exercício sobre a luva e a pedra

exercício sobre a luva e a pedra

por um instante
o único pagante
a peça perdida
nada de luvas
naquela antessala abafada:
uma pedra.
mas eis que eles chegam
dois por dois
aos pares e estamos
repletos, perplexos,
tocados por esta luva
e por esta pedra
pela luz e sombra
pelo suor
e pelas cordas
do teatro
em trâmite.

vagner boni. casa vermelha, centro-fpolis. 10/01/2020

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exercício sobre o ato

quase te enviei
aquele texto que fala
estarmos cara a cara
cinco centrímetros
feito ciclopes
ou te convidei
pr’aquela peça
de teatro, minha cara,
na casa vermelha

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a luva e a pedra
e a gente presente
lado a lado
neste ato
que é a vida
sendo vivida e vívida.

mas não me contive
fiz melhor
me tornei poema,
reservei ingresso pra nós…
vamos:

sexta?

linha tênue (or why can’t we give love that one more chance?)

deitarei
com o sol na minha cara.
e quando acordar…
verei o que há na linha tênue.
e eu não vi.
tomei nota.
e escrevo isto
agora:

muitas palavras
nenhuma palavra
o que se grava
é o que o corpo
faz no tempo
há palavras
que nunca são ditas
que calam fundo
que torna-se clichê
mas mesmo assim são
e estão expostas
para qualquer um ver
para quem puder ver

vê. quero você.

muitas palavras
nenhuma palavra
no cinema o tempo salta
o roteiro entrega
na hora certa
o corte, o gesto a fala
o que há nos olhos
o que é para ser dito
o que só pode ser traduzido
co’um te extrãno

*

e tudo bem escrever
sobre isto: o amor
de um homem
mas não seja isto
a coisa crua exposta
e que à boca fechada movimentava-se
tal qual uma tunnel boring machine…
making a hole in something

tudo bem escrever
sobre isto: o amor
repita-se, deixe
o som de cada palavra
deslizar isto que vai
trancado em teu peito
que turva teus olhos
que embrulha tuas vísceras
que te apavora
que não faz sentido
e é o único sentido

acorda.
escreve sobre.
sê o que escreve.
acorda!

**

19

metanoia (pata pata)

meu corpo pede:
fique.
minha mente diz…
vá.
tenha histórias
p’ra contar.
a chuva apertou.
demoro-me…
e fico enredado
en el secreto de sus ojos.

é tarde.
amanhã vai estar
por aí
o dia todo?
chego em 5 min.
estou na página 91
e os olhos falam demais.
deviam se calar.
não há mais carpas
nunca houve ou haverá
nem lago sob a chuva
e sob os ipês
apenas este velho clichê
e uma chávena com バンチャ
amor
e perdão.

e escuta só
isto não é um poema
são frases aleatórias
e soltas
deste sagrado manifesto.


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«Ao sol» Tiago Bettencourt e Ines Castel-Branco

interpretação:

«Ao sol» – Tiago Bettencourt e Ines Castel-Branco

poema de Joaquim Castro Caldascastro

“Eu só queria despir-nos
Como se tira habilmente
A seda aos pêssegos
E nus adormecermos
Sem saber quem somos
Sem jogos aos ombros
Que vêm de pequenos
Pelo faro pelos poros
Pelo sono dos cabelos
Pelo estalinho dos dedos
Eu só queria deixar-nos
Como o sol a bater
Na cal dos muros
E nus adormecermos
Sem contar os beijos
Sem dizer piropos
Como o cio dos frutos
Como a pele dos bichos
Como o íman dos olhos
Dos velhos sentados” –

rascunho/fragmento: as vezes é preciso entrar dentro de você [mesmo]

uma luz, um farol
o sorriso de um bebê
as vezes é preciso entrar dentro de você [mesmo]
e permanecer quietinho quietinho
deixa o mundo ventar
deixa as coisas serem
deixa como está
as vezes é preciso entrar dentro de você [mesmo]
e permanecer, perceber
trovejar… uma chuva que vai chegar
calor, a umidade, a poeira, saudade
mas as vezes é preciso entrar dentro de você [mesmo]
e permancer quietinho quietinho
abraçar a dor.

*

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» barba e cabelos cortados.

12 de octubre 1492

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En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,
descubrieron que vivían en América,
descubrieron que estaban desnudos,
descubrieron que existía el pecado,
descubrieron que debían obediencia a un rey y a una reina de otro mundo y a un dios de otro cielo,
y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo quien adorara al sol y a la luna y a la tierra y a la lluvia que la moja…

 

a terra

a dor é menor.
as palavras mínimas,
outras ásperas.
espera a dor silenciar.
respira. o outro é o outro.
és um processo.
acalma o espírito.
deixa a coluna ereta.
espera. ouve o som ao redor.
ouve a respiração da terra.
ouve cada minúsculo músculo
e veia. ouve a ave. a vertigem…
espera a dor menor.
sê palavras pera.
carícia, espera…
a terra.


Caetano Veloso, Gilberto Gil – Desde Que o Samba é Samba (Vídeo Ao Vivo)

Caetano Veloso, Gilberto Gil – Super Homem (A Canção) (Vídeo Ao Vivo)

e tantas outras…


Jpeg
eugenia uniflora

só para registrar que a pitangueira, quase morta do vaso, segue viva e reviva… brotando mil folhinhas verdes… depois que a coloquei na terra. eu tenho terra entre os dentes e minhas mãos seguem entranhadas na terra escura, sentindo o pulsar da vida.

pílulas poéticas

pílulas poéticas:

ontem

o antídoto – a anti-dor – no riso

hoje

acordei / com uma cabeça / um coração / e penas despedaçadas pelo meu quarto / maldito gato / [eu] era um pássaro.


e que coincidência…

justissima

Los caminos del viento

(Palabras de agradecimiento, al recibir el Premio Stig Dagerman, en Suecia, el 12 de septiembre, 2010)

«Querido Stig: Ojalá seamos dignos de tu desesperada esperanza.

Ojalá podamos tener el coraje de estar solos y la valentía de arriesgarnos a estar juntos, porque de nada sirve un diente fuera de la boca, ni un dedo fuera de la mano.

Ojalá podamos ser desobedientes, cada vez que recibimos órdenes que humillan nuestra conciencia o violan nuestro sentido común.

Ojalá podamos merecer que nos llamen locos, como han sido llamadas locas las Madres de Plaza de Mayo, por cometer la locura de negarnos a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria.

Ojalá podamos ser tan porfiados para seguir creyendo, contra toda evidencia, que la condición humana vale la pena, porque hemos sido mal hechos, pero no estamos terminados.

Ojalá podamos ser capaces de seguir caminando los caminos del viento, a pesar de las caídas y las traiciones y las derrotas, porque la historia continúa, más allá de nosotros, y cuando ella dice adiós, está diciendo: hasta luego.

Ojalá podamos mantener viva la certeza de que es posible ser compatriota y contemporáneo de todo aquel que viva animado por la voluntad de justicia y la voluntad de belleza, nazca donde nazca y viva cuando viva, porque no tienen fronteras los mapas del alma ni del tiempo.»

Eduardo Galeano

Eduardo Galeano: Mitos, Dios

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cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…

e a tinta é branca
e tua carne vermelha.
tua voz é doce.
esse riso na fala,
esse acento
toca fundo
neste coração.

teus passos de cumbia,
só quero ver-te bailar…
mas estou cá,
emparedado.
em branco.
enquanto danças no vermelho.
eu desejo o próximo verso.
nada escrito.
apenas nossa voz.
como um só sonido.
que sejamos o improviso
na tintura do mundo
tu vai
eu fico
eu vou
tu vem
há samba
aqui

canção incidental:

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O silêncio dos homens

06h15 acordei. e a primeira coisa que o facebook me trás é isto aqui:

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O silêncio dos homens | Documentário completo

as 9h00. no post it: extensão da bancada. como plantar cactos? horta?

meia dia e pouco, pai chama pra almoçar… e me percebo naquele instante sentindo um prazer absurdamente indescritível… um contentamento tão grande… não por ele me chamar pra almoçar, na verdade isto só me fez perceber como eu estava mergulhado naquilo que estava a fazer: eu plantava… eu transplantava plantas, mexia na terra com as mãos… conversava com elas… eu sentia uma gratidão profunda por estar ali, mexendo na terra, semeando o jardim… empilhando pedras, transplantado árvores.

e se eu parasse tudo que faço agora e não tem sentido algum… e fosse… se tentasse mais um vez… fazer um curso técnico na área de meio ambiente? lamentei tanto o último… fui lá, fiz a matricula e não pude frequentar porque o horário das disciplinas chocavam-se com o horário do trabalho. mas foi uma lampadazinha que acendeu sobre minha cabeça neste instante…. ali, enquanto mexia na terra e o pai chamava pro almoço… eu querendo ficar ali entranhado na terra, mas sabendo que o velho fez comida pra família inteira e sabendo que dificilmente alguém além de mim – e da joiazinha que é minha sobrinha maria – almoçaria com ele.

esses homens daqui são feitos de silêncio. eu não quero ser um homem daqui… eu quero toda a minha porção mulher, alimentando minha vida. como eu disse ontem pra luiza e izabel… a patriarcado é uma merda, elas têm o direito e dever de destruir essa merda… lutem e sejam felizes.

saudade de mim mãe. que do seu jeito… lutou ferrenhamente contra o patriarcado, mulher guerreira. quero essa porção mulher em mim.

 

são três letras apenas, (…) e nelas cabe o infinito

é bom reencontrar um pedaço do passado. permite captar melhor o infinito que há no finito.

que a vida segue ai… sendo vivida em cada um de nós, independente se temos consciência dela ou não, ela segue vivendo.

«Leve um homem e um boi ao matadouro; aquele que berrar é o homem.
Mesmo que seja o boi». Torquato Neto.

Jards Macalé e Paulo José cantam e recitam Torquato Neto;
e Chico Buarque e Zizi Possi cantam: Pedaço de mim
e roberta sá e ney matogrosso cantam cartola: Peito Vazio
ou moska… Pensando em você
ou Chico César e Maria Bethânia em Onde estara o meu amor

e o presente de hoje cedo, de breno:
um poema de mário quintana.

MÃE
São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais…
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena
Confessam mesmo os ateus
És do tamanho do céu
E apenas menor do que Deus!

ps: lembro no velório de falar pra luiza e izabel:
enquanto os outros rezam para os seus deuses
mal sabem eles que o meu deus era minha mãezinha. a que me deu a vida, o colo, as estórias… a literatura… a generosidade e dádiva de uma amizade profunda e verdadeira.

50 dias sem você mãezinha. saudade absurda.


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uso a palavra difícil, a linguagem inadequada

uso a palavra difícil
a linguagem inadequada
o verbo que comunica
demarca: de você
eu sou solidão
sou floresta inabitada
ruído ininteligível
ganido, grunhido, pio
coaxar, evapotranspiração

uso a palavra difícil
a linguagem inadequada
sou d’outra ordem:
não faço parte da tua razão
sou minério, selvagem, animal
sou tua comida, teu ar, teu chão

sou a palavra difícil
a linguagem inadequada
o que você não entende
ignora, vilipendia, desconhece
sou a intradução
o que não se olha
não se ouve nem se escreve

não sei ser gente
não faço sentido
não caibo no seu bolso
no seu papel-moeda
sou o que não se vende
o que não se compra
tampouco caibo em teu delírio
teu vil prazer e tua devastação

eu apenas uso a palavra difícil
a que reveste um coração latindo
as veias abertas
o que tu não vê
não enxerga e não repara

eu uso outra língua
sou inaudível aos teus sentidos
não habito teu vocabulário
sou das cores que não podes ver
eu desenho outros caminhos
sou a resistência, o contrapelo,
aquilo que você nunca entende.


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exercício sobre a margem

meus abraços
cortejam a morte
e se olvidarmos a margem!?

se fossemos sempre a terceira margem!?
a canoa no meio do nada.

há acenos, mãos e braços
no outro lado do rio
uns dizem: volta!
outros dizem: vai!
outros dizem: nada.

não se sabem margens,
tão pouco rio.

nas margens deste rio
que vem de ti,
sentei-me: paisagem!

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o peito pesa. dói. mas eu ouço maiakóvski. «via canal retorno onírico»

jogo dados. vida e morte é só questão de instante. esses trinta e sete não fazem sentido algum.


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o peito pesa. dói. mas eu ouço maiakóvski. «via canal retorno onírico»

Vladimir Maiakóvski – Poemas
Tradução e organização de Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos.

Declamação – Vladimir Maiakóvski – Tradução, comentários e notas: Boris Schnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos. 2a Edição, 1983, Coleção Signos, Editora Perspectiva.

00:10 - Introdução (parafraseado da obra "Maiakóvski - Poemas")
03:15 - Noite
04:13 - Manhã
05:12 - Porto
05:41 - De Rua
06:17 - De Rua em Rua
07:23 - Eu
07:55 - Algum dia você poderia?
08:22 - Quadro completo da primavera
08:35 - Balalaica
08:52 - No Automóvel
09:33 - A mãe e o crepúsculo morto pelos alemães
12:05 - A vocês!
12:53 - Hino ao juiz
15:00 - Hino ao crítico (sem imagem correspondente no vídeo)
17:29 - Lílitchka
19:49 - Escárnios
20:16 - Como ananás
20:28 - Nossa marcha
21:45 - Nacos de nuvem
22:24 - A extraordinária aventura vivida
........por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha
26:16 - Ordem No 2 ao Exército das Artes
29:02 - De "V" Internacional
29:36 - Jubileu
37:19 - Black & White
40:46 - A Sierguei Iessiênin
44:41 - Conversa sobre Poesia com o Fiscal de Rendas
51:13 - Incompreensível para as massas
54:16 - Carta a Tatiana Iácovleva
57:08 - A Plenos Pulmões
01h02:38 - Fragmentos

Som de fundo:
Até 03:10 e após 01h04:34 – Leo Ferre – Les Anarquistes. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tLbI5…
Após 03:10 até 01h04:34 – Eugène Pottier (letra – 1871), Pierre de Geyter (música – 1888) – Hino da Internacional Socialista (Russo). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=t8EMx..

y ¡zas!

02h24

a vida como algo bruto, violento, mesquinho… sobrevivência. a gente normamente pensa na vida como graça, como dádiva… mas a vida é voracidade, a vida é morte, extermínio, a vida violenta a gente o tempo todo…  ela é contramão, velocidade, lenta demais, fugaz..

é estúpida, contigente, ânsia desesper[a]da, mais um gole, mais um sonho, mais um dia, mais uma dose, mais uma ilusão, mais um minuto, mais um riso, mais uma lágrima…. a vida tem sua face horrenda, suas exigências, seu rato e suas ignorâncias. viver sobretudo é dor, dói e faz doer. faz o coração sangrar… o teu e do outro. e nos embrigada no desejo de estar custe o que custar. a vida é cativeiro. a vida é espinho… e comemoramos a ruína, a catástrofe, os destroços como se fosse um dom, deus ou sei lá… sorte… azar.

a receita: gratidão, louvor, entrega, comunhão… balela. somos a bala nunca perdida no peito do irmão, o atropelo do cão, as queimadas… a devastação, o plástico irrespirável no pulmão, ou asfixia do estômago, o extermínio de geleiras, a devoração da terra, o câncer na alimentação, nos afetos… no mais íntimo.

a vida é progresso e mata. e o bom samaritano mata. a rua mata. a dívida mata. o prazer mata. o agrobusiness mata. as corporações matam… o bom cidadão, o teu filho, as bandeiras, os tótens… matam… todos feios, sujos, malvados… sobretudo a beleza. a beleza mata.

e a vida é morte e as ideias sobre tudo, sobretudo, são uma questão de bioquímica, a vida é química… é eletrônica… a vida adoece, a vida não faz o menor sentido. sabe alice, a vida é poesia e a poesia é isso, um rato morto, numa terça-feira, estirado na calçada, sozinho ou com seus mil milhões de vermes… e isto tudo que você julga especial não passa de 43% de um ambiente hospedeiro de um vasto microbioma, de embriguez humana, de estupidez, de autopiedade.  a vida corta feito faca. a vida arde, queima. a vida faz a gente amar. a vida faz a gente morrer. a vida é impermanência e (auto)mutilação… nó, engasgo, a vida pesa, é fardo, a vida é egoísta… a vida é luta, trapaça, luto… a vida é tudo e nada, signo, parafernália, palavra, língua, corda, guilhotina… a vida é rainha e esquecimento, mordida e apodrecimento… sopro e lágrima, e ditados bobos.

a vida meu irmão, vale nada. e nada vale. eu não sou o centro do universo, eu não caibo no verso, nenhum eu cabe neste verso… nem verso nisto aqui, porque a vida meu irmão. não vale nada não.

[ruídos. voz nasalada, pausadamente] a vida é dura. [ruído]  a vida dura… [eu acho que é isso]

02h26

02h37

a vida é mãe que morre. a vida é contingência da poeira do universo, dos multi-versos… a vida vale tudo, a vida pesa. a vida é lugar inóspito, inesperado e a espera… esperando godot ou foucault, a vida é terra arrasada, é floresta, é terra arrasada, a vida é nuclear, a vida o tempo todo é um deus vizinho que te aninha e te corta em tirinhas, camada pós camada, câmara [de gas] pós camara… a vida é campo pós campo… a vida, mobila, a vida é bela, é um permanente estado de exceção… y ¡zas! Le come la patita.

02h38

09h07 [transcrever o rabisco compulsivo da madrugada para cá]

é preciso dormir negrito! pois a vida. ela não vale o teu espírito. a vida é tua ira.

09:34

Jpeg
ontem

quatro fragmentos

eu musgo
eu musgo na pedra.
………             à pedra, marulho.


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la vida, a ratos, es solo esto:
un rato…..  ……… y se ha ido.


Jpeg

as cartas nunca chegam,
……………apenas as heras.
e não há luz
…………………..na muralha.


e quando o galho
desnutrido pelo tempo
da velha árvore
não sustenta o ninho
da pequena ave
tudo torna-se chão:
adubo para os que virão.

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E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos

Solidão é lava
Que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão, palavra
Cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão

[Dança da solidão / Paulinho da Viola]


Não sei sentir, não sei ser humano, [conviver]
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
(…)
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco — não sei qual — e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse
Amei e odiei como toda a gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a excepção, o choque, a válvula, o espasmo.
(…)
Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos
(…)
Seja o que for, [era melhor não ter nascido],
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem [para a morte] entre árvores e esquecimentos
[Passagem das horas / Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)]

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terra entre os dentes [por gabriela acerbi pereira]

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gabriela sumiu. gabi
é uma dádiva, uma coisa visceral…
essa coisa toda orgânica, é minério puro.
em cada verbo essa voragem…
e o regurgitar abismal…
é uma devoração em texto…
é palavra magnética.

o jeito e o quê essa criatura escreve me é de um fascínio intraduzível, é de uma língua não falada… dessas que conduzem a gente para outra dimensão do corpus, poesia mais que profunda.

compartilho com vcs um de seus textos.

«Pode avisar eles que eu comi a terra toda e foi com as mãos mesmo.
Aquela escura já está moída.
Era fome. Não sobrou nada, nem raízes.
E sim, avisa lá que hoje a gente não vai. Eu não vou.
Eu já me estendi e o estômago cedeu.
Acabou a terra, sobraram tripas.

Depois avisa eles que virou tudo pó e o sol vai torrar a gente. Ardeu o ombro, secou todas as folhas e eu digeri as fibras.

Insisto, avisa lá: diz que falta o terceiro toque. Manda bater no terceiro tempo que era o tempo da terra que eu comi.
O resto do corpo o sol queimou mas comer terra reativa.

(Janeiro, 2018)
terra entre os dentes
https://gabriela-sumiu.tumblr.com/

*