amare

e nada de fixações…
é preciso catar as pedras,
empilhá-las e depois
as escalar

o corpo pedregoso
se movimenta,
parece rocha,
mas nada é tão duro assim,
nem mesmo o diamante
nos teus dentes:
mineral da mesma substância
de todos os corpos deste universo:

obatalá

**

images

nota de rodapé: ouça metá metá… essa coisa bonita me apresentada pelo seuArlindo.

a minha morte é só uma: ganga, lumumba, lorca, jesus

joaoboscocapalpback
O menino cresceu entre a ronda e a cana
Correndo nos becos que nem ratazana.
Entre a punga e o afano, entre a carta e a ficha
Subindo em pedreira que nem lagartixa.
Borel, juramento, urubu, catacumba,
Nas rodas de samba, no eró da macumba.
Matriz, querosene, salgueiro, turano,
Mangueira, são carlos, menino mandando,
Ídolo de poeira, marafo e farelo,
Um deus de bermuda e pé-de-chinelo,
Imperador dos morros, reizinho nagô,
O corpo fechado por babalaôs.
 
Baixou oxolufã com as espadas de prata,
Com sua coroa de escuro e de vício.
Baixou cão-xangô com o machado de asa,
Com seu fogo brabo nas mãos de corisco.
Ogunhê se plantou pelas encruzilhadas
Com todos seus ferros, com lança e enxada.
E oxossi com seu arco e flecha e seus galos
E suas abelhas na beira da mata.
E oxum trouxe pedra e água da cachoeira
Em seu coração de espinhos dourados.
Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar
E um batalhão de mil afogados.
 
Iansã trouxe as almas e os vendavais,
Adagas e ventos, trovões e punhais.
Oxum-maré largou suas cobras no chão.
Soltou sua trança, quebrou o arco-íris.
Omulu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos
Lançando a doença pra seus inimigos.
E nana-buruquê trouxe a chuva e a vassoura
Pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos.
 
Exus na capa da noite soltara a gargalhada
E avisaram a cilada pros orixás.
Exus, orixás, menino, lutaram como puderam
Mas era muita matraca e pouco berro.
E lá no horto maldito, no chão do pendura-saia,
Zumbi menino lumumba tomba da raia
Mandando bala pra baixo contra as falanges do mal,
Arcanjos velhos, coveiros do carnaval.
 
– irmãos, irmãs, irmãozinhos,
Por que me abandonaram?
Por que nos abandonamos
Em cada cruz?
– irmãos, irmãs, irmãozinhos,
Nem tudo está consumado.
A minha morte é só uma:
Ganga, lumumba, lorca, jesus
 
Grampearam o menino do corpo fechado
E barbarizaram com mais de cem tiros.
Treze anos de vida sem misericórdia
E a misericórdia no último tiro.
 
Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
Depois de pular igual a macaco.
Vou jogar nesses três que nem ele morreu:
Num jogo cercado pelos sete lados.
Compositores: Aldir Blanc / Joao Bosco

 

«TANTO MAR» por Chico Buarque

#umpoetaumpoemapordia #232 (19/6)

POETA: CHICO BUARQUE

Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido por Chico Buarque (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944), é um músico, dramaturgo, escritor e ator brasileiro. É conhecido por ser um dos maiores nomes da música popular brasileira (MPB). Sua discografia conta com aproximadamente oitenta discos, entre eles discos-solo, em parceria com outros músicos e compactos

POEMA: TANTO MAR

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo pra mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Letra e música: Chico Buarque
In: 1975 (primeira versão)

«Nota: Letra original, vetada pela censura; apenas a versão instrumental foi gravada no Brasil. Gravação com letra editada apenas em Portugal, em 1975. Ver tambem “Tanto Mar” versao II» Disponível em: http://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/html/buarque-tantoMar2.html

+ SOBRE

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/chico%20buarque.html
https://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?poeta=801
http://www.jornaldepoesia.jor.br/cbuarque.html
http://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/indice_autores.html#Chico%20Buarque

A Poesia Urbana de Chico Buarque, por Vivian C. Alves de Carvalho

poesia e música em chico buarque de holanda – por Irlys Alencar Firmo Barreira

Poesia e música em Chico Buarque – por Luciano Marcos Dias Cavalcanti

OUTROS

José Rizal, poeta e herói nacional filipino
Richard Monckton Milnes, político, poeta e patrono literário britânico
Sam Walter Foss, poeta americano

«SONETO DO DESMANTELO AZUL» por Carlos Pena Filho

umpoetaumpoemapordia #199 (17/5)

POETA: CARLOS PENA FILHO

Carlos Pena Filho (Recife, 17 de maio de 1929 — Recife, 10 de junho de 1960) foi um advogado, jornalista e poeta brasileiro, considerado um dos mais importantes poetas pernambucanos da segunda metade do século XX depois de João Cabral de Melo Neto.

POEMA: SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

 

 

+ SOBRE

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2017/04/carlos-pena-filho-1929-1960.html
http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet328.htm
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/carlos_pena_filho.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Pena_Filho
http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=537
http://www.jornaldepoesia.jor.br/cpena.html
Pena, documentário sobre Carlos Pena Filho

Em gravação de 1962, a cantora Maysa (1936-1977) interpreta “A Mesma Rosa Amarela“, do compositor Capiba, com letra de Carlos Pena Filho

OUTROS

José Emílio-Nelson (Espinho17 de maio de 1948) é um poetacrítico e editor português

«WE NEED NOTHING» por André Abujamra

#umpoetaumpoemapordia #197 (15/5)

POETA: ANDRÉ ABUJAMRA

André Cibelli Abujamra (São Paulo, 15 de maio de 1965) é um cantor, compositor, multi-instrumentista e ator brasileiro.

POEMA/CANÇÃO – WE NEED NOTHING

We need nothing but love
We need nothing but fun
We don’t need nothing but love and fun
We don’t need nothing but
We need nothing but love
We need nothing but fun
We don’t need nothing but love and fun
We don’t need nothing but
We need nothing but love
We need nothing but fun
We don’t need nothing but love and fun
We don’t need nothing but
Love
Fun
Love and fun
We don’t need nothing but
We need nothing but love
We need nothing but fun
We don’t need nothing but love and fun

Nós só existe pra fazer amor
Nós só existe pra fazer amor
Nós só existe pra fazer amor
Nós só existe pra fazer amor
Nós só existe pra fazer amor
Nós só existe pra fazer amor
Nós só existe pra fazer amor
Nós só existe pra fazer amor

Trupe Chá de Boldo interpreta a música We Need Nothing (André Abujamra) no Cultura Livre

POETA – André Abujamra
André Cibelli Abujamra (São Paulo, 15 de maio de 1965) é um cantor, compositor, multi-instrumentista e ator brasileiro.
MAIS SOBRE:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Andr%C3%A9_Abujamra
https://garapuvu.blog/2018/05/15/karnak-i-came-from-atlantis/

https://www.ebiografia.com/andre_abujamra/

http://dicionariompb.com.br/andre-abujamra

«THE OWL AND THE PUSSY-CAT» por Edward Lear

#umpoetaumpoemapordia #194 (12/5)

POETA: EDWARD LEAR

Edward Lear (Highgate, Londres, 12 de Maio de 1812 — San Remo, 29 de Janeiro de 1888) foi um pintor e escritor inglês. Em 1846 deu lições de desenho à Rainha Vitória e escreveu seu primeiro Book of Nonsense, iniciando sua carreira literária na qual viria a se distinguir por desenvolver uma forma original de poemas de humor e absurdo e também por divulgar o limerick (poema de cinco versos com uma rima no primeiro, segundo e quinto e outra no terceiro e no quarto).

POEMA – THE OWL AND THE PUSSY-CAT

(I)
The Owl and the Pussy-cat went to sea
In a beautiful pea green boat,
They took some honey, and plenty of money,
Wrapped up in a five pound note.
The Owl looked up to the stars above,
And sang to a small guitar,
“O lovely Pussy! O Pussy my love,
What a beautiful Pussy you are,
You are,
You are!
What a beautiful Pussy you are!”
(II)
Pussy said to the Owl, “You elegant fowl!
How charmingly sweet you sing!
O let us be married! too long we have tarried:
But what shall we do for a ring?”
They sailed away, for a year and a day,
To the land where the Bong-tree grows
And there in a wood a Piggy-wig stood
With a ring at the end of his nose,
His nose,
His nose,
With a ring at the end of his nose.
(III)
“Dear pig, are you willing to sell for one shilling
Your ring?” Said the Piggy, “I will”.
So they took it away, and were married next day
By the Turkey who lives on the hill.
They dined on mince, and slices of quince,
Which they ate with a runcible spoon;
And hand in hand, on the edge of the sand,
They danced by the light of the moon,
The moon,
The moon,
They danced by the light of the moon.
TRADUÇÃO DE Augusto de Campos
O Mocho e a Gatinha foram pro mar
Num lindo bote verde-ervilha,
Eles tinham mel e grana a granel
E uma nota de um milha.
O Mocho olhou para o céu
E cantou na viola de lata
“Que linda gata! Que linda gata,
Que linda gata Deus me deu,
Me deu,
Me deu,
Que linda gata Deus me deu!”
E de braço dado, na praia do lado,
Saíram a dançar sob a luz do luar,
Luar,
Luar,
Saíram a dançar sob a luz do luar.
(O Mocho e a Gatinha)
O mocho e a gatinha
Música: Cid Campos | Tradução: Augusto de Campos

MAIS SOBRE:

«ESTADO DE POESIA» por Chico César

#umpoetaumpoemapordia #088 (26/1)

POETA: CHICO CÉSAR

Francisco César Gonçalves (Catolé do Rocha, Paraíba, Brasil, em 26 de janeiro de 1964), é um cantor, compositor, escritor e jornalista brasileiro

POEMA: ESTADO DE POESIA

Para viver em estado de poesia / Entranharia nestes sertões de você / Pra me esquecer da vida que eu vivia / De cigania antes de te conhecer / De enganos livres que eu tinha porque queria / Por não saber que mais dia, menos dia / Eu todo me encantaria pelo todo do teu ser / Pra misturar meia noite, meio dia / Enfim saber que cantaria a cantoria / Que há tanto tempo queria / A canção do bem querer / É belo vês o amor sem anestesia / Dói de bom / Arde de doce / Queima a calma / Mata, cria / Chega tem vez que a pessoa que enamora / Se pega e chora do que ontem mesmo ria / Chega tem hora que ri de dentro pra fora / Não fica, nem vai embora / É o estado de poesia!

«HABLADURÍAS DEL MUNDO» por Luis Alberto “El Flaco” Spinetta

#umpoetaumpoemapordia #085 (23/1)

POETA: EL FLACO – LUIS ALBERTO SPINETTA
Luis Alberto “El Flaco” Spinetta (Buenos Aires, Argentina. 23 de janeiro de 1950 – 8 de fevereiro de 2012), era um cantor, guitarrista, compositor e poeta argentino.

POEMA: HABLADURÍAS DEL MUNDO

“Toda toda la ternura me darás / si te ofrezco ser / parte de tu cuerpo / Y ya al acariciarme me darás / los espejos que son de tu día del alma / Mientras oigo trinos voces oigo más / son aquellos los dioses que nos escuchan / No estoy atado a ningún sueño ya / Las habladurías del mundo / no pueden atraparnos / Veo veo las palabras nunca son / lo mejor para estar desnudos / Ni ni la anaconda es como el buey / ya no hay más reyes de la selva / Toda toda la ternura me darás / si te ofrezco ser carne de tu cuerpo / No estoy atado a ningún sueño ya / Las habladurías del mundo / no pueden atraparnos” (Artaud, Álbum de estudio de Pescado Rabioso, 1973)

MAIS SOBRE

Clique para acessar o guitarranegra.pdf


http://cosmigonondigital.blogspot.com.br/2012/06/prueba-numero-3.html
https://acuarela.wordpress.com/2006/12/19/guitarra-negra-spinetta/
Habladurías del Mundo – Pescado Rabioso

«RANCHO FUNDO (Fragmento)» por Lamartine Babo

#umpoetaumpoemapordia #072 (10/1)

POETA – Lamartine de Azeredo Babo (Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1904 — Rio de Janeiro, 16 de junho de 1963) foi um dos mais importantes compositores populares do Brasil.

POEMA – Fragmento da letra da canção «Rancho Fundo»
“No rancho fundo / bem pra lá do fim do mundo / nunca mais houve alegria / nem de noite, nem de dia. / Os arvoredos / já não contam mais segredos / e a última palmeira / já morreu na cordilheira.”

MAIS SOBRE

http://regbit.blogspot.com.br/2010/06/lamartine-babo-o-melhor-e-mais.html
http://poesiaretro.blogspot.com.br/2011/02/lamartine-babo.html
http://dicionariompb.com.br/lamartine-babo

«TRISTE BAHIA» por Gregório de Matos

#umpoetaumpoemapordia #054 (23/12)

POETA: GREGÓRIO DE MATOS

Gregório de Matos Guerra (Salvador, 23 de dezembro de 1636 – Recife, 26 de novembro de 1696), alcunhado de Boca do Inferno ou Boca de Brasa, foi um advogado e poeta do Brasil colônia. É considerado um dos maiores poetas do barroco em Portugal e no Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa no período colonial.

POEMA: TRISTE BAHIA

Triste Bahia!
ó quão dessemelhante 
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi abundante.

A ti tricou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e, tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

 

+ SOBRE

http://soliteratura.com.br/barroco/barroco05.php
https://pt.wikipedia.org/wiki/Gregório_de_Matos
http://www.releituras.com/gmattos_epigrama.asp
https://daliteratura.wordpress.com/2012/04/07/gregorio-de-matos-o-boca-do-inferno/
https://www.bn.gov.br/es/node/2202
https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/autores/?id=2759

Caetano Veloso – Triste Bahia