earthgrazer

earthgrazer: como sinto rebatido pela tua gravidade. qual pedra que salta na superfície lagunar eu quico na tua atmosfera. eu sei, é esse ângulo raso de ataque e essa velocidade toda que foge ao teu ponto de escape. ricocheteio, não desacelero em chamas nos ares de teu corpo, brilho efêmero, irei para outra órbita espacial quiça outro acidente estelar e se der sorte me achar noutro corpo cósmico, aterrisar noutra rocha, aterrar-me.

3/out/2020 vagner boni

***

e sugestão de leitura abaixo:

«Holopoetry and fractal holopoetry: Digital holography as an art medium»

o olhar para no olhar de izadora

o olhar para no olhar de izadora
ela para, espera a senha, o sinal
repara no comportamento imersivo alheio
e mergulha no novelo
todos os corpos na sala de espera
são corpos (aéreos)
ninguém está ali,
etéreos, habitam as nuvens
até a vibração do nome de alguém desaguar
no mar de corpos submersos…
e um corpo qualquer emerso se esvai,
vai, cai como lágrima ou eco

o olhar para no olhar de izadora
não era seu corpo
tampouco sua hora.

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amare

e nada de fixações…
é preciso catar as pedras,
empilhá-las e depois
as escalar

o corpo pedregoso
se movimenta,
parece rocha,
mas nada é tão duro assim,
nem mesmo o diamante
nos teus dentes:
mineral da mesma substância
de todos os corpos deste universo:

obatalá

**

images

nota de rodapé: ouça metá metá… essa coisa bonita me apresentada pelo seuArlindo.

amand’água [ou o exercício sobre os movimentos da caverna do pântano à solidão da costa de dentro]

O problema da apreensão do objeto pelos sentidos é o problema número um do conhecimento humano. Mario Pedrosa (1949/1996)

amandágua [ou o exercício sobre os movimentos da caverna do pântano à solidão da costa de dentro]

terceiro movimento (o mergulho no meio da praia)

no movimento da maré
percorremos o dia
e gravado no centro da testa
a gravidade da areia
o peso do corpo n’água
o marulho do teu riso
o sol nos banhando
enquanto nos tornávamos
líquidos e minerais,
no fino granulado
os dentes francos
derme à mostra
e as nossas escoriações
pelo mergulho dado
pelo mergulho
elo-mergulho

primeiro movimento (entre as pedras e a água)

vi atráves d’água
tua pele de alga e peixe
a vi na água
um seixo, uma ulva,
uma concha

quis mais e cerrei
os olhos
ouvi em mim a água
sobre as pedras
e sobre si mesma

e tateei a água
e sua textura de liberdade
esse fluído que vai
dos dedos do pé
aos dedos da mão
e transborda todos os corpos marinhos

saboreei a água
por todos os poros e oríficios
calamar
virei água
água viva

segundo movimento (conchíferos)

água de anaximandro
ápeiron
água, sal, molécula
sorriso saboroso
e peixinhos a nadar no mar
no teu mar
no teu colo
e a água no pelos
punk-cabelo
ouriço na praia
olhos vermelhinhos
de peixe tetraodon
e ágil
como uma ótima resposta,
um riso,
segue reto,
toda vida,
para esquerda…
no método de stanislávski:
ser o mergulho
a água,
o corpo livre,
a jornada,
por inteira.

26-27 Janeiro. Pântano do Sul/Sambaqui – Fpolis. Vagner Boni

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exercício sobre os dentes à mostra.

no teu abraço
minha cabeça
em teu colo
minha boca aberta
dentes à mostra
num misto de medo
pela nudez
e gozo
por me permitir
estar aqui
no teu abraço
cabeça no colo
boca aberta
toda fome deste mundo
e no olhar
um oceano represado
que no teu estranho aconchego
sentir-se vivo
cuidado, aceito,
por inteiro
perceber uma lágrima irromper
e germinar…
inundar-se de risos
acordar o mundo
no teu abraço.

exercício sobre os dentes à mostra.

vidal ramos, 110. centro, florianópolis

exercício sobre a luva e a pedra

exercício sobre a luva e a pedra

por um instante
o único pagante
a peça perdida
nada de luvas
naquela antessala abafada:
uma pedra.
mas eis que eles chegam
dois por dois
aos pares e estamos
repletos, perplexos,
tocados por esta luva
e por esta pedra
pela luz e sombra
pelo suor
e pelas cordas
do teatro
em trâmite.

vagner boni. casa vermelha, centro-fpolis. 10/01/2020

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exercício sobre o ato

quase te enviei
aquele texto que fala
estarmos cara a cara
cinco centrímetros
feito ciclopes
ou te convidei
pr’aquela peça
de teatro, minha cara,
na casa vermelha

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a luva e a pedra
e a gente presente
lado a lado
neste ato
que é a vida
sendo vivida e vívida.

mas não me contive
fiz melhor
me tornei poema,
reservei ingresso pra nós…
vamos:

sexta?

linha tênue (or why can’t we give love that one more chance?)

deitarei
com o sol na minha cara.
e quando acordar…
verei o que há na linha tênue.
e eu não vi.
tomei nota.
e escrevo isto
agora:

muitas palavras
nenhuma palavra
o que se grava
é o que o corpo
faz no tempo
há palavras
que nunca são ditas
que calam fundo
que torna-se clichê
mas mesmo assim são
e estão expostas
para qualquer um ver
para quem puder ver

vê. quero você.

muitas palavras
nenhuma palavra
no cinema o tempo salta
o roteiro entrega
na hora certa
o corte, o gesto a fala
o que há nos olhos
o que é para ser dito
o que só pode ser traduzido
co’um te extrãno

*

e tudo bem escrever
sobre isto: o amor
de um homem
mas não seja isto
a coisa crua exposta
e que à boca fechada movimentava-se
tal qual uma tunnel boring machine…
making a hole in something

tudo bem escrever
sobre isto: o amor
repita-se, deixe
o som de cada palavra
deslizar isto que vai
trancado em teu peito
que turva teus olhos
que embrulha tuas vísceras
que te apavora
que não faz sentido
e é o único sentido

acorda.
escreve sobre.
sê o que escreve.
acorda!

**

19

metanoia (pata pata)

meu corpo pede:
fique.
minha mente diz…
vá.
tenha histórias
p’ra contar.
a chuva apertou.
demoro-me…
e fico enredado
en el secreto de sus ojos.

é tarde.
amanhã vai estar
por aí
o dia todo?
chego em 5 min.
estou na página 91
e os olhos falam demais.
deviam se calar.
não há mais carpas
nunca houve ou haverá
nem lago sob a chuva
e sob os ipês
apenas este velho clichê
e uma chávena com バンチャ
amor
e perdão.

e escuta só
isto não é um poema
são frases aleatórias
e soltas
deste sagrado manifesto.


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rascunho/fragmento: as vezes é preciso entrar dentro de você [mesmo]

uma luz, um farol
o sorriso de um bebê
as vezes é preciso entrar dentro de você [mesmo]
e permanecer quietinho quietinho
deixa o mundo ventar
deixa as coisas serem
deixa como está
as vezes é preciso entrar dentro de você [mesmo]
e permanecer, perceber
trovejar… uma chuva que vai chegar
calor, a umidade, a poeira, saudade
mas as vezes é preciso entrar dentro de você [mesmo]
e permancer quietinho quietinho
abraçar a dor.

*

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» barba e cabelos cortados.

a terra

a dor é menor.
as palavras mínimas,
outras ásperas.
espera a dor silenciar.
respira. o outro é o outro.
és um processo.
acalma o espírito.
deixa a coluna ereta.
espera. ouve o som ao redor.
ouve a respiração da terra.
ouve cada minúsculo músculo
e veia. ouve a ave. a vertigem…
espera a dor menor.
sê palavras pera.
carícia, espera…
a terra.


Caetano Veloso, Gilberto Gil – Desde Que o Samba é Samba (Vídeo Ao Vivo)

Caetano Veloso, Gilberto Gil – Super Homem (A Canção) (Vídeo Ao Vivo)

e tantas outras…


Jpeg
eugenia uniflora

só para registrar que a pitangueira, quase morta do vaso, segue viva e reviva… brotando mil folhinhas verdes… depois que a coloquei na terra. eu tenho terra entre os dentes e minhas mãos seguem entranhadas na terra escura, sentindo o pulsar da vida.

pílulas poéticas

pílulas poéticas:

ontem

o antídoto – a anti-dor – no riso

hoje

acordei / com uma cabeça / um coração / e penas despedaçadas pelo meu quarto / maldito gato / [eu] era um pássaro.


e que coincidência…

justissima

cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…

e a tinta é branca
e tua carne vermelha.
tua voz é doce.
esse riso na fala,
esse acento
toca fundo
neste coração.

teus passos de cumbia,
só quero ver-te bailar…
mas estou cá,
emparedado.
em branco.
enquanto danças no vermelho.
eu desejo o próximo verso.
nada escrito.
apenas nossa voz.
como um só sonido.
que sejamos o improviso
na tintura do mundo
tu vai
eu fico
eu vou
tu vem
há samba
aqui

canção incidental:

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uso a palavra difícil, a linguagem inadequada

uso a palavra difícil
a linguagem inadequada
o verbo que comunica
demarca: de você
eu sou solidão
sou floresta inabitada
ruído ininteligível
ganido, grunhido, pio
coaxar, evapotranspiração

uso a palavra difícil
a linguagem inadequada
sou d’outra ordem:
não faço parte da tua razão
sou minério, selvagem, animal
sou tua comida, teu ar, teu chão

sou a palavra difícil
a linguagem inadequada
o que você não entende
ignora, vilipendia, desconhece
sou a intradução
o que não se olha
não se ouve nem se escreve

não sei ser gente
não faço sentido
não caibo no seu bolso
no seu papel-moeda
sou o que não se vende
o que não se compra
tampouco caibo em teu delírio
teu vil prazer e tua devastação

eu apenas uso a palavra difícil
a que reveste um coração latindo
as veias abertas
o que tu não vê
não enxerga e não repara

eu uso outra língua
sou inaudível aos teus sentidos
não habito teu vocabulário
sou das cores que não podes ver
eu desenho outros caminhos
sou a resistência, o contrapelo,
aquilo que você nunca entende.


Queimadas-no-Brasil-Nasa-2

exercício sobre a margem

meus abraços
cortejam a morte
e se olvidarmos a margem!?

se fossemos sempre a terceira margem!?
a canoa no meio do nada.

há acenos, mãos e braços
no outro lado do rio
uns dizem: volta!
outros dizem: vai!
outros dizem: nada.

não se sabem margens,
tão pouco rio.

nas margens deste rio
que vem de ti,
sentei-me: paisagem!

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y ¡zas!

02h24

a vida como algo bruto, violento, mesquinho… sobrevivência. a gente normamente pensa na vida como graça, como dádiva… mas a vida é voracidade, a vida é morte, extermínio, a vida violenta a gente o tempo todo…  ela é contramão, velocidade, lenta demais, fugaz..

é estúpida, contigente, ânsia desesper[a]da, mais um gole, mais um sonho, mais um dia, mais uma dose, mais uma ilusão, mais um minuto, mais um riso, mais uma lágrima…. a vida tem sua face horrenda, suas exigências, seu rato e suas ignorâncias. viver sobretudo é dor, dói e faz doer. faz o coração sangrar… o teu e do outro. e nos embrigada no desejo de estar custe o que custar. a vida é cativeiro. a vida é espinho… e comemoramos a ruína, a catástrofe, os destroços como se fosse um dom, deus ou sei lá… sorte… azar.

a receita: gratidão, louvor, entrega, comunhão… balela. somos a bala nunca perdida no peito do irmão, o atropelo do cão, as queimadas… a devastação, o plástico irrespirável no pulmão, ou asfixia do estômago, o extermínio de geleiras, a devoração da terra, o câncer na alimentação, nos afetos… no mais íntimo.

a vida é progresso e mata. e o bom samaritano mata. a rua mata. a dívida mata. o prazer mata. o agrobusiness mata. as corporações matam… o bom cidadão, o teu filho, as bandeiras, os tótens… matam… todos feios, sujos, malvados… sobretudo a beleza. a beleza mata.

e a vida é morte e as ideias sobre tudo, sobretudo, são uma questão de bioquímica, a vida é química… é eletrônica… a vida adoece, a vida não faz o menor sentido. sabe alice, a vida é poesia e a poesia é isso, um rato morto, numa terça-feira, estirado na calçada, sozinho ou com seus mil milhões de vermes… e isto tudo que você julga especial não passa de 43% de um ambiente hospedeiro de um vasto microbioma, de embriguez humana, de estupidez, de autopiedade.  a vida corta feito faca. a vida arde, queima. a vida faz a gente amar. a vida faz a gente morrer. a vida é impermanência e (auto)mutilação… nó, engasgo, a vida pesa, é fardo, a vida é egoísta… a vida é luta, trapaça, luto… a vida é tudo e nada, signo, parafernália, palavra, língua, corda, guilhotina… a vida é rainha e esquecimento, mordida e apodrecimento… sopro e lágrima, e ditados bobos.

a vida meu irmão, vale nada. e nada vale. eu não sou o centro do universo, eu não caibo no verso, nenhum eu cabe neste verso… nem verso nisto aqui, porque a vida meu irmão. não vale nada não.

[ruídos. voz nasalada, pausadamente] a vida é dura. [ruído]  a vida dura… [eu acho que é isso]

02h26

02h37

a vida é mãe que morre. a vida é contingência da poeira do universo, dos multi-versos… a vida vale tudo, a vida pesa. a vida é lugar inóspito, inesperado e a espera… esperando godot ou foucault, a vida é terra arrasada, é floresta, é terra arrasada, a vida é nuclear, a vida o tempo todo é um deus vizinho que te aninha e te corta em tirinhas, camada pós camada, câmara [de gas] pós camara… a vida é campo pós campo… a vida, mobila, a vida é bela, é um permanente estado de exceção… y ¡zas! Le come la patita.

02h38

09h07 [transcrever o rabisco compulsivo da madrugada para cá]

é preciso dormir negrito! pois a vida. ela não vale o teu espírito. a vida é tua ira.

09:34

Jpeg
ontem