Cinco haicais de Sônia Carneiro Leão

Peregrinacultural's Weblog

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Passeia a sombra

No abismo do chão

Sem deixar rastro.

[43]

Barulho do céu

Sobre o luar da montanha.

Cochicha o silêncio.

[61]

Invade o meu leito

A brisa da Primavera

Sem me conhecer.

[22]

As flores preferem

A pura água da chuva.

Guardo o regador.

[61]

Veio da montanha

O ruído do silêncio

Acordar o nada

[52]

Em: O olhar de Buda: haicais, Sonia Carneiro Leão, 2018, páginas em [colchetes].

Ver o post original

POEMA DIÁRIO #7

poema ‘de primavera em leningrado’, da poeta margarita yosifovna aliguer

POEMA DIÁRIO (7)


mais sobre Маргарита Иосифовна Алигер

e

Наталья Шуматова читает фрагмент стихотворения Маргариты Алигер «Весна в Ленинграде»

COLAGENS: The Typewriter (& Difícil ser Funcionário)

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Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
[…]
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

OUÇA O POEMA DE JOÃO, NA VOZ DE Fábio Malavoglia ( RadioMetrópolis )

*

The Typewriter Leroy Anderson Martin Breinschmid with Strauß Festival Orchestra Vienna

«All is an interminable chain of longing» ESCAPIST – NEVER by ROBERT FROST

He is no fugitive– escaped, escaping.
No one has seen him stumble looking back.
His fear is not behind him but beside him
On either hand to make his course perhaps
A crooked straightness yet no less a straightness.
He runs face forward. He is a pursuer.
He is a seeker who in his turn seeks
Another still, lost far into the distance.
Any who seek him seek in him the seeker.
His life is a pursuit of a pursuit forever.
It is the future that creates his present.

All is an interminable chain of longing.
«»

Escapist– Never by Robert Frost


veja também:

“A Trilha que não Tomei” – Tradução de Gustavo Furniel, na Zagaia em Revista

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear,
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

A trilha que não tomei

Duas trilhas divergiam sob árvores amarelas
E eu, triste por não poder percorrer ambas
E permanecer um, detive-me em longa espera
E olhei tão abaixo quanto pude uma delas
Até onde se dobrava entre as plantas;
Então tomei a outra, tão bela quanto correta,
E talvez por ser a mais atraente
Por seu gramado almejar o passeio como meta,
Embora passasem por ali de forma reta
E usassem ambas de maneira semelhante,
E ambas igualmente deitassem naquela manhã
Em folhas que nenhum passo tornara pretas.
Ah, eu guardei a primeira para o amanhã!
Ainda que soubesse como à seguinte leva uma direção
Duvidei se um dia deveria voltar atrás.
Eu contarei isso enquanto expiro
Em algum lugar, em tempos e tempos:
Pois duas trilhas em um bosque divergiram, e eu,
Eu tomei aquela que menos percorreram,
E isso fez toda a diferença.

*

ou

“Nada que é dourado permanece” – Tradução: Fábio Malavoglia, na RadioMetrópolis

Nothing gold can stay

Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.

Then leaf subsides to leaf,
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

Nada que é dourado permanece

Na Terra o verde novo é louro,
da cor do transitório ouro,
que cedo em cada folha aflora;
mas só por uma hora.

Pois folha submerge a folha,
e o Éden ao luto se recolha
da Aurora, que ao dia desce.
Nada que é dourado permanece.

**

ou

Robert Frost: Parado entre árvores no entardecer nevado- Tradução: Fábio Malavoglia, na RadioMetrópolis

Stopping by Woods on a Snowy Evening

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound’s the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep..

Parado entre árvores no entardecer nevado

Tais matas sei serem de alguém.
Sua casa está na aldeia além;
Não me verá parado aqui
Na mata a olhar neve que vem.

O meu cavalo pensa que é engano
Parar sem ter um sítio humano
Entre tal mata e o lago em gelo
Na mais escura tarde do ano.

A tilintar-lhe o arreio treme
Pergunta d’erro e dúbio geme.
Somente o som se ouve do sopro
do vento leve e o branco creme.

Umbrosas matas que ora abandono,
Fugir às juras eu não tenciono,
E há muito a andar antes do sono,
E há muito a andar antes do sono.

**

e outros poemas e outras traduções

ALGUNS POEMAS DE ROBERT FROST, no arspoeticaethumanitas blogue

*

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TERRA DO SOL

FALCÃO – Você está certo, quem tá errado é o Papa

“Então se você pensa que bom é ser mau / pra viver a vida só cagando o pau / então seja. / Se você acredita que sendo imbecil/ vai fazer diferença em prol do Brasil / então vá! / Vá mentindo / vá enganando / vá vivendo de lorotas / e sendo idiota./ Vá falando e difamando /no varejo e no atacado / iludindo os abestados / então vá! / Você está certo, quem tá errado é o papa / Vá se fuck you!”

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Deixe tudo acontecer com você. Beleza e medo. Não pare, continue. Nenhum sentimento é para sempre.

Deixe tudo acontecer com você. Beleza e medo. Não pare, continue. Nenhum sentimento é para sempre.

Let everything happen to you. Beauty and terror. Just keep going. No feeling is final.

Lass dir Alles geschehn: Schönheit und Schrecken. Man muss nur gehn: Kein Gefühl ist das fernste.

[Rainer Maria Rilke]

Stoicism as a philosophy for an ordinary life | Massimo Pigliucci | TEDxAthens

*

Gott spricht zu jedem nur, eh er ihn macht,
dann geht er schweigend mit ihm aus der Nacht.
Aber die Worte, eh jeder beginnt,
diese wolkigen Worte, sind:
Von deinen Sinnen hinausgesandt,
geh bis an deiner Sehnsucht Rand;
gieb mir Gewand.
Hinter den Dingen wachse als Brand,
dass ihre Schatten, ausgespannt,
immer mich ganz bedecken.
Lass dir Alles geschehn: Schönheit und Schrecken.
Man muss nur gehn: Kein Gefühl ist das fernste.
Lass dich von mir nicht trennen.
Nah ist das Land,
das sie das Leben nennen.
Du wirst es erkennen
an seinem Ernste.
Gieb mir die Hand.

*

e ouça:

The best of sovietwave, synthwave, chillwave and electronic music.

Tracklist:
00:00 Gummy Boy – Don’t Leave
03:25 20 Years – Закат
08:02 elektrodepo – sequence
12:34 ИА Бежевая Луна – Мечты о космосе
14:36 Гербарий – Никто не видит
19:03 УРАН-08- Выше
21:07 ППВК – Далёкое Прошлое Светлое
24:24 Пустая Электричка – Заря-1
27:33 луноберег – уединение
30:08 Pen Friend – Avenew
33:00 Наукоград – Отражение

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Лев Николаевич Толстой

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(…) Quando você compreende que vai morrer qualquer dia desses e não vai restar nada, tudo se torna insignificante! Eu considero muito importantes as minhas ideias, mas, ainda que se concretizassem, elas me parecem tão insignificantes… Assim, a gente vai passando a vida, se distrai com a caça, com o trabalho, só para não pensar na morte.

— Liev Tolstói, no livro “Anna Kariênina”. (Parte IV | Cap. VII / Ed. Cosac Naify; 1.ª edição [2013]).

Obra: “The Prisoner”, 1878 – Nikolai Yaroshenko.

«MATINÉE D’IVRESSE [MORNING OF DRUNKENNESS»por Arthur Rimbaud

Matinée d’ivresse (Les Illuminations, 1873-1875)

Ô mon Bien ! Ô mon Beau ! Fanfare atroce où je ne trébuche point ! chevalet féerique ! Hourra pour l’œuvre inouïe et pour le corps merveilleux, pour la première fois ! Cela commença sous les rires des enfants, cela finira par eux. Ce poison va rester dans toutes nos veines même quand, la fanfare tournant, nous serons rendu à l’ancienne inharmonie. Ô maintenant, nous si digne de ces tortures ! rassemblons fervemment cette promesse surhumaine faite à notre corps et à notre âme créés : cette promesse, cette démence ! L’élégance, la science, la violence ! On nous a promis d’enterrer dans l’ombre l’arbre du bien et du mal, de déporter les honnêtetés tyranniques, afin que nous amenions notre très pur amour. Cela commença par quelques dégoûts et cela finit, — ne pouvant nous saisir sur-le-champ de cette éternité, — cela finit par une débandade de parfums.
Rires des enfants, discrétion des esclaves, austérité des vierges, horreur des figures et des objets d’ici, sacrés soyez-vous par le souvenir de cette veille. Cela commençait par toute la rustrerie, voici que cela finit par des anges de flamme et de glace.
Petite veille d’ivresse, sainte ! quand ce ne serait que pour le masque dont tu nous as gratifié. Nous t’affirmons, méthode ! Nous n’oublions pas que tu as glorifié hier chacun de nos âges. Nous avons foi au poison. Nous savons donner notre vie tout entière tous les jours.
Voici le temps des Assassins.

http://abardel.free.fr/petite_anthologie/matinee.htm

Morning of Drunkenness

THIS POEM APPEARS IN:

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TRANSLATED FROM THE FRENCH BY JOHN ASHBERY

my good! O my beautiful! Atrocious fanfare where I won’t stumble! enchanted rack whereon I am stretched! Hurrah for the amazing work and the marvelous body, for the first time! It began amid the laughter of children, it will end with it. This poison will remain in all our veins even when, as the trumpets turn back, we’ll be restored to the old discord. O let us now, we who are so deserving of these torments! let us fervently gather up that superhuman promise made to our created body and soul: that promise, that madness! Elegance, knowledge, violence! They promised us to bury the tree of good and evil in the shade, to banish tyrannical honesties, so that we might bring forth our very pure love. It began with a certain disgust and ended—since we weren’t able to grasp this eternity all at once—in a panicked rout of perfumes.
Laughter of children, discretion of slaves, austerity of virgins, horror in the faces and objects of today, may you be consecrated by the memory of that wake. It began in all loutishness, now it’s ending among angels of flame and ice.
Little eve of drunkenness, holy! were it only for the mask with which you gratified us. We affirm you, method! We don’t forget that yesterday you glorified each one of our ages. We have faith in the poison. We know how to give our whole lives every day.
Behold the time of the Assassins.

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patti smith e lizzy mercier descloux

ps: leia também -> «A míngua e o excesso: Mário de Sá-Carneiro, Arthur Rimbaud e o complexo de Ícaro», tese de Bernardo Nascimento de Amorim 

ou -> Rimbaud. Um reflexo contido do mais subversivo dos poetas

A Relógio D’Água cicatriza finalmente uma das maiores lacunas no meio editorial português, publicando a obra reunida do miúdo a quem chamaram um «místico em estado selvagem» por Diogo Vaz Pinto [diogo.pinto@newsplex.pt]

Se não há autores absolutamente intraduzíveis, é certo que alguns provam ser umas intratáveis bestas. Alados no seu idioma, forçados a habitar num outro, fincam os cascos na gravilha e é impossível levá-los a mover-se um centímetro. E mais assim é no caso dos poetas. Alazões cujo portento se verifica na perturbação da linguagem, de tal modo que carregam as paisagens daquela tensão peregrina. Mesmo as traduções esforçadas tantas vezes não superam aquele reflexo culpado que deles faz potros amarrados, dando alguns coices nas cavalariças de outro idioma.

Arthur Rimbaud, o tenebroso adolescente que aos 21 anos tinha abandonado a poesia, «legando, desdenhosamente, à humanidade uma obra curta, mas tão revolucionária que ainda hoje ‘espanta o século’» (Augusto de Campos), tornou-se num insuperável mito, o génio precoce que, rasgando a garganta do simbolismo, entregou o seu cadáver aos lobos do modernismo, incitando os poetas vindouros à rebelião: «Il faut être absolument moderne».

Neste caso, não devemos ter pressa em culpar o atraso crónico do nosso país em registar os grandes abalos sentidos lá fora pelo facto de só este ano, volvido mais de um século sobre o impacto dilacerante desta obra «mínima (e máxima)», a termos visto reunida entre nós. Um compreensível pudor poderá ter levado muitos dos que foram chegando a esta obra a não se sentirem à altura do desafio. Quantas traduções não se terão perdido pelas gavetas de leitores que não se sentiram confiantes da capacidade de seguir esse que, de tão longe que foi, já não voltou do seu inferno? E houve, mesmo assim, admiráveis resgates parciais da obra. Desde logo, tínhamos as Iluminações Uma Cerveja no Inferno de Mário Cesariny, textos gémeos que, mais do que tornar poesia e prosa indiscerníveis, deixaram bem à vista as raízes da Modernidade, para que quem viesse depois não deixasse de tropeçar – determinando que, de ora em diante, «a Poesia deixará de bater o compasso da acção; irá à frente» –, e ainda retiraram também o freio racionalista à linguagem, abrindo a perspetiva de campo para que ocorresse a revolução do surrealismo.

Publicaram-se outras traduções relevantes, como a do poema-ícone O Barco Bêbado, na Hiena, por Pedro José Leal, e O Rapaz Raro, de Maria Gabriela Llansol, na Relógio D’Água, mas a iniciativa de reunir a obra completa por esta mesma editora, apresentando novas traduções dos textos que já conhecíamos, somados a tantos que surgem pela primeira vez traduzidos em Portugal, é um acontecimento editorial que exige ser tratado como de primeiríssima importância.

Com um prefácio do editor, Francisco Vale, a tradução ficou a cargo de Miguel Serras Pereira e João Moita. Consultando o índice desta Obra Completa – da qual apenas se excluíram «os poemas em latim, os exercícios escolares, e algumas cartas comerciais sem interesse» –, percebemos que não se trata de um trabalho feito a quatro mãos, mas que o volume foi rachado entre os dois tradutores, sendo ali discriminado quem se ocupou do quê. No que toca aos poemas-poemas, as iniciais JM prevalecem, ao passo que MSP, assinando alguns destes, ficou com as incursões prosa-poesia. Em relação às cartas e outros documentos, a tradução não está atribuída, presumindo-se que couberam também a Serras Pereira.

Antes de irmos às traduções, deve dizer-se que o prefácio do editor, se é exemplar na hora de esclarecer-nos sobre a biografia do poeta – tão rigoroso ao pôr sangue e pressão na desvairada cronologia que, tantas vezes, não nos transmite de Rimbaud mais do que o leviano mito do voyant; um devorador de destinos, esse espírito sagaz mas implacável de alguém que cedo se fartava das suas próprias metas, e partia para outra, virando as costas, zombando de tudo e de todos –, é depois incompreensivelmente omisso na hora de pôr os dedos na obra, medir-lhe o pulso, esquissar contornos mesmo que vagos para explicar como Rimbaud se tornou um ícone da ideia de ruptura, sem a qual «a literatura moderna não seria nem possível nem inteligível». O «desregramento de todos os sentidos» que preconizou, é um impulso que se segue ao entendimento de que «não existe distinção real entre o Verbo e o Espírito, e a revelação do primeiro deve ir de par com o segundo», como refere Ernesto Sampaio. E é por isso que vai empenhar-se «em destruir metodicamente as limitações impostas às potências do Ego por aquilo a que se chama consciência».

«Desde Rimbaud a arte da poesia avançou pouco ou nada», escreveu Pound. Mas se este é o poeta que até os que geralmente detestam a poesia gostam de fingir que leem, repetindo os mais exaltados louvores, que soam como qualquer outra baboseira, para percebermos melhor por que Rimbaud emerge entre todos os poetas subversivos como «aquele que de um modo mais definitivo e exemplar estabeleceu tal ruptura no nosso tempo» (António Ramos Rosa), é preciso largar os biógrafos e tantos quantos investiram com furor detetivesco sobre o carácter misterioso das causas daquela «criança atroz», para ler tantas vezes quantas necessárias a obra. Como fez Octavio Paz: «Talvez tenha sido Rimbaud o primeiro poeta que viu, no sentido de perceber e no da vidência, a realidade presente como a forma infernal ou circular do movimento. (…) Para Rimbaud o novo poeta criaria uma linguagem universal, da alma para a alma, que, em vez de ritmar a acção, a anunciará. (…) A palavra poética não é menos ‘materialista’ que o futuro que anuncia: é movimento que engendra movimento, acção que transforma o mundo material. Animada pela mesma energia que move a história, é profecia e consumação efectiva, na vida real, dessa profecia. A palavra encarna, é poesia prática.»

Alheado do exame crítico da obra, de certo modo o prefácio prepara-nos para o que se seguirá. Esta Obra Completa funciona mais como um instrumento de apoio à leitura de Rimbaud do que como um intrépido novo passo em português. E se ele não foi um, mas muitos, se é um poeta que em breves anos causou uma confusão danada, a sua obra traduz-se numa virtuosa elaboração de aflitivos contrastes, que depende tanto do vigor e precisão das imagens, do tremor que os ritmos impõem a cada verso e da forma como «desestabiliza a semântica poética com as associações insólitas da sua imaginação e a violência do seu vocabulário» (A. Campos). A questão é que Rimbaud está entre aqueles autores trocistas, que se afastam impiedosamente do tradutor, deixando-o a sós com o triste desacerto das suas melhores intenções.

Nestas traduções deparamo-nos não poucas vezes com uma impossibilidade de acompanhar o poeta na sua furiosa dispersão, e, sem descolar do sentido literal, estas acabam por produzir um efeito de redução e contenção de Rimbaud. Embora as imagens sobrevivam, e vocabularmente a tradução seja fidelíssima à turbulência original, por delicadeza, os tradutores vão perdendo as vitais sinestesias do poeta. A prosódia tantas vezes mostra-se coxa, os versos são cascas, casulos de que a borboleta já saiu. Se isto é perfeitamente compreensível num poeta que obriga a uma tradução criativa, o que é evidente é que estas não descolam o suficiente para se darem as liberdades necessárias, essenciais. Cai em saco roto todo o incitamento ao tal desregramento dos sentidos, e temos uma poesia que nem dá sinais de luta no esforço de segurar a beleza estética do original.

Na sua nota de tradutor, Cesariny dizia que, nesta prática «devemos tentar merecer, entender e aplicar, as palavras de Novalis: … ‘Uma tradução pode ser literal, livre ou mítica. As traduções míticas são o estilo supremo da tradução. Representam a obra de arte individual no seu caráter puro e total. Dão-nos, não a obra de arte ela própria, mas a sua transcrição ideal. (…) As traduções literais exigem muito saber mas valem-se de um talento puramente discursivo.

As traduções livres, se se pretendem válidas, exigem o mais elevado espírito poético. (…) O verdadeiro tradutor neste género deve ser ele mesmo um artista e dar uma ideia do conjunto por tal ou tal processo à escolha. É necessário que seja o poeta do seu poeta».

Tanto Cesariny como Augusto de Campos (Rimbaud Livre) optam por traduções livres, sujeitando este idioma aos destratos da passagem de um sangue maldito pelas suas veias. Assim, Campos assume que, no seu modo de recriar os movimentos do original, procura «chegar a um texto cursivo, não torturado, que resulte em belos versos, versos que eu gostaria de ter escrito». Para isso, não valoriza mais o sentido do que os achados formais, e opta por desvios sensíveis para responder às assonâncias com assonâncias, às aliterações com aliterações, aos neologismos com neologismos. Como se a tradução fosse feita sobre uma pauta musical, fala da importância de ser ortodoxo quanto ao ritmo, varejando bem a frondosa copa da língua em busca de rimas que não sejam nem fáceis nem pobres. E justifica isto lembrando que, «além da inventividade e da surpresa das imagens, é a sua precisão que faz Rimbaud tão difícil e às vezes impossível de traduzir. Uma pequena refracção linguística põe tudo a perder».

Seria injusto buscar um exemplo especialmente infeliz entre os poemas de Obra Completa, comparando-o a versões mais suadas de outros tradutores. Não se encontraria, de qualquer modo, soluções desastrosas, pois há um esmero evidente nestas aproximações. Acontece que, frente a um poeta destes, de nada vale chegar com a bandeirinha branca estendida. Cada verso é uma guerra, que só pode terminar com dolorosas negociações. E o mais certo é que o lado de cá raramente leva a melhor. No máximo, pode ir compensando a imagem turva do seu espelho, com alguns achados próprios, acentuando o declive do seu idioma.O afinco que os tradutores puseram na correspondência vocabular e de sentidos frustra outras transposições. O que melhor sobrevive é o miúdo que deixa todos nervosos, esse que escarnece de toda a compostura, sarcástico, e, logo depois, capaz de uma visão tão doce que parece arrancada dos lábios de um anjo, versos de uma claridade hínica. Nesta tradução, não se perde essa volubilidade escandalosa, mas o valor discursivo sobrepõe-se aos sons e ritmos, que acabam de joelhos. E se essa não deixa de ser uma posição adequada para começar a aproximação a Rimbaud, para não se ficar pela reverência mas passar-lhe um braço pelos ombros e trazê-lo para a nossa língua seria preciso mais ousadia, o esforço de voltar-se em várias direções na rebaldaria infeciosa de todas as suas sugestões. Isto obrigaria a abandonar um método fixo, linear, para alcançar a «incoerência harmoniosa» (Paul Valéry) que faz desta obra um prodígio tão extravagante quanto minimalista.

Veja-se o pávido estertor da célebre Canção da Torre Mais Alta nesta nova tradução: «De ócios jovem presa/ A tudo rendida,/ Por delicadeza/ Perdi minha vida./ Ah que o tempo avance/ Que encanta os amantes.// Eu disse-me: esquece,/ Não sejas ninguém./ E deixa a promessa/ De mais altos bens. Que nada te frustre/ O retiro augusto. (…)»

Clube de Leitura J. G. R.

pp

COLETANDO VERSÕES DIGITAIS:

e derivações [isto aqui está aberto para edição/acréscimo de coisas futuras]

cuando pienso en machu picchu

[fragmento de um poema em construção… as estrofes ainda estão em processo… a coluna/estrutura ainda não foi fechada… eu quero um poema de fôlego, mas para isto preciso estudar mais, pesquisar… mas até lá… para não esquecer, guardo o rascunho aqui]

à cleuzi, pela inspiração

mi padre, un minotauro
mi madre es un océano
pegado a la tierra
y en el centro del labirinto
el enigma de las narrativas
la línea del encuentro
y los errores…

[desenvolver mais]

un pueblo ancestral encontrado como piedras
de una nueva ciudad
arqueología de una catedral

cuando pienso en machu picchu
donde la luz es una mujer
mágica hecha de tierra y aire,
lucha y sueños profundos
que si quisiera, podría
macharse en toda américa,
por los caminos intocables,
los que son narraciones de ficción inmemoriales
otros caminos desde peabiru
y sobrevivir a todos los diablos blancos,
estos hombres salvajes, que abren venas
y sangrar lo sagrado, lo más profundo


cuando pienso en machu pichu
donde la luz es una mujer
mágica hecha de tierra y aire,
lucha y sueños profundos
que te abraza con un abrazo
de cosas cósmicas …


cuando lo pienso,
no le tengo miedo
o miedo a la historia de mis padres y sus antepasados
o tan poco de mí

cuando estaba en el centro del labirinto

y no sabía cómo arder nel fuego…

la vieja montaña

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a imagem é de autoria do artista Lucio Kansuet

o olhar para no olhar de izadora

o olhar para no olhar de izadora
ela para, espera a senha, o sinal
repara no comportamento imersivo alheio
e mergulha no novelo
todos os corpos na sala de espera
são corpos (aéreos)
ninguém está ali,
etéreos, habitam as nuvens
até a vibração do nome de alguém desaguar
no mar de corpos submersos…
e um corpo qualquer emerso se esvai,
vai, cai como lágrima ou eco

o olhar para no olhar de izadora
não era seu corpo
tampouco sua hora.

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e nada de fixações…
é preciso catar as pedras,
empilhá-las e depois
as escalar

o corpo pedregoso
se movimenta,
parece rocha,
mas nada é tão duro assim,
nem mesmo o diamante
nos teus dentes:
mineral da mesma substância
de todos os corpos deste universo:

obatalá

**

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nota de rodapé: ouça metá metá… essa coisa bonita me apresentada pelo seuArlindo.

amand’água [ou o exercício sobre os movimentos da caverna do pântano à solidão da costa de dentro]

O problema da apreensão do objeto pelos sentidos é o problema número um do conhecimento humano. Mario Pedrosa (1949/1996)

amandágua [ou o exercício sobre os movimentos da caverna do pântano à solidão da costa de dentro]

terceiro movimento (o mergulho no meio da praia)

no movimento da maré
percorremos o dia
e gravado no centro da testa
a gravidade da areia
o peso do corpo n’água
o marulho do teu riso
o sol nos banhando
enquanto nos tornávamos
líquidos e minerais,
no fino granulado
os dentes francos
derme à mostra
e as nossas escoriações
pelo mergulho dado
pelo mergulho
elo-mergulho

primeiro movimento (entre as pedras e a água)

vi atráves d’água
tua pele de alga e peixe
a vi na água
um seixo, uma ulva,
uma concha

quis mais e cerrei
os olhos
ouvi em mim a água
sobre as pedras
e sobre si mesma

e tateei a água
e sua textura de liberdade
esse fluído que vai
dos dedos do pé
aos dedos da mão
e transborda todos os corpos marinhos

saboreei a água
por todos os poros e oríficios
calamar
virei água
água viva

segundo movimento (conchíferos)

água de anaximandro
ápeiron
água, sal, molécula
sorriso saboroso
e peixinhos a nadar no mar
no teu mar
no teu colo
e a água no pelos
punk-cabelo
ouriço na praia
olhos vermelhinhos
de peixe tetraodon
e ágil
como uma ótima resposta,
um riso,
segue reto,
toda vida,
para esquerda…
no método de stanislávski:
ser o mergulho
a água,
o corpo livre,
a jornada,
por inteira.

26-27 Janeiro. Pântano do Sul/Sambaqui – Fpolis. Vagner Boni

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exercício sobre os dentes à mostra.

no teu abraço
minha cabeça
em teu colo
minha boca aberta
dentes à mostra
num misto de medo
pela nudez
e gozo
por me permitir
estar aqui
no teu abraço
cabeça no colo
boca aberta
toda fome deste mundo
e no olhar
um oceano represado
que no teu estranho aconchego
sentir-se vivo
cuidado, aceito,
por inteiro
perceber uma lágrima irromper
e germinar…
inundar-se de risos
acordar o mundo
no teu abraço.

exercício sobre os dentes à mostra.

vidal ramos, 110. centro, florianópolis

exercício sobre a luva e a pedra

exercício sobre a luva e a pedra

por um instante
o único pagante
a peça perdida
nada de luvas
naquela antessala abafada:
uma pedra.
mas eis que eles chegam
dois por dois
aos pares e estamos
repletos, perplexos,
tocados por esta luva
e por esta pedra
pela luz e sombra
pelo suor
e pelas cordas
do teatro
em trâmite.

vagner boni. casa vermelha, centro-fpolis. 10/01/2020

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exercício sobre o ato

quase te enviei
aquele texto que fala
estarmos cara a cara
cinco centrímetros
feito ciclopes
ou te convidei
pr’aquela peça
de teatro, minha cara,
na casa vermelha

download
a luva e a pedra
e a gente presente
lado a lado
neste ato
que é a vida
sendo vivida e vívida.

mas não me contive
fiz melhor
me tornei poema,
reservei ingresso pra nós…
vamos:

sexta?