cristalina / En donde la verdad vuelca su urna.
DARIO, Rubén. Y una sed de ilusiones infinita. Edición e introducción de Alberto Acereda. Barcelona: Lumen, 2000.
MAIS SOBRE O POETA

«EL BOSQUE DE LOS HUESOS» por Luis Guillermo Hernández

#umpoetaumpoemapordia #049 (18/12)

POETA: LUIS HERNÁNDEZ

Luis Guillermo Hernández Camarero ( Lima , 18 de dezembro de 1941 – Buenos Aires , 3 de outubro de 1977 ), poeta peruano da Geração de 60. WIKIPEDIA

POEMA: EL BOSQUE DE LOS HUESOS

Mi país no es Grecia,
Y yo (23) no sé si deba admirar
Un pasado glorioso
Que tampoco es pasado.
Mi país es pequeño y no se extiende
Más allá del andar de un cartero en cuatro días,
Y a buen tren.

Quiza sea que ahora yo aborrezca
Lo que oteo en las tardes: mi país
Que es la plaza de toros, los museos,
Jardineros sumisos y las viejas:
Sibilinas amantes de los pobres,
Muy proclives a hablar de cardenales
(Solteros eternos que hay en Roma),
Y jaurías doradas de marocas.
Mi país es letreros de cine: gladiadores,
Las farmacias de turno y tonsurados,
Un vestirse los Sábados de fiesta
Y familias decentes, con un hijo naval.

Abatido entre Lima y La Herradura
(El rincón Hawai a diez kilómetros
De la eterna ciudad de los burdeles),
Un crepúsculo de rouge cobra banderas,
Baptisterios barrocos y carcochas.
Como al paso senil del bienamado, ahora llueve
Una fronda de estiércol y confeti:
Solitarios son los actos del poeta
Como aquellos del amor y de la muerte.

+ SOBRE

https://www.poetasdelfindelmundo.com/poesia/vox_horrisona-luis-hernandez/
https://es.wikipedia.org/wiki/Luis_Hernández_(poeta)
http://amediavoz.com/hernandezLuis.htm
http://biblioteca.pucp.edu.pe/luis-hernandez/

OUTROS

Victoriano Crémer , poeta e romancista espanhol

Louis Guillaume , escritor e poeta francês,

Gatien Lapointe , escritor e poeta canadense

«OS GATOS» por Manuel António Pina

#umpoetaumpoemapordia #019 (18/11)

POETA: MANUEL ANTÓNIO PINA

Manuel António Pina (Sabugal, Portugal, em 18 de novembro de 1943 — Porto, 19 de outubro de 2012)

POEMA: OS GATOS

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

 

+ SOBRE

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2012/10/manuel-antonio-pina-1943-2012.html
https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=70
https://www.escritas.org/pt/l/manuel-antonio-pina

 

abraço que não te dei

sobre o abraço que não dei
sobre o que não sei
quando tua voz se partia
quando era a despedida,
e ainda esperavas,
ainda me chamavas
mas não, este ser
não sabe se despir,
dessa formalidade
– armadura de resistir ao existir.
este ser que se emaranha,
que é feito em nó
um ser sem abraços
que não sabe, não soube
dizer que tua partida,
faria, fere e fará
uma falta desmedida…
e dessa formalidade,
palavras soltas,
boa viagem,
adeus.

mas ainda guardo intacto
neste poema o nó
do abraço
que não te dei
2016/03/18
TICAN/Florianópolis/SC

dordalma

[ter] 18 de fevereiro de 2014
teu atropelo
e ela agoniza.
um suspiro e
a morte é um vazio.

teu olhar mergulha
e nunca encontra mais –
os olhos bem abertos dela são um vazio profundo.

tua estupidez mutila os teus…
tua lágrima não derramada é tua marca…
tua casca grossa encobre isto que vazas por dentro
gélido e cálido – morte e matador.

ela é um corpo vazio.
tu, dordalma.

campo de trigo com corvos

[dom] 18 de abril de 2010
Campo de Trigo com Corvos
Um humano em seu quarto fechado grita: Nu! – pois a roupa é o cárcere. Aproxima-se então vestida, a fuga deshumana, que em disparada para na caixa torácica… E vira tinta, papel e dor sobre a porta branca navalhada. Então, alguém no meio disso tudo diz: vai, feche os olhos – sinta o cheiro podre das boas roupas, dos bons pratos, dos bons hábitos, da suprema liberdade de ires e vires e transitares por entre os mortos ao vosso mundo. Utilize os talheres. Sinta! – Diz uma voz morna, cromática e enfisematosa, e que já não é voz. É um pedaço de texto cheio de estupidez e ou de carne morta e sereníssima verde. Gozemos todos, co’o cheiro da gargalhada deste cortado, e assim celebremos, todos estúpidos, o que é belo! O que é líquido.

E entre um gole e outro a grossa tinta vermelha ao rasgar vossas gargantas de papel envolve os risos e no ar coagulam-se em bolhas de dor em movimento. Há risos, entre todos. E todos gritam! Todos gritam! [ecoa-se pelas salas e becos…] E todos gritam – uns de amor, uns de dor, outros de doramor… Ou nem isso como se fora um vazio misturado a espessa bruma branca. Esta, tão – neste estado de exceção – habitada por pedaços amontoados de vermelhos, de risos suados, de choros…

E Benjamin, Vicente, Antônio, Tu – todos vazam além da carne e da roupa deste ser. E somos belissimamente a ruína – Aquela que quando olha para si, vê-se nua e cheia de cicatrizes. E deste modo não é mais branca… É um partido, um estado de arte vivo… Humanamente gritando na liberdade de ser vida.

de jalile

Para Maria da Graça

Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar – comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria têm de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu?”
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou ?” É bobice Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

CAMPOS, Paulo Mendes. “Para Maria da Graça”. In: Para gostar de ler, crônicas. São Paulo, Ática, 1979. v.4, pp. 73-76.

626069

um ato brusco

Abrupto
Não é o fim…
É um novo passo
sobre o húmus,
sobre as folhas apodrecidas,
sobre a água morta.

E nas mãos
a porção de vinho

o meu sangue
no corpo o vinho,
azedo…

Não é o fim,                   é o novo gole,
vermelho lodo.

18 jul, 2006. [ter]

exercício dolorido de vagner boni


black-in-deep-red

Black in Deep Red is a painting by Mark Rothko from 1957