amand’água [ou o exercício sobre os movimentos da caverna do pântano à solidão da costa de dentro]

O problema da apreensão do objeto pelos sentidos é o problema número um do conhecimento humano. Mario Pedrosa (1949/1996)

amandágua [ou o exercício sobre os movimentos da caverna do pântano à solidão da costa de dentro]

terceiro movimento (o mergulho no meio da praia)

no movimento da maré
percorremos o dia
e gravado no centro da testa
a gravidade da areia
o peso do corpo n’água
o marulho do teu riso
o sol nos banhando
enquanto nos tornávamos
líquidos e minerais,
no fino granulado
os dentes francos
derme à mostra
e as nossas escoriações
pelo mergulho dado
pelo mergulho
elo-mergulho

primeiro movimento (entre as pedras e a água)

vi atráves d’água
tua pele de alga e peixe
a vi na água
um seixo, uma ulva,
uma concha

quis mais e cerrei
os olhos
ouvi em mim a água
sobre as pedras
e sobre si mesma

e tateei a água
e sua textura de liberdade
esse fluído que vai
dos dedos do pé
aos dedos da mão
e transborda todos os corpos marinhos

saboreei a água
por todos os poros e oríficios
calamar
virei água
água viva

segundo movimento (conchíferos)

água de anaximandro
ápeiron
água, sal, molécula
sorriso saboroso
e peixinhos a nadar no mar
no teu mar
no teu colo
e a água no pelos
punk-cabelo
ouriço na praia
olhos vermelhinhos
de peixe tetraodon
e ágil
como uma ótima resposta,
um riso,
segue reto,
toda vida,
para esquerda…
no método de stanislávski:
ser o mergulho
a água,
o corpo livre,
a jornada,
por inteira.

26-27 Janeiro. Pântano do Sul/Sambaqui – Fpolis. Vagner Boni

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