«POEMA TERCIÁRIO» por Domingos Carvalho da Silva

#umpoetaumpoemapordia #234 (21/6)

POETA: DOMINGOS CARVALHO DA SILVA

(Leiroz, Portugal, 21 de Junho de 1915 – São Paulo, Brasil, 26 de Abril de 2003) é um escritor brasileiro. Domingos nasceu em Portugal, na aldeia de Leiroz, mas radicou-se no Brasil desde 1924, instalando-se em São Paulo, passando a ser considerado paulista. Fez parte da Geração de 45.

POEMA: POEMA TERCIÁRIO

a João Cabral de Melo Neto

Cavalos já foram pombos
de asas de nuvem. Um rio
banhava o rosto da aurora.
Cavalos já foram pombos
na madrugada do outrora.
Onde há florestas havia
golfos oblongos por onde
tranqüilos peixes corriam.
Uma lua alvissareira
passava a noite. E deixava
reticências de cometa
vagalumeando na relva
das margens, até à aurora
da Idade de Ouro do outrora,
quando cavalos alados
tinham estrelas nas crinas
alvas como asas de pombo.
O Verbo não existia.
Deus era incriado ainda.
Só as esponjas dormitavam
trespassadas por espadas
de água metálica, impoluta.
E as gaivotas planejavam
etapas estratosféricas
próximo as praias ibéricas.
E as montanhas desabavam
em estertores terciários,
em agonias de estrondo,
nas manhãs de sol atlântico,
quando cortavam as nuvens
– alvos garbosos eqüinos –
esquadrões marciais de pombos.
Teu cabelo era ainda musgo.
Teus olhos o corpo frio
de uma ostra semiviva.
E tua alma sempre-viva
Sobrenadava o oceano
qual uma estrela perdida.
Teu coração era concha
fechada e sem pulsação.
E teu gesto – que é teu riso –
era urn mineral estático
ainda não escavado
pelo mar duro e fleumático.
Cavalos já foram pombos.
E a prata que anda na garra
dos felinos, reluzia
em vibrações uterinas
no ventre da terra fria,
quando o dia era só aurora
e Deus sequer existia,
na madrugada do outrora.

CARVALHO DA SILVA, Domingos. “Poema terciário”. In: BANDEIRA, Manuel (org). “Antologia”. In: Apresentação da poesia brasileira. São Paulo: Cosacnaify, 2009.

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Domingos_Carvalho_da_Silva
http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/brasil/domingos_c_silva.html
http://renemendes.com.br/arte-do-trabalho/o-poeta-domingos-carvalho-da-silva/
http://www.jornaldepoesia.jor.br/dcs01.html
https://www.escritas.org/pt/t/12816/soneto-ocasional
http://antoniocicero.blogspot.com/2009/08/domingos-carvalho-e-silva-poema.html
http://wwwideiasubalterna.blogspot.com/2012/03/domingos-carvalho-da-silva-1915-2004.html

RESENHA – DOMINGOS CARVALHO DA SILVA: Uma Teoria do Poema – Revista Iberoamericana

OUTROS

William Edmondstoune Aytoun, poeta britânico
Francisco García Lorca, poeta, professor, diplomata, escritor
Adam Zagajewski , poeta polonês, romancista e ensaísta
Anne Carson, poeta canadense

«AN DIE NACHGEBORENEN (Aos Que Vierem Depois De Nós)» por Bertholt Brecht

#umpoetaumpoemapordia #103 (10/2)

POETA: BERTOLD BRECHT

Eugen Bertholt Friedrich Brecht (Augsburg, 10 de fevereiro de 1898 — Berlim Leste, 15 de agosto de 1956) foi um destacado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX. Seus trabalhos artísticos e teóricos influenciaram profundamente o teatro contemporâneo, tornando-o mundialmente conhecido a partir das apresentações de sua companhia o Berliner Ensemble realizadas em Paris durante os anos 1954 e 1955.

POEMA – AN DIE NACHGEBORENEN

I
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten! / Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn / Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende / Hat die furchtbare Nachricht / Nur noch nicht empfangen. // Was sind das für Zeiten, wo / Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist. / Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt! / Der dort ruhig über die Straße geht / Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde / Die in Not sind? // Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt / Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts / Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen. / Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.) // Man sagt mir: iß und trink du! Sei froh, daß du hast! / Aber wie kann ich essen und trinken, wenn / Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und / Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt? / Und doch esse und trinke ich. // Ich wäre gerne auch weise. / In den alten Büchern steht, was weise ist: / Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit / Ohne Furcht verbringen / Auch ohne Gewalt auskommen / Böses mit Gutem vergelten / Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen / Gilt für weise. / Alles das kann ich nicht: / Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
II
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung / Als da Hunger herrschte. / Unter die Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs / Und ich empörte mich mit ihnen. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war. // Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten / Schlafen legte ich mich unter die Mörder / Der Liebe pflegte ich achtlos / Und die Natur sah ich ohne Geduld. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war. / Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit. / Die Sprache verriet mich dem Schlächter. / Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden / Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war. // Die Kräfte waren gering. Das Ziel / Lag in großer Ferne / Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich / Kaum zu erreichen. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war.
III
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut / In der wir untergegangen sind / Gedenkt / Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht / Auch der finsteren Zeit / Der ihr entronnen seid. // Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd / Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt / Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung. // Dabei wissen wir doch: / Auch der Haß gegen die Niedrigkeit / verzerrt die Züge. / Auch der Zorn über das Unrecht / Macht die Stimme heiser. Ach, wir / Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit / Konnten selber nicht freundlich sein. // Ihr aber, wenn es so weit sein wird / Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist / Gedenkt unserer / Mit Nachsicht. // Bertolt Brecht

(Tradução Manuel Bandeira) Aos que vierem depois de nós
I
Realmente, vivemos tempos sombrios! / A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas / denota insensibilidade. Aquele que ri / ainda não recebeu a terrível notícia / que está para chegar. // Que tempos são estes, em que / é quase um delito / falar de coisas inocentes. / Pois implica silenciar tantos horrores! / Esse que cruza tranqüilamente a rua / não poderá jamais ser encontrado / pelos amigos que precisam de ajuda? // É certo: ganho o meu pão ainda, / Mas acreditai-me: é pura casualidade. / Nada do que faço justifica / que eu possa comer até fartar-me. / Por enquanto as coisas me correm bem / (se a sorte me abandonar estou perdido). / E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”
Mas como posso comer e beber, / se ao faminto arrebato o que como, / se o copo de água falta ao sedento? / E todavia continuo comendo e bebendo. // Também gostaria de ser um sábio. / Os livros antigos nos falam da sabedoria: / é quedar-se afastado das lutas do mundo / e, sem temores, / deixar correr o breve tempo. Mas / evitar a violência, / retribuir o mal com o bem, / não satisfazer os desejos, antes esquecê-los / é o que chamam sabedoria. / E eu não posso fazê-lo. Realmente, / vivemos tempos sombrios.
II
Para as cidades vim em tempos de desordem, / quando reinava a fome. / Misturei-me aos homens em tempos turbulentos / e indignei-me com eles. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // Comi o meu pão em meio às batalhas. / Deitei-me para dormir entre os assassinos. / Do amor me ocupei descuidadamente / e não tive paciência com a Natureza. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros. / A palavra traiu-me ante o verdugo. / Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes / Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // As forças eram escassas. E a meta / achava-se muito distante. / Pude divisá-la claramente, / ainda quando parecia, para mim, inatingível. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra.
III
Vós, que surgireis da maré / em que perecemos, / lembrai-vos também, / quando falardes das nossas fraquezas, / lembrai-vos dos tempos sombrios / de que pudestes escapar. // Íamos, com efeito, / mudando mais freqüentemente de país / do que de sapatos, / através das lutas de classes, / desesperados, / quando havia só injustiça e nenhuma indignação. // E, contudo, sabemos / que também o ódio contra a baixeza / endurece a voz. Ah, os que quisemos / preparar terreno para a bondade / não pudemos ser bons. / Vós, porém, quando chegar o momento / em que o homem seja bom para o homem, / lembrai-vos de nós / com indulgência.
(O poema acima foi extraído do caderno “Mais!”, jornal Folha de São Paulo – São Paulo (SP), edição de 07/07/2002, tendo sido traduzido pelo grande poeta brasileiro Manuel Bandeira.)

(Tradução de Paulo César de Souza) Aos que vão nascer
1
É verdade, eu vivo em tempos negros. / Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas / Indica insensibilidade. Aquele que ri / Apenas não recebeu ainda / A terrível notícia. / Que tempos são esses, em que / Falar de árvores é quase um crime / Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades? / Aquele que atravessa a rua tranqüilo / Não está mais ao alcance de seus amigos / Necessitados? / Sim, ainda ganho meu sustento // Mas acreditem: é puro acaso. Nado do que faço / Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome. / Me dá direito a comer a fartar. / Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.) / As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem! / Mas como posso comer e beber, se / Tiro o que como ao que tem fome / E meu copo d`água falta ao quem tem sede? / E no entanto eu como e bebo. / Eu bem gostaria de ser sábio. / Nos velhos livros se encontra o que é a sabedoria: / Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve / Levar sem medo / E passar sem violência / Pagar o mal com o bem / Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los / Isto é sábio. / Nada disso sei fazer: / É verdade, eu vivo em tempos negros.
2
À cidade cheguei em tempo de desordem / Quando reinava a fome. / Entre os homens cheguei em tempo de tumulto / E me revoltei junto com eles. / Assim passou o tempo / Que sobre a terra me foi dado. / A comida comi entre as batalhas / Deitei-me para dormir entre os assassinos / Do amor cuidei displicente / E impaciente contemplei a natureza. / Assim passou o tempo / Que sobre a terra me foi dado. / As ruas de meu tempo conduziam ao pântano. / A linguagem denunciou-me ao carrasco. / Eu pouco podiam fazer. Mas os que estavam por cima / Estariam melhor sem mim, disso tive esperança. / Assim passou o tempo / Que sobre a terra me foi dado. / As forças eram mínimas. A meta / Estava bem distante. / Era bem visível, embora para mim / Quase inatingível. / Assim passou o tempo / Que nesta terra me foi dado.
3
Vocês, que emergirão do dilúvio / Em que afundamos / Pensem / Quando falarem de nossas fraquezas / Também nos tempos negros / De que escaparam. / Andávamos então, trocando de países como de sandálias / Através das lutas de classes, desesperados / Quando havia só injustiça e nenhuma revolta. / Entretanto sabemos: / Também o ódio à baixeza / Deforma as feições. / Também a ira pela injustiça / Torna a voz rouca. Ah, e nós / Que queríamos preparar o chão para o amor / Não pudemos nós mesmos ser amigos. / Mas vocês, quando chegar o momento / Do homem ser parceiro do homem / Pensem em nós / Com simpatia.
– Bertolt Brecht, em “Poemas 1913-1956″[seleção e tradução de Paulo César de Souza], São Paulo: Editora 34, 2000, p. 212-214.

 

MAIS SOBRE

http://www.releituras.com/bbrecht_menu.asp
https://pt.wikipedia.org/wiki/10_de_fevereiro
http://mepr.org.br/cultura-popular/poesias/96-coletanea-de-poemas-de-bertolt-brecht.html
http://www.elfikurten.com.br/2015/06/bertolt-brecht.html
https://acasadevidro.com/2012/12/15/alguns-poemas-de-bertold-brecht/
A Poesia de Brecht e a História, por Leandro Konder