Лев Николаевич Толстой

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(…) Quando você compreende que vai morrer qualquer dia desses e não vai restar nada, tudo se torna insignificante! Eu considero muito importantes as minhas ideias, mas, ainda que se concretizassem, elas me parecem tão insignificantes… Assim, a gente vai passando a vida, se distrai com a caça, com o trabalho, só para não pensar na morte.

— Liev Tolstói, no livro “Anna Kariênina”. (Parte IV | Cap. VII / Ed. Cosac Naify; 1.ª edição [2013]).

Obra: “The Prisoner”, 1878 – Nikolai Yaroshenko.

amand’água [ou o exercício sobre os movimentos da caverna do pântano à solidão da costa de dentro]

O problema da apreensão do objeto pelos sentidos é o problema número um do conhecimento humano. Mario Pedrosa (1949/1996)

amandágua [ou o exercício sobre os movimentos da caverna do pântano à solidão da costa de dentro]

terceiro movimento (o mergulho no meio da praia)

no movimento da maré
percorremos o dia
e gravado no centro da testa
a gravidade da areia
o peso do corpo n’água
o marulho do teu riso
o sol nos banhando
enquanto nos tornávamos
líquidos e minerais,
no fino granulado
os dentes francos
derme à mostra
e as nossas escoriações
pelo mergulho dado
pelo mergulho
elo-mergulho

primeiro movimento (entre as pedras e a água)

vi atráves d’água
tua pele de alga e peixe
a vi na água
um seixo, uma ulva,
uma concha

quis mais e cerrei
os olhos
ouvi em mim a água
sobre as pedras
e sobre si mesma

e tateei a água
e sua textura de liberdade
esse fluído que vai
dos dedos do pé
aos dedos da mão
e transborda todos os corpos marinhos

saboreei a água
por todos os poros e oríficios
calamar
virei água
água viva

segundo movimento (conchíferos)

água de anaximandro
ápeiron
água, sal, molécula
sorriso saboroso
e peixinhos a nadar no mar
no teu mar
no teu colo
e a água no pelos
punk-cabelo
ouriço na praia
olhos vermelhinhos
de peixe tetraodon
e ágil
como uma ótima resposta,
um riso,
segue reto,
toda vida,
para esquerda…
no método de stanislávski:
ser o mergulho
a água,
o corpo livre,
a jornada,
por inteira.

26-27 Janeiro. Pântano do Sul/Sambaqui – Fpolis. Vagner Boni

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Ranhuras da montanha

(…) Ranhuras da montanha
Descem até o vale
Lágrimas vão de mim
Por quem? (…) 

Caetano Veloso – Por Quem?

quantas vezes não fui?
preso neste corpo vão.
sem asas
nem imensidão

acordei errado
e como que perdido insisti
ainda insisto
em dar voltas sobre meu corpo imóvel

móvel
sem saber
quanto erros um homem
é capaz de ter?

sem parar
quantas voltas um homem
é capaz de dar?
e por quanto tempo
um animal pode errar?

acordei errado
e como que perdido insisti
enrodilhado nas palavras vagas
não irei
as questões
as respostas
não posso
melhoras

não sei
fujo
finjo
quis regressar
ir
dormir sem fim
lágrimas vão de mim

espero dar dez
espero mais dez
fotografei a praia deserta
o sal de minhas lágrimas
o lixo, os grãos de areia, as aves marinhas e o azul…

antes de regressar às ranhuras na montanha
aos vãos
às entranhas

para o minério dentro de mim.
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a minha morte é só uma: ganga, lumumba, lorca, jesus

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O menino cresceu entre a ronda e a cana
Correndo nos becos que nem ratazana.
Entre a punga e o afano, entre a carta e a ficha
Subindo em pedreira que nem lagartixa.
Borel, juramento, urubu, catacumba,
Nas rodas de samba, no eró da macumba.
Matriz, querosene, salgueiro, turano,
Mangueira, são carlos, menino mandando,
Ídolo de poeira, marafo e farelo,
Um deus de bermuda e pé-de-chinelo,
Imperador dos morros, reizinho nagô,
O corpo fechado por babalaôs.
 
Baixou oxolufã com as espadas de prata,
Com sua coroa de escuro e de vício.
Baixou cão-xangô com o machado de asa,
Com seu fogo brabo nas mãos de corisco.
Ogunhê se plantou pelas encruzilhadas
Com todos seus ferros, com lança e enxada.
E oxossi com seu arco e flecha e seus galos
E suas abelhas na beira da mata.
E oxum trouxe pedra e água da cachoeira
Em seu coração de espinhos dourados.
Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar
E um batalhão de mil afogados.
 
Iansã trouxe as almas e os vendavais,
Adagas e ventos, trovões e punhais.
Oxum-maré largou suas cobras no chão.
Soltou sua trança, quebrou o arco-íris.
Omulu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos
Lançando a doença pra seus inimigos.
E nana-buruquê trouxe a chuva e a vassoura
Pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos.
 
Exus na capa da noite soltara a gargalhada
E avisaram a cilada pros orixás.
Exus, orixás, menino, lutaram como puderam
Mas era muita matraca e pouco berro.
E lá no horto maldito, no chão do pendura-saia,
Zumbi menino lumumba tomba da raia
Mandando bala pra baixo contra as falanges do mal,
Arcanjos velhos, coveiros do carnaval.
 
– irmãos, irmãs, irmãozinhos,
Por que me abandonaram?
Por que nos abandonamos
Em cada cruz?
– irmãos, irmãs, irmãozinhos,
Nem tudo está consumado.
A minha morte é só uma:
Ganga, lumumba, lorca, jesus
 
Grampearam o menino do corpo fechado
E barbarizaram com mais de cem tiros.
Treze anos de vida sem misericórdia
E a misericórdia no último tiro.
 
Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
Depois de pular igual a macaco.
Vou jogar nesses três que nem ele morreu:
Num jogo cercado pelos sete lados.
Compositores: Aldir Blanc / Joao Bosco

 

El deseo y el mundo – Eduardo Galeano

Há dores crônicas neste corpo. E diante da contingência, pois a vida é contingência, há um dia de repouso e há referências, colagens, tecidos… narrativas.

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El deseo y el mundo – Eduardo Galeano

 ¿Cuántos días han transcurrido? ¿Cuántos meses? Una noche se descubre que llevar la cuenta es peor. Antes, antes. Gustavo mira sin ver. Abolir el tiempo. Volver atrás. Quedarme, Carmen, quedarme en vos. Yo creía, Carmen, que no ibas a terminarte nunca. Te apreté la mano y la mano latía, estaba viva como un pájaro. Antes, antes de todo. Y las estrellas, papá, ¿qué hacen durante el día? ¿Por qué ponieron mosquitos en el Arca de Noé? ¿Por qué mamá murió? Dos perros rodaban mordiéndose por los médanos y Gustavo ya había estado preso, no dormía en la casa, tres veces habían venido a revolver las cosas unos tipos de uniforme, estaban armados como los que trabajan en la tele, esos de la serial de “Combate”, daban vuelta la casa y Tavito los miraba sin pestañear y sin abrir la boca, clavado contra la pared; el cuerpo le temblaba hasta los dedos de los pies. Gustavo le había dicho: hay tantas cosas que tendrás que descubrir, Tavito. Las cosas invisibles, las difíciles, la brecha que te espera entre el deseo y el mundo: apretarás los dientes, resistirás, nunca pedirás nada. No, no se vive para ganarle a nadie, Tavito. Se vive para darse.

 Tavito señala, con el mentón, a los soldados.

 – Y estos, ¿no saben cuándo vas a volver?

 – Tampoco saben.

 Darse. Pero, ¿y él? ¿Tengo derecho?, se pregunta, ahora, Gustavo. Y él, ¿qué culpa tiene? He elegido por él sin consultarlo. ¿Me odiará alguna vez? Gustavo lo ve aproximarse a uno de los soldados. Tavito le habla, el soldado se encoge de hombros y luego le acerca una mano para acariciarle la cabeza. Tavito pega un brinco, como si la mano del soldado estuviera electrizada.

 ¿Tengo derecho? He decidido por él. ¿Había otra manera? Gustavo mira a los costados, a los compañeros, rostro por rostro, los hombres con quienes comparte la comida y la pena y las palabras de aliento que se pasan unos a otros, como el mate, de boca en boca. El tiempo de ahora y el tiempo de después. Alguien le arroja, desde el otro extremo de la fila un paquete de cigarrillos. Gustavo lo caza al vuelo. Y entonces Tavito dice:

 – No te preocupes.

 Dice:

 – Cuando yo sea astronauta, nos vamos a ir a la luna o nos vamos a ir a pescar.
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***

Angicos – Comadre Florzinha

Composição: Chico Science / Lúcio Maia Álbum: Comadre Florzinha (ano 1999)

Seu Doutor, não lhe dou ouvidos
Minha cabeça tá cheia de ideia
O perfume que eu uso
Não é como o seu
Sai daqui da minha terra

Vou embora, vou andando
Não me posso demorar
Eu tô indo pra Vênus
Encontrar Maria
Não posso me atrasar

Meu foguete já tá chegando
É melhor sair daí
Vai soltar raio laser
Pra lumiar
As terras do Cariri

conta criada exclusivamente para acessar o banco do tempo

HAMLET, ATO I, Cena V

Outra parte da esplanada.
Entram o Fantasma e Hamlet.HAMLET: Para onde me conduzes? Não darei mais um passo. FANTASMA: Ouve-me!HAMLET: Isso é o que desejo.

FANTASMA: Já está perto o momento em que é forçoso que de novo me entregue às labaredas sulfúreas
do tormento.

HAMLET: Pobre espírito!

FANTASMA: Não me lastimes; ouve com atenção o segredo que passo a revelar-te.

HAMLET: Fala, que estou obrigado a dar-te ouvidos.

FANTASMA: E também a vingar-me, após ouvires-me.

HAMLET: Como!?

FANTASMA: Sou a alma de teu pai, por algum tempo condenada a vagar durante a noite, e de dia a
jejuar na chama ardente, até que as culpas todas praticadas em meus dias mortais sejam nas chamas,
alfim, purificadas. Se eu pudesse revelar-te os segredos do meu cárcere, as menores palavras dessa
história te rasgariam a alma; tornar-te-iam, gelado o sangue juvenil; das órbitas fariam que saltassem,
como estrelas, teus olhos; o penteado desfar-te-iam, pondo eriçados, hirtos os cabelos, como cerdas de
iroso porco-espinho. Mas essa descrição da eternidade para ouvidos não é de carne e sangue. Escuta,
Hamlet! Se algum dia amaste teu carinhoso pai…

HAMLET: Ó Deus!

FANTASMA: Vinga o seu assassínio estranho e torpe.

HAMLET: Assassínio?

FANTASMA: Sim, assassínio torpe, como todos; mas esse é estranho, vil e inconcebível.

HAMLET: Conta-me, a fim de que eu, com asas rápidas como a meditaçáo ou os pensamentos de amor,
possa vingar-te.

FANTASMA: Acho que podes. Mais lerdo do que a espessa planta que nas margens do Letes apodrece,
se isso não te abalasse. Escuta, Hamlet! Contaram que uma cobra me picara, quando, a dormir, eu no
jardim me achava. Assim, foi ludibriado todo o ouvido da Dinamarca por uma notícia falsa de minha
morte. Mas escuta, nobre mancebo! A cobra que peçonha lançou na vida de teu pai, agora cinge a coroa
dele.

HAMLET: Oh minha alma profética! Meu tio!

FANTASMA: Sim, esse monstro adúltero e incestuoso. Com o feitiço pessoal e com presentes – ó dotes
maus, ó brindes, que tal força tendes de sedução! – pôde a vontade da rainha conquistar, que parecia tão
virtuosa, dobrando-a para o vício. Que queda, Hamlet! Do meu amor, que tinha tal pureza que andava a
par com o voto que eu fizera no nosso casamento – a um miserável que em confronto comigo nada vale!
Mas se a virtude é firme, ainda que o vício sob a forma do céu vá cortejá-la, a luxúria, conquanto a um
anjo presa, num leito celestial cedo se enfara, sonhando com carniça. Mas, devagar! Pressinto o ar da
manhã. Serei breve. Ao achar-me adormecido no meu jardim, na sesta cotidiana, teu tio se esgueirou por
minhas horas de sossego, munido de um frasquinho de meimendro e no ouvido despejou-me o líquido
leproso, cujo efeito de tal modo se opõe ao sangue humano, que corre pelas portas e caminhos do corpo,
tão veloz como o mercúrio, fazendo coagular com vigor súbito o sangue puro e fino, como o leite quando
o ácido o conturba. Assim, comigo: no mesmo instante impingens me nasceram, qual se eu fosse outro
Lázaro, nojentas, pelo corpo macio. Adormecido, desta arte, me privou o irmão, a um tempo, da vida, da
coroa e da rainha, morto na florescência dos pecados, sem óleos, confissão nem sacramentos, sem ter
prestado contas, para o juízo enviado com o fardo dos meus erros. É horrível, sim, horrível, multo
horrível! Se sentimento natural tiveres, não suportes tal coisa. Não consintas que o leito real da
Dinamarca fique como catre de incesto e de luxúria. Contudo, se nesse ato te empenhares, não te
manches. Que tua alma não conceba nada contra tua mãe; ao céu a entrega, e aos espinhos que o peito lhe
compungem. Deles seja o castigo. E agora, adeus! Mostra-me o pirilampo da madrugada; já seu fogo
inativo empalidece. Adeus, Hamlet! Lembra-te de mim.

(Sai.)

HAMLET: Legiôes do céu! Ó terra! Que mais, ainda? Invocarei o inferno? Firme, firme, coração! Não
fiqueis velhos de súbito, músculos; agüentai-me! Que me lembre de ti? Sim, pobre fantasma, sim,
enquanto tiver sede a memória neste globo conturbado. Lembrar-me? Sim; das tábuas da memória hei de
todas as notícias frívolas apagar, as vãs sentanças dos livros, as imagens, os vestígios que dos anos e a
experiência aí deixaram. Essa tua ordem, só, há de guardar-se no volume e no livro do meu cérebro, sem
mais escórias. Sim, pelo alto céu, ó mulher perniciosa! Vilão, vilão que ri! Vilão maldito! Meu
canhenho… Preciso tomar nota que o homem pode sorrir e ser infame. Sei que ao menos é assim na

Dinamarca.

(Escreve.)

Aí vou, meu tio. Agora minha senha vai ser: Adeus, recorda-te de mim. Assim jurei.

HORÁCIO: (dentro) – Milorde Hamlet!

MARCELO (dentro) – Príncipe!

HORÁCIO (dentro) – Que o céu o ampare.

MARCELO (dentro) – Amém.

HORÁCIO: Olá! Olá! Senhor!

HAMLET: Olá, menino! Vem, meu passarinho! (Entram Horácio e Marcelo.)

MARCELO: Que aconteceu, senhor?

HORÁCIO: Que houve, senhor?

HAMLET: Extraordinário!

HORÁCIO: Bom senhor, contai-nos.

HAMLET: Não, que o revelaríeis.

HORÁCIO: Eu, não, senhor; por Deus!

MARCELO: Nem eu, tampouco.

HAMLET: Que julgais? A alma humana poderia concebê-lo? Jurais não revelá-lo?

HORÁCIO E MARCELO: Pelo céu o juramos, meu senhor.

HAMLET: Não há em toda a Dinamarca um biltre que possa ser tratante mais chapado.

HORÁCIO: Não era necessário que nos viesse do outro mundo um fantasma dizer isso.

HAMLET: Está bem, está bem; tendes razão. Desse modo, sem mais formalidades, apartemos as mãos e
dispersemo-nos. Vós, para onde os negócios e os pendores vos levarem – que todos os possuem, sejam
quais forem. – Quanto à minha pobre parte… Ora vede: vou rezar.

HORÁCIO: São palavras sem nexo, meu senhor.

HAMLET: Em verdade, compunge-me ofender-vos. De coração.

HORÁCIO: Não há ofensa, príncipe.

HAMLET: Por São Patrício, há ofensa, Horácio, e grande, quanto à visão de há pouco. Só vos digo que é
um fantasma honesto. Mas, quererdes saber o que passou entre mim e ele, não pode ser; sofreai-vos
como for. E agora, bons amigos – sim, que o somos, companheiros de escola e de caserna – concedei-me
um favor.

HORÁCIO: Que pode ser, meu príncipe? Está feito.

HAMLET: Não contar o que vistes esta noite.

HORÁCIO E MARCELO: Nada diremos.

HAMLET: Bem; então, jurai-o.

HORÁCIO: Sob palavra de honra, serei mudo.

MARCELO: Eu também; sob palavra.

HAMLET: Em minha espada.

HORÁCIO: Já o juramos, senhor.

HAMLET: Bem, mas agora jurai sobre esta espada.

FANTASMA: (em baixo): Jurai!

HAMLET: Olá, garoto! Estás aí, valente. Ouvistes que da adega ele nos fala. Prestai o juramento.

HORÁCIO: Formulai-o.

HAMLET: Jamais falar de quanto presenciastes. Sobre esta espada

FANTASMA: (em baixo): Jurai!

HAMLET: Hic et ubique?
? Mudemos de lugar. Aqui, senhores.
Ponde as mãos novamente sobre a espada.
Não falareis jamais sobre o que vistes.
Jurai por minha espada.

FANTASMA: (em baixo): Jurai!

HAMLET: Bravo, velha toupeira! E como furas a terra, bom mineiro! Ainda mais longe, meus amigos.

HORÁCIO: Ó dia e noite! É estranho!

HAMLET: Recebamo-lo, então, como a estrangeiro. Há multa coisa mais no céu e na terra, Horácio, do
que sonha a nossa pobre filosofia. Vinde novamente. Jurai de novo, assim Deus vos ajude, por mais que
eu me apresente sob aspecto extravagante, tal como em futuro é possível que eu venha a comportar-me,
que jamais – se me virdes alguma hora cruzar assim os braços, ou a cabeça sacudir deste jeito, ou dizer
frases sem nexo: “Muito bem”, ou “Poderíamos se o quiséssemos”, ou “Vontade tenho de falar”, ou
discursos desse gênero – mostrareis saber algo. Que a divina Graça e a Misericórdia vos amparem.

FANTASMA: (em baixo): Jurai!

HAMLET: Sossega, alma penada! E agora, amigos, com todo o meu amor me recomendo. E tudo o que
um pobre homem como Hamlet possa fazer, no empenho de agradar-vos, não faltará, querendo-o Deus. E
vamo-nos. Peço silêncio; os dedos sobre os lábios. Dos gonzos saiu o tempo. Maldição! Ter vindo ao
mundo para endireitá-lo! Partamos juntos. Vamo-nos.

(Saem.)

***

“Todo aquele que assume uma responsabilidade política acabará sempre por chegar a uma ocasião em que dirá como Hamlet:

“O tempo saiu dos gonzos: Que maldição
que me deu ter por missão reordená-lo!”

Reordenar o tampo significa renovar o mundo, e é uma coisa que podemos fazer, porque todos nós aparecemos, numa época ou noutra, como recém-chegados a um mundo que já lá estava antes de nós e aí continuará a estar depois de nos irmos, depois de termos deixado o seu encargo aos que nos sucederem.”

“Responsabilidade e Juízo” (Hannah Arendt)

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O que é revolução – Florestan Fernandes (1981)

“A palavra revolução tem sido empregada de modo a provocar confusões. Por exemplo, quando se fala de “revolução institucional”, com referência ao golpe de Estado de 1964. É patente que aí se pretendia acobertar o que ocorreu de fato, o uso da violência militar para impedir a continuidade da revolução democrática (a palavra correta seria contra-revolução: mas quais são os contrarevolucionários que gostam de se ver na própria pele?). Além disso, a palavra “revolução” encontra empregos correntes para designar alterações contínuas ou súbitas que ocorrem na natureza ou na cultura (coisas que devemos deixar de lado e que os dicionários registram satisfatoriamente). No essencial, porém, há pouca confusão quanto ao seu significado central: mesmo na linguagem de senso comum, sabe-se que a pa lavra se aplica para designar mudanças drásticas e violentas da estrutura da sociedade. Daí o contraste freqüente de “mudança gradual” e “mudança revolucionária” que sublinha o teor da revolução como uma mudança que “mexe nas estruturas”, que subverte a ordem social imperante na sociedade.
O debate terminológico não nos interessa por si mesmo. É que o uso das palavras traduz relações de dominação. Se um golpe de Estado é descrito como “revolução”, isso não acontece por acaso. Em primeiro lugar, há uma intenção: a de simular que a revolução democrática não teria sido interrompida. Portanto, os agentes do golpe de Estado estariam servindo à Nação como um todo (e não privando a Nação de uma ordem política legítima com fins estritamente egoístas e antinacionais). Em segundo lugar, há uma intimidação: uma revolução dita as suas leis, os seus limites e o que ela extingue ou não tolera (em suma, golpe de Estado criou uma ordem ilegítima que se inculcava redentora; mas, na realidade, o “império da lei” abolia o direito e implantava a “força das baionetas”: não há mais aparências de anarquia, porque a própria sociedade deixava de secretar suas energias democráticas). No conjunto, o golpe de Estado extraía a sua vitalidade e a sua autojustificação de argumentos que nada tinham a ver com “o consentimento” ou com “as necessidades” da Nação como um todo. Ele se voltava contra ela porque uma parte precisava anular e submeter a outra à sua vontade e discrição pela força bruta (ainda que mediada por certas instituições). Nessa conjuntura, confundir os espíritos quanto ao significado de determinadas palavras-chave vinha a ser fundamental. É por aí que começa a inversão das relações normais de dominação. Fica mais difícil para o dominado entender o que está acontecendo e mais fácil defender os abusos e as violações cometidas pelos donos do poder.”

O que é revolução – Florestan Fernandes (1981)

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the last night of earth poems

Bluebird
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,

I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.

then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die

and we sleep together like
that
with our
secret pact

and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?
– Charles Bukowski, in “The Last Night of the Earth Poems”. Santa Rosa CA: Black Sparrow, 1992.

tradução:

O pássaro azul
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
– Charles Bukowski, em “Textos autobiográficos, de Charles Bukowski” [tradução de Pedro Gonzaga; edição de John Martin]. Porto Alegre: L&PM Editores, 2009.

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Bluebird (2010) by Charles Bukowski. Produced/Directed/Designed by: Jennifer Griffiths And Cameron McKague

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Bluebird (2009) animation based on Charles Bukowski’s poem, por Monica Umba


via revista prosa verso e arte

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a origem da família, da propriedade privada e do estado

7º Dia

A convite de Pati Kemerich , durante 10 dias vou publicar 10 livros que marcaram minha trajetória como leitor. Sem comentários e explicações, apenas a capa. E, cada dia, desafiarei uma pessoa a continuar a roda.

Aceita, Cleuzi?

7 Cleuzi


Friedrich Engels e os estudos feministas | por Maria Lygia Quartim de Moraes

Há tantos diálogos

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
………………….. o semelhante
………………….. o diferente
………………….. o indiferente
………………….. o oposto
………………….. o adversário
………………….. o surdo-mudo
………………….. o possesso
………………….. o irracional
………………….. o vegetal
………………….. o mineral
………………….. o inominado

Diálogo consigo mesmo
………………….. com a noite
………………….. os astros
………………….. os mortos
………………….. as idéias
………………….. o sonho
………………….. o passado
………………….. o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
………………….. e
tua melhor palavra
………………….. ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade
In Discurso de Primavera & Algumas Sombras
José Olympio, 1977

Sem título

Efeito Werther, citação.

imagesEm 1846, a obra de Goethe já estava publicada há 72 anos e a já existia uma versão censurada desde 1787. Marx, que tinha 28 anos, publicou um pequeno texto chamado “Sobre o suicídio”, no qual, através das palavras de Jacques Peuchet diz o seguinte:

“Tudo o que se disse contra o suicídio gira em torno do mesmo círculo de ideias. Contra ele são postos os desígnios da Providência, mas a própria existência do suicídio é um notório protesto contra esses desígnios ininteligíveis. Falam-nos de nossos deveres para com a sociedade, sem que, no entanto, nossos direitos em relação a essa sociedade sejam esclarecidos e efetivados, e termina-se por exaltar a façanha mil vezes maior de dominar a dor ao invés de sucumbir a ela, uma façanha tão lúgubre quanto a perspectiva que ela inaugura. Em poucas palavras, faz-se do suicídio um ato de covardia, um crime contra as leis, a sociedade e a honra. Como se explica que, apesar de tantos anátemas, o homem se mate? [..] O que dizer da indignidade de um estigma lançado a pessoas que não estão mais aqui para advogar suas causas? […] As medidas infantis e atrozes que foram inventadas conseguiram combater vitoriosamente as tentações do desespero? Que importam à criatura que deseja escapar do mundo as injúrias que o mundo promete a seu cadáver? Ela vê nisso apenas uma covardia a mais da parte dos vivos. Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões; em que se pode ser tomado por um desejo implacável de matar a si mesmo, sem que ninguém possa prevê-lo? Tal sociedade não é uma sociedade; ela é, como diz Rousseau, uma selva, habitada por feras selvagens.” (Boitempo, 2006).

via Allan Kenji

walter benjamin: para uma nova ética da memória

[…] nunca existiu um documento da cultura que não fosse ao mesmo tempo um [documento] da barbárie. W. Benjamin.

me caiu às mãos um compêndio sobre walter benjamin, alguns textos em forma de revista  –  revista educação da editora segmento. gostaria de citar algumas passagens interessantes, mas até agora não encontrei na internet os tais textos  e nem tenho tempo de digitar o que anotei [e ficará para um momento próximo a exposição das passagens].

o título acima é de um texto de Márcio Seligmann-Silva. “A ética da memória implica um duplo ato: por um lado a destruição da falsa ordem das coisas e, por outro, a construção de um novo espaço mnemônico.” – que ainda estou a ler.

Li, entre outros, “Educação a contrapelo” de Sônia Kramer; e “Walter Benjamin e a infância da linguagem” de Solange Jobim e Souza. [E assim que tiver um tempo, coloco aqui algumas passagens interessantes destes dois ou três artigos]

***

Segue abaixo a apresentação do livro “Política, cidade, educação: itinerários de Walter Benjamin” organizado por estas duas escritoras.

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JOBIM E SOUZA, Solange e KRAMER, Sonia. (Orgs.). Política, cidade, educação: itinerários de Walter Benjamin. Rio de Janeiro: Contraponto. Ed. PUC-Rio, 2009.

APRESENTAÇÃO [ Solange Jobim e Souza / Sonia Kramer ]

Tudo o que era guardado a chave permanecia novo por mais tempo… Mas meu propósito não era conservar o novo e sim renovar o velho.
Walter Benjamin

Qual o significado de Walter Benjamin nos nossos itinerários pessoais e intelectuais? Qual o significado de Walter Benjamin para o pensamento contemporâneo? O que tem atraído professores e pesquisadores, dos diversos campos do saber, para o estudo da sua obra? Benjamin constitui para muitos historiadores, filósofos, estudiosos da linguagem, da arte ou da educação, mais do que uma referência bibliográfica para pesquisas, teses, dissertações ou ensaios, uma referência de vida, pelos temas que analisa, pela ética explícita na sua obra. Itinerários sugere caminhos, percursos, andanças em uma dupla acepção, tanto corpórea como imaginária. Deixar o corpo e o pensamento buscarem seus próprios contornos na vida, no cotidiano das trocas sociais e, a partir desta experiência imediata com a realidade, dar forma e conteúdo aos acontecimentos que retratam uma época. Itinerários porque a pesquisa, objeto de nossa tarefa cotidiana na vida acadêmica, é permanente indagação e procura para transformar em matéria uma experiência inefável. Esforço de pensamento que quer fazer justiça à experiência sensível e racional e, para dar conta desta tarefa, precisa transpor os limites da linguagem em cada momento histórico. Re-criar novas formas de texto sempre, desencarcerar a palavra do seu destino de conceito, eis o desafio que se apresenta aos herdeiros do pensamento de Walter Benjamin.

Ao fixar nossa atenção ao tempo transcorrido desde as primeiras publicações em língua portuguesa da obra de Walter Benjamin1 até o ano de 2006, quando tivemos acesso à tradução de Das Passagen-Werk, publicado pela Editora da UFMG, percebemos que, nos últimos vinte anos dos itinerários de Walter Benjamin no Brasil, o legado deixado por este autor entre os leitores brasileiros possui uma expressividade digna de registro e celebração. Foi neste contexto que decidimos concretizar o desejo de realizar o “1o Colóquio Itinerários de Walter Benjamin no Brasil”, nos dias 19 e 20 de abril de 2007, no Auditório Padre Anchieta da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Nossa intenção, ao convidar os professores Willi Bolle e Olgária Matos, responsáveis pela publicação em português do “Trabalho das Passagens”, foi celebrar uma trajetória de estudos e pesquisas na PUC-Rio com as possibilidades que se ampliam com o acesso a esta obra em português. Há exatos vinte anos, nós – Solange Jobim e Sonia Kramer – iniciávamos nossos estudos de Benjamin na PUC-Rio com Leandro Konder e Katia Muricy. Outros convidados, interlocutores de diferentes gerações de pesquisadores, professores e alunos da PUC-Rio, que ali fizeram seu mestrado e doutorado e hoje atuam em diferentes universidades brasileiras, compuseram um mosaico de abordagens temáticas que convergem seus olhares para as questões humanas, sociais, políticas e culturais a partir das lentes teórico-metodológicas oferecidas por Benjamin ao longo de sua instigante produção. Com isto pretendemos desvelar os múltiplos sentidos e as apropriações político-sociais que reverberam dos seus escritos nos dias de hoje para se pensar e agir em um país com as características do Brasil, em diálogo com o mundo globalizado e a ordem econômica e política atuais.
Refletindo sobre as apropriações do pensamento de Benjamin em nosso contexto, não podemos deixar de mencionar algumas marcas que se apresentam fortes para quem estuda a sua trajetória – vida, prisão e morte em Port Bou – e o desdobramento de tais experiências de vida em sua obra. Particularidades relacionadas ao seu modo peculiar de perceber a materialidade do mundo que o cercava se fazem presentes na formulação do seu pensamento. Colecionador de miniaturas, de livros e de brinquedos infantis, era também amante do cinema e da fotografia, estudioso da estética (e defensor de uma politização da estética capaz de fazer frente à estetização da política então engendrada pelo nazismo), pensador crítico da cultura do seu tempo, filósofo marxista (preferia estudar Kant a Hegel), Benjamin, até o fim de sua vida, perseverou em suas atitudes. Por não querer interromper o seu trabalho de pesquisa e escrita da obra hoje intitulada Passagens – uma pesquisa sobre história e modernidade – negou-se a sair da França, colocando-se em risco frente ao avanço da dominação nazista na Europa. Vale destacar que o seu modo de pensar encontrou uma perfeita sintonia com a forma de seus escritos. O caminho teórico-metodológico que delineou – contra a visão desarmada e contra a visão filosófica – fez com que procurasse escrever seus textos em fragmentos que seriam como ruínas em permanente re-construção; uma obra, portanto, que sugere o inacabamento presente na própria vida e, com isto, a possibilidade de podermos interferir nos caminhos da história. Recuperar o universal, compreender a totalização manifesta no singular, este era o seu projeto. A totalidade se revela assim para ele na singularidade, no miúdo, no cotidiano, história ao vivo. Seu propósito, no que diz respeito à sua concepção de história, seria escovar a história a contrapelo, ou seja, se colocar em permanente alerta contra a continuidade e o evolucionismo da história oficial. Para Benjamin (1987a), o cronista é o narrador da história. Seu método vai implicar em uma busca da forma: Benjamin defende que a filosofia seja um comentar a realidade, e deste modo advoga para a filosofia a forma poética, artística capaz de – segundo ele – assegurar que o todo seja visto, compreendido, capturado na ínfima parte. Seu estilo de escrever se torna, portanto, inquietante e instigante, porque rompe com a hegemonia do tratado para aderir aos fragmentos e aos textos na forma dos ensaios.
A obra de Walter Benjamin – durante o século XX e ainda hoje – tem um importante papel na Universidade justamente pelo seu caráter antidogmático, pela sua capacidade de justapor áreas do conhecimento, enfoques e temáticas diversas, dialogando com posições divergentes, sem ter medo do embate ou da dúvida, mas também sem qualquer pretensão de unanimidade. Seu ensinamento pedagógico encontra-se aí: tal como as sementes – nas pirâmides – possuem ainda força germinativa, também na teoria de Benjamin encontramos formas de, ao escovar a realidade na direção contrária à esperada, compreender a contemporaneidade a partir da construção de novos conceitos. Sua proposta é a de levantar sempre perguntas e não deixar que o pensamento se imobilize nas explicações fáceis, e que o espanto frente aos fatos que nos cercam seja arrancado ao conformismo.
Desde a leitura de “Documentos de Cultura, Documentos de Barbárie” (1986) aprendemos a indagar: como fazer educação onde a cultura não seja transmitida como barbárie? Fazer história dos destroços, do lixo, da mixórdia e estabelecer uma relação crítica com a tradição. Como deixar de lembrar disso num século que praticou e assistiu ao holocausto que aniquilou deficientes físicos, ciganos, judeus, homossexuais, comunistas, e que continua perpetrando genocídios na África e na Ásia, que continua praticando e assistindo a guerras de eliminação étnica ou religiosa, fraturando a experiência e a possibilidade da esperança? A concepção de história de Walter Benjamin ensina que o passado poderia ter sido diferente do que foi; o presente pode ser diferente do que é; o futuro pode ser diferente do fatalismo com que se o anuncia. Nesse contexto, o conceito de infância e a compreensão do papel da linguagem surgem como estratégias reflexivas que precisam ser compreendidas como categorias centrais para dar forma e conteúdo ao conceito de história que Benjamin delineia ao longo de sua obra.
Quanto ao papel da linguagem em tornar a história presente, ressignificando-a, Benjamin irá destacar a importância da rememoração, da reminiscência e do papel do historiador. A história é compreendida não como linearidade mecânica, mas no entrecruzamento de presente-passado-futuro; a história é entendida como narrativa. No centro da análise benjaminiana, portanto, não está o sujeito, mas a linguagem, linguagem que é produção humana acontecida na história. Compreende-se, a partir da leitura de sua obra, que o homem se faz fazendo o mundo, e se faz como homem se fazendo na linguagem, processo que só é possível graças à coletividade, ao nós; é no outro que a linguagem se enraíza; compreender a narrativa do outro requer experiência comum compartilhada, pois – como escreve em “O narrador” (1936) – “a narrativa[…] mergulha a coisa na vida do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso” (Benjamin, 1987a, p. 205).
Neste mesmo ensaio ele analisa que o cronista é o narrador da história (p. 209), tecendo interessantes considerações – como também em outros textos sobre memória e história. Sobre o conceito de história, ele dirá: “O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história” (ibidem, Tese 3, p. 223).
Benjamin está preocupado, portanto, com uma “apreensão do tempo histórico em termos de intensidade e não de cronologia”, devendo ela servir “de base a uma historiografia regida por uma outra temporalidade que a de uma causalidade linear, exterior ao evento” (Gagnebin, 1994, p. 11). Assim, à representação abstrata e vazia do tempo histórico como uma sucessão infinita de pontos interligados por sua ordenação cronológica, Benjamin opõe o reconhecimento de que “a história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo vazio e homogêneo, mas um tempo saturado de ‘agoras’” (Benjamin, 1987a, Tese 14, p. 229). Assim, a história não obedeceria ao desenvolvimento progressivo e contínuo do tempo, mas se daria a partir da emergência das origens, concebidas por Benjamin como saltos e recortes que quebram o movimento linear e rotineiro, evolucionista, progressivo, da história oficial.
O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso (ibidem, Tese 2, p. 223). A rememoração do passado em Benjamin serve, assim, à desmistificação do historicismo que vê a história como um continuum, sendo o progresso algo que se relaciona com a capacidade de aperfeiçoamento inerente à humanidade. Romper com essa perspectiva supõe apresentar o passado na ótica dos vencidos. Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo como ele de fato foi. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de perigo… Em cada época é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela… O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer (ibidem, Tese 6, pp. 224-225). Dessa forma, para Benjamin a volta ao passado não é feita para conhecê- lo, mas para, se apropriando dele, colocar o presente numa situação crítica. (Konder, 1988, p. 22). É possível mudar o passado, ressignificando-o na linguagem que o presentifica, e, deste modo, criar o compromisso com o futuro, ou seja, mudar o futuro. No contexto desta reflexão, a infância é analisada como categoria central no conceito benjaminiano de história.
Mas o conceito de memória não é simples nem imediato na teoria de Benjamin. E o próprio conceito de infância é tecido no entrecruzamento de perspectivas diversas: histórica, filosófica, psicológica, política, cultural, antropológica, artística, ética. E como esse entrecruzamento de perspectivas se dá? Na linguagem, condição de humanidade do homem, pois só o ser humano pode ser in-fans (etimologicamente em latim, aquele que não fala). Então, ao contrário dos animais, o homem – como tem uma infância, ou seja, não foi sempre falante – aparece como aquele que precisa, para falar, se constituir como sujeito da linguagem e deve dizer “eu”. Nessa descontinuidade é que se funda a historicidade do ser humano. Se há uma história, se o homem é um ser histórico é só porque existe uma infância do homem, é porque ele deve se apropriar da linguagem. Se assim não fosse, o homem seria natureza e não história. E aqui reside a possibilidade de saber, quer dizer, de vivendo a história e de recontando essa história construir um saber coletivo que extrapola a mera justaposição de informações.
Muitas são as possibilidades de leitura, estudo, debate e apropriação do pensamento de Walter Benjamin e dos conceitos com que opera. Este livro tem o objetivo de materializar os debates do Colóquio, as análises desenvolvidas e os itinerários traçados, a partir do pensamento de Walter Benjamin, na produção acadêmica no Brasil. Os textos aqui apresentados trazem ideias de Benjamin e dão continuidade, através de sua escrita, ao diálogo na grande temporalidade. Assumindo a arbitrariedade de toda organização e considerando o Colóquio que provocou a escrita, estruturamos Política, cidade, educação: Itinerários de Walter Benjamin em três partes: História, Política, Filosofia apresenta os textos: “As Passagens de Walter Benjamin: um ensaio imagético”, de Willi Bolle; “Walter Benjamin: pólis grega, metrópoles modernas”, de Olgária Matos; “Benjamin e o marxismo”, de Leandro Konder e “A alegoria e o inexpressável”, de Katia Muricy.  Literatura, Corpo, Cidade reúne os textos: “Cidade, memória e pesquisa – um percurso com Walter Benjamin”, de Maria Luiza Oswald; “Uma varanda na África: quando o corpo é também continente”, de Marcelo Santana Ferreira e “Manifesto 15 de agosto”, escrito por Gamba Jr. Infância, Linguagem, Educação traz os trabalhos: “Walter Benjamin e a infância da linguagem: uma teoria crítica da cultura e do conhecimento”, de Solange Jobim e Souza; “A arte de caçar borboletas”, de Cláudia Maria de Castro; “Infância e linguagem em Walter Benjamin: reflexões para a educação”, de Patrícia Corsino; “Infância: apontamentos sobre experiência e formação”, de Márcia Cabral; “A hora das crianças: narrativas radiofônicas de Walter Benjamin”, de Rita Marisa Ribes Pereira; “Linguagem da infância ou infância da linguagem: a história no pensamento de Walter Benjamin”, de Pedro Duarte de Andrade e “Educação a contrapelo”, de Sonia Kramer.
Agradecemos aos autores que deixaram aqui registradas suas contribuições, na certeza de que “cada época não somente sonha a seguinte, mas ao sonhá-la força-a a despertar”. Agradecemos aos alunos e funcionários que apoiaram o evento e garantiram a sua realização. Lemos as análises, nos apropriamos das ideias, concordamos ou discordamos, com a clareza de que é papel da vida acadêmica um estado de alerta em relação ao que é produzido, criado, vivido. O próprio Benjamin fala desta função do intelectual quando explicita – no fragmento “Posto de Gasolina”, que abre o livro Rua de Mão Única – o papel da teoria e do conhecimento, algo muito esquecido na vida da universidade: Só uma linguagem de prontidão mostra-se atuante à altura do momento. As opiniões, para o aparelho gigante da vida social, são o que é o óleo para as máquinas; ninguém se posta diante de uma turbina e a irriga com óleo de máquina. Borrifa-se um pouco em rebites e juntas ocultos, que é preciso conhecer (Benjamin, 1987b, p. 11).

1 A primeira edição do livro intitulado Walter Benjamin – Obras Escolhidas, volume 1, foi publicada pela Editora Brasiliense, São Paulo, em 1985.

Referências bibliográficas
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987a.
__________. Obras Escolhidas II. Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1987b.
__________. Obras Escolhidas III. Charles Baudelaire: um lírico no auge da modernidade. São Paulo: Brasiliense, 1989.
__________. Origem do drama barroco alemão. São Paulo: Brasiliense, 1984.
__________. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo: Summus, 1984b.
BOLLE, Willi (org.). Documentos de Cultura – documentos de barbárie. São Paulo: Cultrix-Edusp, 1986.
__________. L’homme, le langage et la culture. Paris: Denoël-Gonthier, 1971.
GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e narrativa em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva; Campinas: Editora da UNICAMP, 1994.
KONDER, Leandro. Walter Benjamin: o marxismo da melancolia. São Paulo: Campus, 1988.
ROUANET, Sérgio Paulo. Édipo e o anjo: itinerários freudianos em Walter Benjamin. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 1981.

to live outside the law you must be honest

Well, your railroad gate, you know I just can’t jump it / Sometimes it gets so hard, you see / I’m just sitting here beating on my trumpet / With all these promises you left for me / But where are you tonight, sweet Marie? // Well, I waited for you when I was half sick / Yes, I waited for you when you hated me /  Well, I waited for you inside of the frozen traffic / When you knew I had some other place to be / Now, where are you tonight, sweet Marie? // Well, anybody can be just like me, obviously / But then, now again, not too many can be like you, fortunately. //  Well, six white horses that you did promise / Were fin’lly delivered down to the penitentiary / But to live outside the law, you must be honest / I know you always say that you agree / But where are you tonight, sweet Marie? / Well, I don’t know how it happened //  But the river-boat captain, he knows my fate /  But ev’rybody else, even yourself / They’re just gonna have to wait. //  Well, I got the fever down in my pockets / The Persian drunkard, he follows me / Yes, I can take him to your house but I can’t unlock it / You see, you forgot to leave me with the key / Oh, where are you tonight, sweet Marie? //  Now, I been in jail when all my mail showed / That a man can’t give his address out to bad company / And now I stand here lookin’ at your yellow railroad /  In the ruins of your balcony / Wond’ring where you are tonight, sweet Marie. // Absolutely Sweet Marie/ Bob Dylan

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aprendi hoje um pouco mais sobre nossas diferenças… de onde parte caio prado junior e de onde vem florestan fernandes. e sobre essas despedidas e caixas de bombons para outros dias. foi um bom sábado juntos.

Berna, 2 de janeiro de 1947

Berna, 2 de janeiro de 1947

Querida,

Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso — nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.. Nem sei como explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades — depois disso fica-se um pouco um trapo.

Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou falta de caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu… em que pese a dura comparação… Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões — cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida — que não era maravilhosa mas era uma vida — eu me transforme inteiramente.

Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: “Você era muito diferente, não era?” Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você — respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você — pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita — não copie uma pessoa ideal, copie você mesma — é esse o único meio de viver.

Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia — será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma.

Tua

Clarice.

agrestes

hoje acordei como o sol.

amanhã acordarei (se dormir for) como as nuvens.
hoje, e não sei se era meu sorriso ou o olhar sorridente de todos que passaram por mim, mas sorri, assim, o dia todo.

——-

coisas: organizar a viagem, juntar elementos para investigação, debater o processo de entrevista e ler muito.

algumas anotações do dia:

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yo
he ponido
un
punto.

todavia puedo empezar a escrivir la história, nuestra história.
(eu, pensando…)

———- e extraído de algumas passadas de olho…

“esta obra é uma homenagem aos milhares de desaparecidos, em cuja silenciosa e invisível companhia foi elaborada. há coisas irrecuperáveis. há outras que não devemos perder nunca, como a memória de nossa própria história”. [ PASCUAL, Alejandra Leonor. Terrorismo de Estado: a Argentina de 1976 a 1983. Brasília: UnB, 2004 ]

———

“un día todos los elefantes se reunirón para olvidar. todos menos uno”. (Rafael Courtoisie, citado Terrorismo de Estado: a Argentina de 1976 a 1983. Brasília: UnB, 2004 ]

——–

Urge atrofiar o medo,
enfiar as botas ou os pés nus na lama do caminho.
Urge semear nos sulcos profundos
da grande dor humana,
trabalhar dia e noite
pois os que adormeceram
terão por desjejum
um prato de espanto
e um copo de espuma
deteriorada.
Tanira Piacentini, 1972

(Citado em SILVA, Aurea Oliveira; AURAS, Marli. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA Centro de Ciências da Educação.  Aprender a calar e aprender a resistir : a pedagogia do silencio em Santa Catarina.   1993. 127f Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Educação)

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20190303_195052(0)Questão de pontuação
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.
p. 146
Questão de pontuação, In Agrestes de João Cabral de Melo Neto

vou salgado pelo vento

Às vezes pensamos. Noutras épocas, como nestes dias últimos, apenas levanto e vou. O CORPO exausto do trabalhador segue sua rotina.

11h00.

d10c7546ffe661155f348f54b946dce2527e31d9«… entoces yo seré tu poeta, llegaré con mi lira a cantar en tu aroma y dormiré en tu cinta de platino, en tu arena incomparable, en la frescura azul del abanico que abrirás en mi sueño como las alas de una gigantesca mariposa marina». Neruda. Oda a Rio de Janeiro.

Às 17h30.

 

o vento verga a crista do galinácio  e os braços longos da grande figueira… arremessa o mar dentro de mim.

vou salgado pelo vento.

19h00.

eiv

Estou no Estágio Interdisciplinar de Vivência (II EIV SC/PR) em fraiburgo. retorno em março. saudações pra todos.

“.. A superação da propriedade privada é por conseguinte a emancipação completa de todas as propriedades [.. no sentido de ‘próprio’ e/ou ‘atributos’, ‘qualidades’..] e sentidos humanos; mas ela é esta emancipação exatamente pelo fato de estes sentidos e propriedades terem se tornado humanos, tanto subjetiva quanto objetivamente. O olho se tornou olho humano, assim como o seu objeto se tornou um objeto social, humano, proveniente do homem para o homem. Por conseguinte, imediatamente em sua práxis os sentidos se tornaram teorizadores. Relacionando se com a coisa [em um sentido intermediário entre ‘coisa’, indiferente ao sujeito, neutro; e ‘objeto’, algo que já entrou em relação com o objeto] por amor à coisa, mas a coisa mesma é um comportamento humano objetivo perante si mesma e perante o homem [praticamente só posso me relacionar humanamente com a coisa se a coisa se relaciona humanamente com o homem.] e inversamente.
A necessidade [no sentido de ser uma necessidade imposta pelo imposta pela condição biológica do ser humano, sempre ligada a uma carência e a um desejo correspondente] ou fruição perderam por isso a sua natureza egoísta e a natureza a sua mera utilidade ao ter a utilidade se tornado utilidade humana.
Da mesma maneira os sentidos e a fruição dos outros homens se tornaram a minha própria apropriação. Afora estes órgãos imediatos formam-se por conseguinte órgãos sociais na forma da sociedade, logo, por exemplo, a atividade imediatamente em sociedade com outros etc. se tornou um órgão da minha manifestação de vida e um modo de apropriação da vida humana.”

marx e engels. história. coleção grandes cientistas sociais. org. florestan fernandes. pp. 174. editora atica. 1989.

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de jalile

Para Maria da Graça

Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar – comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria têm de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu?”
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou ?” É bobice Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

CAMPOS, Paulo Mendes. “Para Maria da Graça”. In: Para gostar de ler, crônicas. São Paulo, Ática, 1979. v.4, pp. 73-76.

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Operário em Construção

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Operário em Construção
(Vinícius de Moraes)

o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– “Convençam-no” do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.