COLAGENS: The Typewriter (& Difícil ser Funcionário)

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Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
[…]
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

OUÇA O POEMA DE JOÃO, NA VOZ DE Fábio Malavoglia ( RadioMetrópolis )

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The Typewriter Leroy Anderson Martin Breinschmid with Strauß Festival Orchestra Vienna

«POEMA TERCIÁRIO» por Domingos Carvalho da Silva

#umpoetaumpoemapordia #234 (21/6)

POETA: DOMINGOS CARVALHO DA SILVA

(Leiroz, Portugal, 21 de Junho de 1915 – São Paulo, Brasil, 26 de Abril de 2003) é um escritor brasileiro. Domingos nasceu em Portugal, na aldeia de Leiroz, mas radicou-se no Brasil desde 1924, instalando-se em São Paulo, passando a ser considerado paulista. Fez parte da Geração de 45.

POEMA: POEMA TERCIÁRIO

a João Cabral de Melo Neto

Cavalos já foram pombos
de asas de nuvem. Um rio
banhava o rosto da aurora.
Cavalos já foram pombos
na madrugada do outrora.
Onde há florestas havia
golfos oblongos por onde
tranqüilos peixes corriam.
Uma lua alvissareira
passava a noite. E deixava
reticências de cometa
vagalumeando na relva
das margens, até à aurora
da Idade de Ouro do outrora,
quando cavalos alados
tinham estrelas nas crinas
alvas como asas de pombo.
O Verbo não existia.
Deus era incriado ainda.
Só as esponjas dormitavam
trespassadas por espadas
de água metálica, impoluta.
E as gaivotas planejavam
etapas estratosféricas
próximo as praias ibéricas.
E as montanhas desabavam
em estertores terciários,
em agonias de estrondo,
nas manhãs de sol atlântico,
quando cortavam as nuvens
– alvos garbosos eqüinos –
esquadrões marciais de pombos.
Teu cabelo era ainda musgo.
Teus olhos o corpo frio
de uma ostra semiviva.
E tua alma sempre-viva
Sobrenadava o oceano
qual uma estrela perdida.
Teu coração era concha
fechada e sem pulsação.
E teu gesto – que é teu riso –
era urn mineral estático
ainda não escavado
pelo mar duro e fleumático.
Cavalos já foram pombos.
E a prata que anda na garra
dos felinos, reluzia
em vibrações uterinas
no ventre da terra fria,
quando o dia era só aurora
e Deus sequer existia,
na madrugada do outrora.

CARVALHO DA SILVA, Domingos. “Poema terciário”. In: BANDEIRA, Manuel (org). “Antologia”. In: Apresentação da poesia brasileira. São Paulo: Cosacnaify, 2009.

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Domingos_Carvalho_da_Silva
http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/brasil/domingos_c_silva.html
http://renemendes.com.br/arte-do-trabalho/o-poeta-domingos-carvalho-da-silva/
http://www.jornaldepoesia.jor.br/dcs01.html
https://www.escritas.org/pt/t/12816/soneto-ocasional
http://antoniocicero.blogspot.com/2009/08/domingos-carvalho-e-silva-poema.html
http://wwwideiasubalterna.blogspot.com/2012/03/domingos-carvalho-da-silva-1915-2004.html

RESENHA – DOMINGOS CARVALHO DA SILVA: Uma Teoria do Poema – Revista Iberoamericana

OUTROS

William Edmondstoune Aytoun, poeta britânico
Francisco García Lorca, poeta, professor, diplomata, escritor
Adam Zagajewski , poeta polonês, romancista e ensaísta
Anne Carson, poeta canadense

«POEMA» por João Cabral de Melo Neto

#umpoetaumpoemapordia #071 (09/1)

POETA: JOÃO CABRAL DE MELO NETO

João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade de Recife – PE, no dia 09 de janeiro de 1920 – Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999) foi um poeta e diplomata brasileiro.

POEMA
Meus olhos têm telescópios / espiando a rua / espiando minha alma / longe de mim mil metros. // Mulheres vão e vêm nadando / em rios invisíveis. / Automóveis como peixes cegos / compõem minha visões mecânicas. // Há vinte anos não digo a palavra / que sempre espero de mim. // Ficarei indefinidamente contemplando / meu retrato eu morto.

“Poema”, transcrito a seguir, é o primeiro texto de Pedra do sono, livro de estréia de João Cabral publicado em 1941.
MELO NETO, João Cabral de. O cão sem plumas. In: Pedra do sono (1940-1941). Rio de Janeiro, Alfaguara/Objetiva, 2007. p. 23.

 

MAIS SOBRE

http://www.releituras.com/joaocabral_bio.asp

Os 10 melhores poemas de João Cabral de Melo Neto


http://www.jornaldepoesia.jor.br/joao.html
http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet001.htm
http://biografiaecuriosidade.blogspot.com.br/2015/02/biografia-de-joao-cabral-de-melo-neto.html

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OUTROS POETAS

Heiner Müller (1929 – 1995)