POEMA DIÁRIO #7

poema ‘de primavera em leningrado’, da poeta margarita yosifovna aliguer

POEMA DIÁRIO (7)


mais sobre Маргарита Иосифовна Алигер

e

Наталья Шуматова читает фрагмент стихотворения Маргариты Алигер «Весна в Ленинграде»

Ítalo Calvino – Por que ler os clássicos?

[Italo Calvino (Santiago de las Vegas, 15 de outubro de 1923 — Siena, 19 de setembro de 1985) foi um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Nascido em Cuba, de pais italianos, a sua família retornou à Itália logo após o seu nascimento. Formado em Letras, participou na resistência ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial e foi membro do Partido Comunista Italiano até 1956, tendo se desfiliado em 1957. A sua carta de renúncia ficou famosa em 1957. Sua primeira obra foi Il sentiero dei nidi di ragno (A trilha dos ninhos de aranha), publicada em 1947. Uma de suas obras mais conhecidas é Le città invisibili (As cidades invisíveis), de 1972, tendo como personagens Marco Polo e Kublai Khan.]

«Comecemos com algumas propostas de definição.

1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo…” e nunca “Estou lendo…”.

Isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que se consideram “grandes leitores”; não vale para a juventude, idade em que o encontro com o mundo e com os clássicos como parte do mundo vale exatamente enquanto primeiro encontro.

O prefixo reiterativo antes do verbo ler pode ser uma pequena hipocrisia por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso. Para tranqüilizá-los, bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras “de formação” de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu.

Quem leu tudo de Heródoto e de Tucídides levante a mão. E de Saint-Simon? E do cardeal de Retz? E também os grandes ciclos romanescos do Oitocentos são mais citados do que lidos. Na França, se começa a ler Balzac na escola, e pelo número de edições em circulação, se diria que continuam a lê-lo mesmo depois. Mas na Itália, se fosse feita uma pesquisa, temo que Balzac apareceria nos últimos lugares. Os apaixonados por Dickens na Itália constituem uma restrita elite de pessoas que, quando se encontram, logo começam a falar de episódios e personagens como se fossem de amigos comuns. Faz alguns anos, Michel Butor, lecionando nos Estados Unidos, cansado de ouvir perguntas sobre Emile Zola, que jamais lera, decidiu ler todo o ciclo dos Rougon-Macquart. Descobriu que era totalmente diverso do que pensava: uma fabulosa genealogia mitológica e cosmogônica, que descreveu num belíssimo ensaio.

Isso confirma que ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude. A juventude comunica ao ato de ler como a qualquer outra experiência um sabor e uma importância particulares; ao passo que na maturidade apreciam-se (deveriam ser apreciados) muitos detalhes, níveis e significados a mais. Podemos tentar então esta outra fórmula de definição:

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.

De fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida. Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro lido na juventude. Relendo o livro na idade madura, acontece reencontrar aquelas constantes que já fazem parte de nossos mecanismos interiores e cuja origem havíamos esquecido. Existe uma força particular da obra que consegue fazer-se esquecer enquanto tal, mas que deixa sua semente. A definição que dela podemos dar então será:

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

Por isso, deveria existir um tempo na vida adulta dedicado a revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permaneceram os mesmos (mas também eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente), nós com certeza mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo.

Portanto, usar o verbo ler ou o verbo reler não tem muita importância. De fato, poderíamos dizer:

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

A definição 4 pode ser considerada corolário desta:

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

Ao passo que a definição 5 remete para uma formulação mais explicativa, como:

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

Isso vale tanto para os clássicos antigos quanto para os modernos. Se leio a Odisséia, leio o texto de Homero, mas não posso esquecer tudo aquilo que as aventuras de Ulisses passaram a significar durante os séculos e não posso deixar de perguntar-me se tais significados estavam implícitos no texto ou se são incrustações, deformações ou dilatações. Lendo Kafka, não posso deixar de comprovar ou de rechaçar a legitimidade do adjetivo kafkiano, que costumamos ouvir a cada quinze minutos, aplicado dentro e fora de contexto. Se leio Pais e filhos de Turgueniev ou Os posssuídos de Dostoievski não posso deixar de pensar em como essas personagens continuaram a reencarnar-se até nossos dias.

A leitura de um clássico deve oferecer-nos alguma surpresa em relação à imagem que dele tínhamos. Por isso, nunca será demais recomendar a leitura direta dos textos originais, evitando o mais possível bibliografia crítica, comentários, interpretações. A escola e a universidade deveriam servir para fazer entender que nenhum livro que fala de outro livro diz mais sobre o livro em questão; mas fazem de tudo para que se acredite no contrário. Existe uma inversão de valores muito difundida segundo a qual a introdução, o instrumental crítico, a bibliografia são usados como cortina de fumaça para esconder aquilo que o texto tem a dizer e que só pode dizer se o deixarmos falar sem intermediários que pretendam saber mais do que ele. Podemos concluir que:

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

O clássico não necessariamente nos ensina algo que não sabíamos; às vezes descobrimos nele algo que sempre soubéramos (ou acreditávamos saber) mas desconhecíamos que ele o dissera primeiro (ou que de algum modo se liga a ele de maneira particular). E mesmo esta é uma surpresa que dá muita satisfação, como sempre dá a descoberta de uma origem, de uma relação, de uma pertinência. De tudo isso poderíamos derivar uma definição do tipo:

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

Naturalmente isso ocorre quando um clássico “funciona” como tal, isto é, estabelece uma relação pessoal com quem o lê. Se a centelha não se dá, nada feito: os clássicos não são lidos por dever ou por respeito mas só por amor. Exceto na escola: a escola deve fazer com que você conheça bem ou mal um certo número de clássicos dentre os quais (ou em relação aos quais) você poderá depois reconhecer os “seus” clássicos. A escola é obrigada a dar-lhe instrumentos para efetuar uma opção: mas as escolhas que contam são aquelas que ocorrem fora e depois de cada escola.

É só nas leituras desinteressadas que pode acontecer deparar-se com aquele que se torna o “seu” livro. Conheço um excelente historiador da arte, homem de inúmeras leituras e que, dentre todos os livros, concentrou sua preferência mais profunda no Documentos de Pickwick e a propósito de tudo cita passagens provocantes do livro de Dickens e associa cada fato da vida com episódios pickwickianos. Pouco a pouco ele próprio, o universo, a verdadeira filosofia tomaram a forma do Documento de Pickwick numa identificação absoluta. Por esta via, chegamos a uma idéia de clássico muito elevada e exigente:

10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

Com esta definição nos aproximamos da idéia de livro total, como sonhava Mallarmé. Mas um clássico pode estabelecer uma relação igualmente forte de oposição, de antítese. Tudo aquilo que Jean-Jacques Rousseau pensa e faz me agrada, mas tudo me inspira um irresistível desejo de contradizê-lo, de criticá-lo, de brigar com ele. Aí pesa a sua antipatia particular num plano temperamental, mas por isso seria melhor que o deixasse de lado; contudo não posso deixar de incluí-lo entre os meus autores. Direi portanto:

11. O “seu” clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

Creio não ter necessidade de justificar-me se uso o termo clássico sem fazer distinções de antiguidade, de estilo, de autoridade. (Para a história de todas essas acepções do termo, consulte-se o exaustivo verbete “Clássico” de Franco Fortini na Enciclopédia Einaudi, vol. III). Aquilo que distingue o clássico no discurso que estou fazendo talvez seja só um efeito de ressonância que vale tanto para uma obra antiga quanto para uma moderna mas já com um lugar próprio numa continuidade cultural. Poderíamos dizer:

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

A esta altura, não posso mais adiar o problema decisivo de como relacionar a leitura dos clássicos com todas as outras leituras que não sejam clássicas. Problema que se articula com perguntas como: “Por que ler os clássicos em vez de concentrar-nos em leituras que nos façam entender mais a fundo o nosso tempo?” e “Onde encontrar o tempo e a comodidade da mente para ler clássicos, esmagados que somos pela avalanche de papel impresso da atualidade?”.

É claro que se pode formular a hipótese de uma pessoa feliz que dedique o “tempo-leitura” de seus dias exclusivamente a ler Lucrécio, Luciano, Montaigne, Erasmo, Quevedo, Marlowe, o Discours de la méthode, Wilhelm Meister, Coleridge, Ruskin, Proust e Valéry, com algumas divagações para Murasaki ou para as sagas islandesas. Tudo isso sem ter de fazer resenhas do último livro lançado nem publicações para o concurso de cátedra e nem trabalhos editoriais sob contrato com prazos impossíveis. Essa pessoa bem-aventurada, para manter sua dieta sem nenhuma contaminação, deveria abster-se de ler os jornais, não se deixar tentar nunca pelo último romance nem pela última pesquisa sociológica. Seria preciso verificar quanto um rigor semelhante poderia ser justo e profícuo. O dia de hoje pode ser banal e mortificante, mas é sempre um ponto em que nos situamos para olhar para a frente ou para trás. Para poder ler os clássicos, temos de definir “de onde” eles estão sendo lidos, caso contrário tanto o livro quanto o leitor se perdem numa nuvem atemporal. Assim, o rendimento máximo da leitura dos clássicos advém para aquele que sabe alterná-la com a leitura de atualidades numa sábia dosagem. E isso não presume necessariamente uma equilibrada calma interior: pode ser também o fruto de um nervosismo impaciente, de uma insatisfação trepidante.

Talvez o ideal fosse captar a atualidade como o rumor do lado de fora da janela, que nos adverte dos engarrafamentos do trânsito e das mudanças do tempo, enquanto acompanhamos o discurso dos clássicos, que soa claro e articulado no interior da casa. Mas já é suficiente que a maioria perceba a presença dos clássicos como um reboar distante, fora do espaço invadido pelas atualidades como pela televisão a todo volume. Acrescentemos então:

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.

Resta o fato de que ler os clássicos parece estar em contradição com nosso ritmo de vida, que não conhece os tempos longos, o respiro do otium humanista; e também em contradição com o ecletismo da nossa cultura, que jamais saberia redigir um catálogo do classicismo que nos interessa.

Eram as condições que se realizavam plenamente para Leopardi, dada a sua vida no solar paterno, o culto da antiguidade grega e latina e a formidável biblioteca doada pelo pai Monaldo, incluindo a literatura italiana completa, mais a francesa, com exclusão dos romances e em geral das novidades editoriais, relegadas no máximo a um papel secundário, para conforto da irmã (“o teu Stendhal”, escrevia a Paolina). Mesmo suas enormes curiosidades científicas e históricas, Giacomo as satisfazia com textos que não eram nunca demasiado up-to-date: os costumes dos pássaros de Buffon, as múmias de Federico Ruysch em Fontenelle, a viagem de Colombo em Robertson.

Hoje, uma educação clássica como a do jovem Leopardi é impensável, e sobretudo a biblioteca do conde Monaldo explodiu. Os velhos títulos foram dizimados, mas os novos se multiplicaram, proliferando em todas as literaturas e culturas modernas. Só nos resta inventar para cada um de nós uma biblioteca ideal de nossos clássicos; e diria que ela deveria incluir uma metade de livros que já lemos e que contaram para nós, e outra de livros que pretendemos ler e pressupomos possam vir a contar. Separando uma seção a ser preenchida pelas surpresas, as descobertas ocasionais.

Verifico que Leopardi é o único nome da literatura italiana que citei. Efeito da explosão da biblioteca. Agora deveria reescrever todo o artigo, deixando bem claro que os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos e por isso os italianos são indispensáveis justamente para serem confrontados com os estrangeiros, e os estrangeiros são indispensáveis exatamente para serem confrontados com os italianos.

Depois deveria reescrevê-lo ainda uma vez para que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque “servem” para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos.

E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran (não um clássico, pelo menos por enquanto, mas um pensador contemporâneo que só agora começa a ser traduzido na Itália): “Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?’, perguntaram-lhe. ‘Para aprender esta ária antes de morrer’ “.

1981»

In “Por que ler os clássicos”, trad. Nilson Moulin, Companhia das Letras, São Paulo, 1993, pág. 9-16.

«ENTRE» por Haroldo de Campos

#umpoetaumpoemapordia #293 (19/8)

POETA: HAROLDO DE CAMPOS

Haroldo Eurico Browne de Campos (São Paulo, SP, Brasil, 19 de agosto de 1929 — São Paulo, 16 de agosto de 2003) foi um poeta e tradutor brasileiro.

Em 1952, Décio, Haroldo e seu irmão Augusto de Campos rompem com o Clube, por divergirem quanto ao conservadorismo predominante entre os poetas, conhecidos como “Geração de 45”. Fundam, então, o grupo Noigandres, passando a publicar poemas na revista do grupo, de mesmo título. Nos anos seguintes, defendeu as teses que levariam os três a inaugurar, em 1956, o movimento concretista, ao qual se manteve fiel até o ano de 1963, quando inaugura um trajeto particular, centrando suas atenções no projeto do livro-poema “Galáxias”.

POEMA:

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Haroldo_de_Campos
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_visual/hsroldo_de_campos.html
https://www.escritas.org/pt/haroldo-de-campos
http://www.elfikurten.com.br/2016/02/haroldo-de-campos.html
http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet033.htm
Enigma — poema de Haroldo de Campos

Haroldo de Campos – Poema Selecionado


https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/literatura/a-poesia-visual-concretismo.htm
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OUTROS

Íñigo López de Mendoza, 1º Marquês de Santillana, poeta espanhol
Ogden Nash, poeta norte-americano
Kátya Chamma, compositora, cantora e poeta brasileira
Ana Miranda , escritora, poeta e exploradora brasileira.
Gerbrand van den Eeckhout , pintor holandês, etcher e poeta
John Dryden , poeta inglês, crítico literário e dramaturgo
Claude Gauvreau , poeta e dramaturgo canadiano
Bodil Malmsten , autor e poeta sueco

«Л Б ю [Liú bliú]» por Vladimir Mayakovsky

#umpoetaumpoemapordia #262 (19/7)

POETA: VLADIMIR MAIAKOVSKI

Vladimir Vladimirovitch Maiakovski (em russo: Владимир Владимирович Маяковский; Baghdati, Império Russo, 19 de julho de 1893 – Moscou, Rússia, 14 de abril de 1930), também chamado de “o poeta da Revolução”, foi um poeta, dramaturgo e teórico russo, frequentemente citado como um dos maiores poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot, bem como “o maior poeta do futurismo”

POEMA: 

El Lissitsky & Maiakovsky

O poema-anel Liú bliú (Amo), de Vladímir Maiakóvski, na tradução gráfica de Lissitzki, para o livro Dilá Gólossa(Para voz), publicado em Berlim, em 1923.

  1. as letras ‘L’, ‘IU’ e ‘B’ – as iniciais do nome completo de sua amada: Lília IÚrieva Brik. Em disposição circular elas formam a palavra LIUBLIÚ (amo)

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Maiakovski
https://garapuvu.wordpress.com/dossiemayakovski/

vladimir_mayakovsky_and_lilya_brik

OUTROS

Eve Merriam, poetisa estadunidense
Gottfried Keller, romancista e poeta suíço da língua alemã
Heinrich Christian Boie, autor e poeta alemão
Balai Chand Mukhopadhyay, médico, autor, poeta e dramaturgo indiano
Balamani Amma, poeta e escritor indiano
Miltos Sachtouris, poeta grego e autor
Joseph Hansen, autor e poeta americano
Tom Raworth, poeta e acadêmico inglês

«TANTO MAR» por Chico Buarque

#umpoetaumpoemapordia #232 (19/6)

POETA: CHICO BUARQUE

Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido por Chico Buarque (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944), é um músico, dramaturgo, escritor e ator brasileiro. É conhecido por ser um dos maiores nomes da música popular brasileira (MPB). Sua discografia conta com aproximadamente oitenta discos, entre eles discos-solo, em parceria com outros músicos e compactos

POEMA: TANTO MAR

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo pra mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Letra e música: Chico Buarque
In: 1975 (primeira versão)

«Nota: Letra original, vetada pela censura; apenas a versão instrumental foi gravada no Brasil. Gravação com letra editada apenas em Portugal, em 1975. Ver tambem “Tanto Mar” versao II» Disponível em: http://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/html/buarque-tantoMar2.html

+ SOBRE

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/chico%20buarque.html
https://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?poeta=801
http://www.jornaldepoesia.jor.br/cbuarque.html
http://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/indice_autores.html#Chico%20Buarque

A Poesia Urbana de Chico Buarque, por Vivian C. Alves de Carvalho

poesia e música em chico buarque de holanda – por Irlys Alencar Firmo Barreira

Poesia e música em Chico Buarque – por Luciano Marcos Dias Cavalcanti

OUTROS

José Rizal, poeta e herói nacional filipino
Richard Monckton Milnes, político, poeta e patrono literário britânico
Sam Walter Foss, poeta americano

«QUASE» por Mário de Sá-Carneiro

#umpoetaumpoemapordia #201 (19/5)

POETA: MARIO DE SÁ-CARNEIRO

Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 — Paris, 26 de Abril de 1916) foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu

POEMA: QUASE

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minhalma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!De tudo houve um começo … e tudo errou…
– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir… Onde acoitar-me?…
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…

 

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_de_S%C3%A1-Carneiro
https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=337
https://www.escritas.org/pt/mario-de-sa-carneiro
http://www.jornaldepoesia.jor.br/msa.html
https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=337
http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/sa.carneiro.html
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OUTROS

Ho Chi Minh, líder revolucionário vietnamita

 Gonçalo Salvado, poeta português

«O ÚLTIMO POEMA» por Manuel Bandeira

#umpoetaumpoemapordia #171 (19/4)

POETA: MANUEL BANDEIRA

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968) foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.

POEMA: O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Poema extraído do livro «Manuel Bandeira — 50 poemas escolhidos pelo autor», Ed. Cosac Naify – São Paulo, 2006, pág. 35.

+ SOBRE:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Bandeira
http://www.releituras.com/mbandeira_bio.asp
https://www.escritas.org/pt/manuel-bandeira
http://www.jornaldepoesia.jor.br/manuelbandeira.html
http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet009.htm

OUTROS

Richard Hughes , escritor, poeta e dramaturgo inglês
José Echegaray , poeta e dramaturgo espanhol, ganhador do Prêmio Nobel
Julius Krohn , poeta e jornalista finlandês

«PORTEURS DE CICATRICES» por Andrée Chedid (أندريه شديد)

#umpoetaumpoemapordia #140 (19/3)

POETISA: ANDRÉE CHEDID

Andrée Chedid (em árabe : أندريه شديد ), nascida Andrée Saab, em 20 de março de 1920, no Cairo, Egito, e morreu em 6 de fevereiro de 2011 em Paris, na França. Foi poetisa, romancista, contista e dramaturga. Nascida de uma família libanesa no Egito em 1920, mudou-se para a França em 1946 e passou a escrever em francês. Ganhou os prêmios Goncourt (duas vezes), Mallarmé e Albert Camus, entre outros.

POEMA:

Les morts aux visages rompus se redressent
La langue des humiliés se gonfle
Orageuse se lève la marée des victimes

Mais prenez garde porteurs de cicatrices!

Éteignez dans vos chairs les volcans de la haine

Piétinez l’aiguillon et crachez le venin
qui vous apparenteraient un jour aux bourreaux

Étouffez ces clairons ces sonneries qui forcent la ressemblance qui commandent le talion

Questionnez vos viscères
Percez vos propres masques

Soyez autres!

TRADUÇÃO DE: ADRIANA LISBOA

Os mortos de rostos exauridos se aprumam
A língua dos humilhados incha
Tempestuosa se ergue a maré das vítimas

Mas cuidado portadores de cicatrizes!

Apaguem em sua carne os vulcões do ódio

Esmaguem as picadas e cuspam fora o veneno
que os acumpliciariam um dia aos carrascos

Sufoquem esses clarins esses chamados que forçam a semelhança que presidem o talião

Questionem suas vísceras
Perfurem suas máscaras

Sejam outros!

 

+ SOBRE

Poemas de Andrée Chedid


https://fr.wikipedia.org/wiki/Andrée_Chedid
http://rascunho.com.br/andree-chedid/

OUTROS

Salvatore Cammarano , poeta e libretista da ópera italiana.
Tobias Smollett , poeta e autor escocês-italiano
William Allingham , poeta irlandês, autor e estudioso
Kjell Aukrust , autor, poeta e pintor norueguês
Emma Andijewska , poeta, escritor e pintor ucraniano
Marie de La Hire , escritor, poeta e pintor
Andrée Chedid , escritor e poetisa francesa

«ANNABEL LEE» por Edgar Allan Poe

#umpoetaumpoemapordia #081 (19/1)

POETA: EDGAR ALLAN POE

Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense.

POEMA: ANNABEL LEE

It was many and many a year ago, / In a kingdom by the sea, / That a maiden there lived whom you may know / By the name of Annabel Lee; / And this maiden she lived with no other thought / Than to love and be loved by me. / I was a child and she was a child, / In this kingdom by the sea; / But we loved with a love that was more than love- / I and my Annabel Lee; / With a love that the winged seraphs of heaven / Coveted her and me. // And this was the reason that, long ago, / In this kingdom by the sea, / A wind blew out of a cloud, chilling / My beautiful Annabel Lee; / So that her highborn kinsman came / And bore her away from me, / To shut her up in a sepulchre / In this kingdom by the sea. // The angels, not half so happy in heaven, / Went envying her and me- / Yes!- that was the reason (as all men know, In this kingdom by the sea) / That the wind came out of the cloud by night, / Chilling and killing my Annabel Lee. // But our love it was stronger by far than the love / Of those who were older than we- / Of many far wiser than we- / And neither the angels in heaven above, / Nor the demons down under the sea, / Can ever dissever my soul from the soul / Of the beautiful Annabel Lee. // For the moon never beams without bringing me dreams / Of the beautiful Annabel Lee; / And the stars never rise but I feel the bright eyes / Of the beautiful Annabel Lee; / And so,all the night-tide, I lie down by the side / Of my darling, my darling, my life and my bride, / In the sepulchre there by the sea, / In her tomb by the sounding sea.
(Tradução: Fernando Pessoa) ANNABEL LEE
Foi há muitos e muitos anos já, / Num reino de ao pé do mar. / Como sabeis todos, vivia lá / Aquela que eu soube amar; / E vivia sem outro pensamento / Que amar-me e eu a adorar. // Eu era criança e ela era criança, / Neste reino ao pé do mar; / Mas o nosso amor era mais que amor — / O meu e o dela a amar; / Um amor que os anjos do céu vieram / a ambos nós invejar. // E foi esta a razão por que, há muitos anos, / Neste reino ao pé do mar, / Um vento saiu duma nuvem, gelando / A linda que eu soube amar; / E o seu parente fidalgo veio / De longe a me a tirar, / Para a fechar num sepulcro / Neste reino ao pé do mar. // E os anjos, menos felizes no céu, / Ainda a nos invejar… / Sim, foi essa a razão (como sabem todos, / Neste reino ao pé do mar) / Que o vento saiu da nuvem de noite / Gelando e matando a que eu soube amar. // Mas o nosso amor era mais que o amor / De muitos mais velhos a amar, / De muitos de mais meditar, / E nem os anjos do céu lá em cima, / Nem demônios debaixo do mar / Poderão separar a minha alma da alma / Da linda que eu soube amar. // Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos / Da linda que eu soube amar; / E as estrelas nos ares só me lembram olhares / Da linda que eu soube amar; / E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado / Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado, / No sepulcro ao pé do mar, / Ao pé do murmúrio do mar.
MAIS SOBRE
OUTROS
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas foi um poeta português

«RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA» por Manoel de Barros

#umpoetaumpoemapordia #050 (19/12)

POETA: MANOEL DE BARROS

Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, 19 de dezembro de 1916 — Campo Grande, 13 de novembro de 2014) foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Com 13 anos, ele se mudou para Campo Grande (MS), onde viveu pelo resto da sua vida. Recebeu vários prêmios literários, entre eles, dois Prêmios Jabutis e foi membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. É o mais aclamado poeta brasileiro da contemporaneidade nos meios literários. Enquanto ainda escrevia, Carlos Drummond de Andrade recusou o epíteto de maior poeta vivo do Brasil em favor de Manoel de Barros. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada” de 1996.

POEMA: RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

 

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_de_Barros

Os 10 melhores poemas de Manoel de Barros


http://www.releituras.com/manoeldebarros_bio.asp

6 Inesquecíveis poemas de Manoel de Barros

Manoel de Barros – poemas

Manoel de Barros: o poeta das miudezas em 4 poeminhas

 

«3 (Le Reste du voyage)» por Bernard Noël

#umpoetaumpoemapordia #020 (19/11)

POETA: BERNARD NOËL

Bernard Noël, nascido 19 de Novembro de 1930 em Sainte-Geneviève-sur-Argence (Aveyron), é um poeta, escritor, ensaísta e crítico de arte francês.

POEMA: 3 (Le Reste du voyage)

l’image et le mot sont-ils liés ou bien
l’un toujours après l’autre pour que le voir
ou le dire l’emporte chacun son tour
ce que les yeux ont vu là-bas être vu
ne lui suffit pas cela s’érige et rôde
et rue contre le mouvement du poème
mais qu’est-ce qu’un élan minéral et blanc
un silence vertical un temps de pierre

 

+ SOBRE

https://fr.wikipedia.org/wiki/Bernard_Noël
https://www.revistadelibros.com/articulos/bernard-nol-la-sombra-del-doble-y-la-castracion-mental
http://www.lavanguardia.com/cultura/20150325/54429246334/bernard-noel-la-poesia-como-forma-de-resistencia.html
http://www.journals.unam.mx/index.php/archipielago/article/view/24370
http://elfuegoylafabula.blogspot.com.br/2011/08/nueve-poemas-de-bernard-noel.html
ttps://www.decitre.fr/media/pdf/…/9/7/…/9782867445859.pdf

 

será que os que acordam cedo

será que os que acordam cedo / flutuam no tecido sonoro / dos pássaros da manhã? / ou embriagam-se no ruído / deste vai e vem de autos // que não respeitam o raiar. // e é preciso desligar o piloto automático / mergulhar em todos os cantos possíveis / estes impossíveis / pulsar alucinadamente em todo o passo / sentir o tom de cada pássaro // e ouve ó… ô poema ó / ele há de estar por cá e aí / ouve, é ruído / ouve, é canto / ouve, ele é você.

7:25 e o sol tem poder? / tem de cura / tem de crescimento / tem poder de fogo / e o sal? / este é salgado / sem ele não há mar / sem eles não há como amar / não há / poder.

dois exercícios

TARDE

da tarde entre as árvores
“eu homem de quase trinta,
pareço mais de trinta, brut
e suave, quereria teus

cinqüenta de mulher, suave”

**

NOITE

da noite entre as palavras
“como um tiro sem pensar
me atiro nesse desejo
de trocar palavras, goles e línguas

como um tiro, rasgo a carne e
deixo o vinho escorrer pelo peito…“

19 jan, 2010. [ter]


Vincent_Willem_van_Gogh_036 Van Gogh – The Red Vineyard 

notas sobre a ascensão do fascismo nos estados unidos

Notas sobre a Ascensão do Fascismo nos Estados Unidos*

Este texto de Miguel Urbano Rodrigues foi a sua comunicação ao Fórum Unidade dos Comunistas, apresentada sábado, 19 de Julho, em Florianópolis, Brasil

A direita europeia, com destaque para os chamados atlantistas, defensores inflamados da OTAN e da presença das tropas dos EUA na Europa, insiste em atribuir a um sentimento de «anti americanismo» a vaga de protestos contra a estratégia de dominação mundial daquele país.

A acusação não tem fundamento. A condenação da política imperial dos EUA não envolve o seu povo.

Em Setembro e Outubro de 2001, durante a agressão norte-americana contra o povo do Afeganistão publiquei em Portugal e na América Latina uma série de artigos em que, reflectindo sobre a chacina de Mazar-i–Charif e o saque de Kandahar, alertava para uma ameaça à humanidade que principiava a esboçar-se: a possibilidade da emergência nos EUA de um fascismo de novo tipo. Os seus contornos, ainda mal definidos, eram identificáveis na componente militar do sistema de poder da grande República e na sua ambição de impor um projecto de dominação planetária e perpétuo.

Em comunicações apresentadas no II e III Fóruns Sociais Mundiais, em Porto Alegre, retomei o tema, chamado a atenção para uma crise global de civilização, política, económica, militar, cultural e ambiental.

O perigo do neofascismo nos EUA crescia. No corpo de oficiais das suas Forças Armadas tomava forma um fascismo castrense, que se expressava através da participação de estruturas de comando em crimes contra a humanidade, missões genocidas da Força Aérea, no discurso messiânico e racista de generais e almirantes.

A velha tese da nação predestinada, a única capaz de salvar a humanidade, foi assumida pelo Presidente Bush, que dela fez coluna mestra da Nova Ordem Mundial, cujos princípios foram reformulados após o 11 de Setembro. Uma concepção maniqueísta da vida foi posta a serviço da estratégia imperial de «retaliação». A luta contra o terrorismo passou a servir de suporte a uma política de terrorismo de estado. O presidente informou o mundo de que o Senhor não era neutral e apoiava a sua política. E advertiu: quem não concordasse com ela seria considerado inimigo e como tal tratado. Esse discurso trouxe à memória arengas de Hitler nas vésperas da invasão da Polónia. A sua agressividade e a irracionalidade configuraram um assalto à razão.

Terei sido um dos primeiros escritores a utilizar a expressão IV Reich para denunciar a ameaça ao conjunto da humanidade e à própria continuidade da vida no planeta que a estratégia da Casa Branca carregava.

Permito-me transcrever alguns parágrafos do que afirmei então no II Fórum Social Mundial, em Porto Alegre:

«As sementes do fascismo já contaminaram, é inegável, muitos pilotos e oficiais da US Army presentes no cenário de horrores do Afeganistão (…) O perigo de um fascismo de novo tipo torna-se difícil de identificar porque apresenta características inéditas.

  1. Não se enquadra nas definições clássicas do fascismo.
  2. Surge como inseparável da dinâmica agressiva de um poder imperial e como efeito da própria lógica da violência desencadeada pelas forças armadas desse sistema.
  3. Sendo um fenómeno que se enraíza no corpo de oficiais, apresenta a peculiaridade de, ao estruturar-se e fortalecer-se, alastra de fora para dentro, ou seja da periferia para os EUA, coração do sistema.

A dificuldade em admitir que a actual política de terrorismo de estado dos EUA ameaça desembocar no neofascismo reside no carácter e tradição das instituições norte-americanas e na atipicidade da ideologia subjacente às acções de genocídio praticadas com frequência cada vez maior por um poder militar hegemónico. O hábito de associar o fascismo quase mecanicamente, como modelo de Estado, à Alemanha de Hitler e à Itália de Mussolini, leva a esquecer que a sua implantação assumiu formas muito diferenciadas e que, tanto o assalto ao poder como o funcionamento do sistema, não cabem em definições rígidas.

O fascismo, tanto na Europa como fora dela, não obedeceu a um modelo único. Se no III Reich e na Itália (aí somente no inicio) contou com forte apoio de massas e teve como instrumento partidos que seguiam cegamente os líderes carismáticos, isso não ocorreu na Espanha de Franco, nem no Portugal de Salazar. Nem na Hungria de Horthy, na Roménia de Antonescu, na Croácia de Ante Pavelich, onde foram sobretudo aspectos básicos da organização do Estado que tomaram como fonte de inspiração os modelos alemão e italiano. O denominador comum a todos os fascismos identificamo-lo no nacionalismo irracional e agressivo, com uma componente racista, na tentativa de impor uma contracultura e na criação de aparelhos repressivos do tipo Gestapo. Na ordem económica as diferenças foram transparentes (…)”

O caso do Chile, por exemplo, é um tema de reflexão inesgotável tanto pelo que nele houve de especifico no terreno político, económico e militar, como pelas suas contradições. Aqueles que definem a ditadura terrorista de Pinochet, na teoria e na prática, como fascista sustentam – na minha opinião com fundamento – que as forças armadas desempenharam ali o papel que no Reich alemão foi assumido pelo partido nazi e pelos aparelhos policiais por ele criados.

O fenómeno chileno ajuda a compreender, num contexto diferente e noutra dimensão, a ameaça neofascista que o terrorismo de estado estadounidense carregava no ventre. O perigo agora é planetário e, repito, nasce em certa medida longe da sociedade cujo sistema de poder o gerou. As expedições punitivas não tomam como alvo minorias, nem partidos de esquerda ou organizações sindicais. O inimigo, imaginário, fabricado, é agora outro: indivíduos transformados em gigantes demoníacos e sobretudo povos paupérrimos, distantes e desarmados».

A transcrição foi longa, mas útil.

Transcorreram quase sete anos desde que escrevi essas linhas.

O desenvolvimento da História confirmou as apreensões que então manifestava. A crise de civilização agravou-se muito.

O Afeganistão foi transformado num protectorado com a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Os EUA transferiram para a NATO as responsabilidades da ocupação militar do país e 60.000 homens daquela organização encontram-se ali envolvidos numa guerra perdida.

Osama bin Laden e o mollah Muhamad Omar – apontados como objectivo prioritário da invasão, não foram encontrados e encontram-se em paradeiro desconhecido.

A produção de ópio aumentou e a soldadesca norte-americana é responsabilizada pelo próprio governo do presidente fantoche Hamid Karzai – ex -funcionário subalterno de uma companhia petrolífera estadounidense – de massacrar civis em operações de rotina. Em alguns casos, oficiais dos EUA nas ordens de combate desaconselham a captura de prisioneiros. Não querem sobreviventes. Em Seberghan foram cortadas as línguas a mujahedines que se tinham rendido.

No Iraque, a indignação mundial suscitada pelas revelações das torturas infligidas a resistentes iraquianos em Abu Grahib não se traduziu na condenação de qualquer oficial superior. O presídio foi fechado, mas os responsáveis pelos crimes abjectos ali cometidos ficaram impunes, a principiar pelo ex secretario da Defesa, Donald Rumsfeld, que tinha – ficou provado – conhecimento minucioso do que se passava em Abu Grahib.

Muçulmanos capturados no Iraque e no Afeganistão e acusados de «terroristas» foram transportados em voos clandestinos da CIA para campos de concentração instalados em países africanos e do Leste da Europa. O governo português foi cúmplice desse crime. Não obstante os voos da CIA terem sido confirmados por governos da União Europeia, Washington abafou o escândalo.

Mais grave ainda: Bush conseguiu que o Congresso, agora com maioria Democrata, aprovasse legislação que na prática permite a tortura.

A guerra no Iraque está também irremediavelmente perdida não obstante o aumento para 160.000 homens do exército de ocupação. Um exército paralelo de mercenários altamente remunerados está assumindo um papel cada vez mais importante nas operações militares.

A situação existente é caótica. O presidente Bush foi finalmente obrigado a reconhecer que, afinal, o Iraque não dispunha de armas de extinção maciça – pretexto para a agressão – mas insiste em defender a ocupação do país por tempo ilimitado.

O balanço da agressão é terrível. O Iraque é hoje um país arruinado e famélico. As suas cidades foram semi destruídas, saqueados museus maravilhosos que guardavam a memória das milenárias civilizações da Mesopotâmia. A barbárie imperialista não respeita a cultura: blindados estadounidenses estacionam na área das ruínas da Babilónia.

Não há estatísticas confiáveis sobre o custo em vidas humanas da guerra genocida. Mas a própria media dos EUA admite que mais de 100.000 civis iraquianos morreram em consequência dela até final de 2007.

O tumor fascista dissemina-se

As «guerras preventivas» lembram certas epidemias. Não é fácil avaliar os efeitos da contaminação, mas, como era inevitável, as metástases do tumor fascista disseminam-se no corpo da nação.

A defesa e execução de uma estratégia planetária perigosamente agressiva e irracional exigiram no plano interno mudanças na acção governativa que abalaram fortemente a estrutura institucional do país, abrindo nela fissuras pelas quais avança o fascismo.

Imediatamente após o 11 de Setembro, a maioria da população não se apercebeu de que o discurso bushiano contra o terrorismo funcionava como anestésico para golpes cirúrgicos que feriam garantias constitucionais e liberdades constitucionais. A destruição das torres de Manhattan foi invocada a despropósito para justificar uma feroz vaga de xenofobia que levou, por exemplo, à criação de tribunais militares para julgamento de estrangeiros suspeitos, a perseguições e humilhações infligidas a imigrantes muçulmanos, caça às bruxas nas universidades, ao desaparecimento de clássicos da literatura nas bibliotecas públicas, a gestos tão simbólicos como a proibição da canção de John Lennon em defesa da paz.

O Patriot Act, a lei ultra-reaccionária promulgada por George Bush, é um diploma que teria merecido a aprovação do III Reich de Hitler.

Gente íntima do Presidente, como o vice-presidente Cheeney, Rumsfeld, Condoleeza Rice, Paul Wolfowits, Perle, deram uma contribuição significativa para a radicalização de um discurso oficial de matizes fascizantes, não obstante alguns dos que o cultivam não se aperceberem, por indigência cultural. Muitos generais do Pentágono já se tinham antecipado.

A engrenagem que abre caminho ao neofascismo não poderia no entanto servir com eficácia a estratégia de dominação se não dispusesse como formidável e decisivo instrumento para manipular as consciências de um sistema mediático que exerce hoje um controle hegemónico dos grandes órgãos de comunicação social.

O tema tem sido tratado exaustivamente por autores como Chomsky e Chossudovsky, mas a complexidade e a gravidade dos estragos produzidos pelo funcionamento dessa máquina diabólica tornam indispensável a retomada permanente do assunto.

O discurso clássico sobre os EUA como pátria da liberdade de expressão foi sempre construído a partir de inverdades. Hoje é ridículo.

As três grandes cadeias de televisão que emitem notícias durante 24 horas – a NBC, a FOX e a CNN – mantêm laços íntimos com o Poder. A grande maioria das notícias que difundem provem de fontes do governo ou corporativas. A manutenção dos índices de audiência exige não apenas um bom relacionamento com essas fontes como a inclusão maciça de notícias sobre assuntos divertidos, histórias sobre guerras que façam a apologia do heroísmo norte-americano, a eliminação de temas considerados incómodos, um grande volume de informações ligadas a negócios, desporto, sexo, situação das grandes transnacionais, comentários superficiais sobre ciência, ambiente e arte.

Os jornalistas que não se submetem e recusam colaborar com o Poder são punidos, directa ou indirectamente, ou despedidos pelos grandes media, mesmo quando são celebridades, como aconteceu com o neozelandês Peter Arnett, da NBC. Num país onde um abismo cultural separa as elites do cidadão comum, a militarização da sociedade civil, em desenvolvimento, assume proporções inquietantes.

Segundo John Gilis – um conceituado analista militar – a militarização das consciências tornou-se imprescindível ao bom funcionamento do sistema. O establishment está empenhado em preparar a sociedade civil para a aceitação da violência como fenómeno natural. Enquanto o militarismo era tradicionalmente encarado «como uma série de crenças circunscritas a grupos sociais específicos, a militarização abrange uma série de mecanismos que envolvem todo o edifício social».

Nas escolas o avanço da militarização é alarmante. Contamina a juventude. Uma publicidade chocante na televisão, na imprensa, na rádio, em cartazes afixados nas paredes, apresenta as Forças Armadas como escola de virtudes. O Corpo de Marines cultiva o auto-elogio, apresentando-se como uma tropa de super-homens.

A militarização da sociedade é acompanhada de um discurso político que transforma a dureza, a insensibilidade e um conceito prussiano da disciplina em virtudes. A tese do «letal e solidário» ilumina bem uma mentalidade patológica.

Peter Mass, em artigo publicado pelo The New York Times, conta que perto de Bagdad, o comandante de um esquadrão de blindados, quando os seus soldados dispararam contra veículos civis, bradou: «Os meus homens não tiveram clemência. Formidável!»

Nas grandes cidades, entre a juventude dos bairros da classe média, um divertimento na moda é o painball – um jogo durante o qual os participantes lutam com selvajaria. Do choque faz parte a morte simulada.

O Presidente Bush considera «viris» esses jogos violentos. Para estimular o espírito marcial gosta muito de discursar em bases militares, em fábricas de armas e em porta-aviões.

Nesta atmosfera de apologia da violência como virtude patriótica a critica à ideologia do poder somente é assumida permanentemente por uma minoria de intelectuais corajosos. Mas a contribuição de estadounidenses progressistas como Ramsey Clark, Noam Chomsky e James Petras tem sido muito importante para a compreensão do perigo fascista e o funcionamento de um sistema de poder que não hesita em tripudiar sobre a Constituição para limitar ou suprimir direitos e liberdades.

Raízes do fascismo nos EUA

A influência exercida pela extrema-direita estadounidense no pensamento fascista continua a ser muito mal conhecida. Mas foi importante.

Ho Chi Minh terá sido um dos primeiros comunistas a identificar o parentesco ideológico existente entre ambos.

Quando era um jovem marinheiro presenciou no Sul dos EUA o linchamento de um negro. O ritual sinistro do crime, tolerado pelas autoridades, impressionou-o tanto que num artigo publicado em 1924 no órgão francês da Internacional Comunista afirmou que a Ku Klux Klan assumia toda «a brutalidade do fascismo».

Uma abundante documentação demonstra aliás com clareza que o partido nazi alemão, nos anos em que Hitler preparava o assalto ao poder, teve como fonte permanente de inspiração os movimentos reaccionários e racistas dos EUA.

Rosenberg, um dos ideólogos do nazismo, definia os EUA como «um esplêndido país do futuro» que tinha o mérito de formular «a nova ideia de um Estado Racial».

O genocídio dos índios era apresentado no III Reich como uma epopeia civilizatória e o projecto de germanização de parte da Europa Oriental como uma cruzada que tinha o seu precedente na conquista americana do Far-West. Hitler, em 1939, nas vésperas da guerra, enalteceu «a inaudita força interior» do modelo americano de civilização.

Um livro do escritor racista estadounidense Lothrop Stoddard – The Menace of de Under Man – foi traduzido para o alemão e suscitou tamanho entusiasmo nos meios nazis que o autor foi convidado a visitar o Reich onde foi recebido por Hitler.

Cabe recordar que o referido livro foi também elogiado por dois presidentes dos EUA, Harding e Hoover.

O filósofo marxista italiano Domenico Losurdo desenvolve o tema das origens americanas do fascismo numa comunicação que apresentou em Maio de 2003 ,em Florença. Nesse trabalho (ver em odiario.info em 24.06.08) cita textos de Theodore Roosevelt nos quais aquele ex-presidente dos EUA faz a apologia das «raças superiores» e sugere soluções radicais para defender a civilização do perigo representado pelas «raças inferiores».

Losurdo dedica especial atenção ao papel desempenhado por Henri Ford nas campanhas anti-semitas. O magnata da indústria automobilística foi então muito elogiado na Alemanha nazi. Hitler, o cérebro da «solução final» afirmou que para ele a leitura de um livro de Ford foi uma «revelação para os nacionais socialistas» porque os ajudou a compreender «o perigo do judaísmo».

Um sistema mediático perverso falsifica a História tão amplamente que centenas de milhões de pessoas continuam a ver nos EUA um Estado democrático, respeitador das liberdades e dos direitos humanos.

Os fundadores da nação são apresentados como heróis da humanidade. A mentira foi erigida em verdade. Creio que poucos brasileiros sabem que os autores da Declaração de Independência e da Constituição dos EUA eram todos proprietários de escravos. E proprietários de escravos foram quase todos os presidentes da União nos primeiros 36 anos de existência dos EUA.

Um comunista americano, James West, escreveu em 1977 um ensaio que, pelo seu significado, julgo oportuno relembrar neste Fórum. Nele chamou a atenção para uma realidade também esquecida: as origens do euro comunismo são também norte-americanas. James West demonstra nesse ensaio que o Browderismo, a doutrina de um ex secretario-geral do Partido Comunista dos EUA, não somente teve um efeito devastador na América Latina, ao condenar como supostamente de direita o combate ao imperialismo, como funcionou como fonte de inspiração ideológica para o movimento que na Europa contribuiu decisivamente para a destruição ou para a social democratização de muitos partidos comunistas, entre os quais o Italiano, o Francês e o Espanhol.

Camaradas:

Perigos enormes anunciam-se num horizonte de lutas. Mas o gigante americano tem pés de barro. Os mecanismos predatórios da globalização neo-liberal não bastam para resolver a crise estrutural de um capitalismo senil.

Entretanto, a tarefa prioritária e permanente para as forças progressistas, e em primeiro lugar para os comunistas, é fazer frente, em todo o mundo, com firmeza e lucidez, à ameaça que representa para a humanidade a estratégia neo-fascista de um sistema de poder que aspira a militarizar a Terra. O processo de militarização e fascização da sociedade norte-americana prossegue. E essa realidade não pode ser ignorada.

O combate torna mais necessária do que nunca a unidade dos comunistas.

Serpa, Julho de 2008
Miguel Urbano Rodrigues

* Intervenção na mesa 4 do Fórum Unidade dos Comunistas em Florianopolis a 19 de Julho


ouvindo miguel

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