FALCÃO – Você está certo, quem tá errado é o Papa

“Então se você pensa que bom é ser mau / pra viver a vida só cagando o pau / então seja. / Se você acredita que sendo imbecil/ vai fazer diferença em prol do Brasil / então vá! / Vá mentindo / vá enganando / vá vivendo de lorotas / e sendo idiota./ Vá falando e difamando /no varejo e no atacado / iludindo os abestados / então vá! / Você está certo, quem tá errado é o papa / Vá se fuck you!”

falcao

exercício sobre a luva e a pedra

exercício sobre a luva e a pedra

por um instante
o único pagante
a peça perdida
nada de luvas
naquela antessala abafada:
uma pedra.
mas eis que eles chegam
dois por dois
aos pares e estamos
repletos, perplexos,
tocados por esta luva
e por esta pedra
pela luz e sombra
pelo suor
e pelas cordas
do teatro
em trâmite.

vagner boni. casa vermelha, centro-fpolis. 10/01/2020

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«você ou é o sol ou é a lua». eu sou um black hole

Arte de buraco negro foi feita por Jean-Pierre Luminet com um computador IBM 7040

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e hoje: Scientists reveal first picture of a black hole

Usando o Telescópio Event Horizon, os cientistas obtiveram uma imagem do buraco negro no centro da galáxia M87, delineada pela emissão de gás quente girando em torno dele sob a influência da forte gravidade perto de seu horizonte de eventos.

Event Horizon Telescope collaboration et al.

A-Consensus

«UM SORRISO» por Ferreira Gullar

#umpoetaumpoemapordia #315 (10/9)

POETA: FERREIRA GULLAR

pseudônimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, Maranhão, Brasil, 10 de setembro de 1930 – Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 2016), foi um escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo[2]. Foi o postulante da cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Ivan Junqueira,[3][4] da qual tomou posse em 5 de dezembro de 2014

POEMA: UM SORRISO

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?

que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ferreira_Gullar
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_infantil/ferreira_gullar.html
https://viciodapoesia.com/tag/ferreira-gullar/

OUTROS

Nicolau Tolentino de Almeida, escritor e poeta português
Franz Werfel, autor, poeta e dramaturgo austríaco-boêmio
Hilda Doolittle, HD, poetisa, romancista e memorialista estadunidense.
Jeppe Aakjær, autor e poeta dinamarquês
Georgia Douglas Johnson, poeta e dramaturgo americano
Viswanatha Satyanarayana, poeta e autor indiano
Georges Bataille, filósofo, romancista e poeta francês
Miguel Serrano, poeta e diplomata chileno
Mary Oliver, poeta americana

«PRINCÍPIO DO DIA» por Rui Knopfli

#umpoetaumpoemapordia #284 (10/8)

POETA: RUI KNOPFLI

Rui Manuel Correia Knopfli (Inhambane, Moçambique, 10 de agosto de 1932 – Lisboa, 25 de dezembro de 1997) foi um poeta, jornalista e crítico literário e de cinema português.

POEMA: PRINCÍPIO DO DIA

Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom-dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom-dia
e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom-dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom-dia.
Dizem-me bom-dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.
(Amanhã volto a experimentar).

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Rui_Knopfli
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/mocambique/rui_kinopfli.html
http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet385.htm
http://folhadepoesia.blogspot.com/2013/06/o-euromocambicano-rui-knopfli.html
https://www.escritas.org/pt/rui-knopfli
https://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?poeta=1597
http://poeticia.blogspot.com/2010/06/poetas-do-mundo-rui-knopfli.html

Clique para acessar o Fernandes,%20Gabriel%20Madeira,%20A%20Poetica%20da%20Sinceridade%20de%20Rui%20Knopfli.pdf

OUTROS

Gonçalves Dias, escritor e poeta brasileiro
Repórter X, jornalista e poeta português
René Crevel, poeta francês
Sérgio Frusoni, poeta cabo-verdiano
Lorenzo Varela, poeta espanhol
Ion Negoiţescu, escritor e poeta romeno
Blanca Varela, poetisa peruana
Rui Knopfli, poeta e jornalista moçambicano
Mark Doty, poeta estadunidense
Raul Passos, pianista e poeta brasileiro
Allan Ramsay, poeta e pintor britânico
Carlos Castro Saavedra , escritor e poeta colombiano
José Ramón Ripoll , poeta espanhol
Abai Qunanbaiuli , poeta cazaque, compositor e filósofo
Laurence Binyon , poeta inglês, dramaturgo e estudioso
Trần Tế Xương um poeta e satírico vietnamita
Jorge Amado , romancista e poeta brasileiro
Aqeel Abbas Jafari , escritor paquistanês, poeta, arquiteto e editor chefe

«Всему под звездами готов… [A todos los seres…]» por Vera Inber [Вера Инбер]

#umpoetaumpoemapordia #253 (10/7)

POETISA: VERA INBER [Вера Инбер]

Vera Inber, Vera Mijáilovna Ínber, de solteira Shpenzer (em cirílico russo, Ве́ра Миха́йловна И́нбер) Odessa, 10 de julho de 1890 — Moscou, 11 de novembro de 1972) foi uma poeta e tradutora ucraniana ligada ao grupo literário construtivista. Seu pai possuía uma editora chamada “Matemátika” e era primo de León Trotsky, o qual morou na casa de Vera quando esta era um bebê. Traduziu autores como Paul Éluard.

POEMA: Всему под звездами готов…

Всему под звездами готов
Его черед.
И время таянья снегов
Придет.
И тучи мая на гранит
Прольет печаль.
И лунный луч осеребрит
Миндаль.
И запах обретет вода
И плеск иной,
И я уеду, как всегда,
Весной.
И мы расстанемся, мой свет,
Моя любовь,
И встретимся с тобой иль нет
Вновь?

TRADUÇÃO DE: Natalia Litvinova

A todos los seres…

A todos los seres
que viven bajo las estrellas
les llegará su turno.
Y el tiempo de la nieve derretida
llegará.
Y la nube de mayo sobre la acera
derramará tristezas.
Y el rayo lunar teñirá de plata
todos los bosques.
Y el agua encontrará su olor,
hasta el chapoteo será diferente.
Y me iré, como siempre,
en primavera.
Y nos despediremos, mi luz,
mi amor
Y nos reencontraremos de nuevo,
o no?

+ SOBRE

http://scanpoetry.ru/poetry/2873
https://pt.wikipedia.org/wiki/Vera_Inber
http://scanpoetry.ru/poets/inber-vera
http://faustomarcelo.blogspot.com/2017/12/poemas-de-vera-inber.html

OUTROS

Pierre Gamarra, poeta, escritor e dramaturgo francês
Nicolás Guillén, poeta cubano
Antulio Sanjuan Ribes, ator de teatro e poeta espanhol
Salvador Espriu, poeta espanhol
Cho Shik, poeta e estudioso coreano

«A GOTA DE SANGUE» por Anderson Herzer

#umpoetaumpoemapordia #223 (10/6)

POETA: ANDERSON HERZER

Anderson Herzer, nome social de Sandra Mara Herzer (Rolândia, 10 de junho de 1962 — São Paulo, 10 de agosto de 1982) foi um escritor e poeta transexual brasileiro.

POEMA: A GOTA DE SANGUE

Eu decai, eu persisti.
Tentei por todos os meios ser forte.
Lutei contra o tempo, chorei em silêncio.
Gritei sei nome ao vento.
Sou filho da gota, fui tempo de miséria,
Meu pai, um perdido,
Minha mãe, a megera.
Cresci vendo prantos, dormi em meio a mata,
Chorei gotas sanguineas, sou o pecado, sou a traça.
Eu ouvi seu grito de desespero,
Vi a lenta corrupção, vi o olhar do corruptor.
Vi sua vida em fase de destruição, eu vi o assassinato do amor.
Tentei, venci, porém um dia faleci.
A vitória conquistei, hoje estou na sua lembrança.
Sou talvez uma alma oculta, eu que fui esperança.

+ SOBRE

http://suprarrealidade.blogspot.com/2011/09/minha-vida-meu-aplauso-o-grito-pela.html
http://leredesconstruir.blogspot.com/2010/01/queda-para-o-alto-herzer.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Anderson_Herzer
https://asturas.wordpress.com/2016/06/21/um-poema-de-anderson-herzer/
http://www.jornaldepoesia.jor.br/ag47bigode.htm

A Queda Para o Alto, de Anderson Herzer

OUTROS

Antônio Carlos Secchin, poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro
Anderson Herzer, escritor e poeta brasileiro
Yona Wallach , poeta israelita
Andrés Trapiello , poeta espanhol.
Fakhr-al-Din iraquiano , poeta e filósofo persa
Edwin Arnold , poeta e jornalista inglês
Louis Couperus , autor e poeta holandês
Lin Huiyin , arquiteto e poeta chinês
Oktay Rıfat Horozcu , poeta e dramaturgo turco

«O SONHO» por Sebastião da Gama

#umpoetaumpoemapordia #162 (10/4)

POETA – SEBASTIÃO DA GAMA

Sebastião Artur Cardoso da Gama (Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, 10 de Abril de 1924 – Lisboa, 7 de Fevereiro de 1952), foi um poeta e professor português, licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1947.

POEMA – O SONHO

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e do que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

  • Partimos. Vamos. Somos.

 

+ SOBRE:

http://www.escritas.org/pt/l/sebastiao-da-gama
http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/portugal/sebastiao_da_gama.html
http://antologiadoesquecimento.blogspot.com.br/2005/12/verdade-era-bela.html

Sebastião da Gama, o poeta da serra da Arrábida


https://interrogaesblog.wordpress.com/2016/01/10/pequeno-poema-sebastiao-gama/

«A IDADE DOS LILASES» por Dórdio Guimarães

#umpoetaumpoemapordia #131 (10/3)

POETA:DÓRDIO GUIMARÃES

Dórdio Leal Guimarães (Porto, 10 de Março de 1938 – 2 de Julho de 1997), foi um poeta, cineasta, ficcionista e jornalista português.

POEMA: A IDADE DOS LILASES

Mulher
No tempo dos cabelos agitas a paz em amor
Todos os dias por ti
O universo se faz e tu não sabes não

Amanhã a mulher joga a vida num vale de lilases
Dele irrompe cheirosa a flor
Que é pródiga em lis e lases
E serei tudo o que de mais fértil o teu ventre der
Mulher

Na estrada à noite não pode haver desacordo
Eia tanta gente amiga são as árvores

 

+ SOBRE

https://pt.wikipedia.org/wiki/Dórdio_Guimarães
https://canaldepoesia.blogspot.com.br/2012/04/dordio-guimaraes-guerra-e-civilizacao.html
https://joseduardotaveira.blogspot.com.br/2013/10/dordio-guimaraes_25.html

OUTROS

Boris Vian, poeta, escritor, crítico e músico francês
Alfredo Zitarrosa, cantor, compositor, poeta e escritor uruguaio
Dórdio Guimarães, poeta e cineasta português
Fernando Mansé, músico, poeta, pintor e escritor brasileiro
Nicodemos Gomes Napoleão, poeta e escritor brasileiro
Ramón Ayala, cantor e compositor, escritor e poeta argentino.
Perunchithiranar, poeta tâmil
Elizabeth Azcona Cranwell, poetisa e tradutora argentina
Omer Tarin, poeta e estudioso paquistanês-inglês

«AN DIE NACHGEBORENEN (Aos Que Vierem Depois De Nós)» por Bertholt Brecht

#umpoetaumpoemapordia #103 (10/2)

POETA: BERTOLD BRECHT

Eugen Bertholt Friedrich Brecht (Augsburg, 10 de fevereiro de 1898 — Berlim Leste, 15 de agosto de 1956) foi um destacado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX. Seus trabalhos artísticos e teóricos influenciaram profundamente o teatro contemporâneo, tornando-o mundialmente conhecido a partir das apresentações de sua companhia o Berliner Ensemble realizadas em Paris durante os anos 1954 e 1955.

POEMA – AN DIE NACHGEBORENEN

I
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten! / Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn / Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende / Hat die furchtbare Nachricht / Nur noch nicht empfangen. // Was sind das für Zeiten, wo / Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist. / Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt! / Der dort ruhig über die Straße geht / Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde / Die in Not sind? // Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt / Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts / Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen. / Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.) // Man sagt mir: iß und trink du! Sei froh, daß du hast! / Aber wie kann ich essen und trinken, wenn / Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und / Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt? / Und doch esse und trinke ich. // Ich wäre gerne auch weise. / In den alten Büchern steht, was weise ist: / Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit / Ohne Furcht verbringen / Auch ohne Gewalt auskommen / Böses mit Gutem vergelten / Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen / Gilt für weise. / Alles das kann ich nicht: / Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
II
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung / Als da Hunger herrschte. / Unter die Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs / Und ich empörte mich mit ihnen. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war. // Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten / Schlafen legte ich mich unter die Mörder / Der Liebe pflegte ich achtlos / Und die Natur sah ich ohne Geduld. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war. / Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit. / Die Sprache verriet mich dem Schlächter. / Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden / Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war. // Die Kräfte waren gering. Das Ziel / Lag in großer Ferne / Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich / Kaum zu erreichen. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war.
III
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut / In der wir untergegangen sind / Gedenkt / Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht / Auch der finsteren Zeit / Der ihr entronnen seid. // Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd / Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt / Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung. // Dabei wissen wir doch: / Auch der Haß gegen die Niedrigkeit / verzerrt die Züge. / Auch der Zorn über das Unrecht / Macht die Stimme heiser. Ach, wir / Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit / Konnten selber nicht freundlich sein. // Ihr aber, wenn es so weit sein wird / Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist / Gedenkt unserer / Mit Nachsicht. // Bertolt Brecht

(Tradução Manuel Bandeira) Aos que vierem depois de nós
I
Realmente, vivemos tempos sombrios! / A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas / denota insensibilidade. Aquele que ri / ainda não recebeu a terrível notícia / que está para chegar. // Que tempos são estes, em que / é quase um delito / falar de coisas inocentes. / Pois implica silenciar tantos horrores! / Esse que cruza tranqüilamente a rua / não poderá jamais ser encontrado / pelos amigos que precisam de ajuda? // É certo: ganho o meu pão ainda, / Mas acreditai-me: é pura casualidade. / Nada do que faço justifica / que eu possa comer até fartar-me. / Por enquanto as coisas me correm bem / (se a sorte me abandonar estou perdido). / E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”
Mas como posso comer e beber, / se ao faminto arrebato o que como, / se o copo de água falta ao sedento? / E todavia continuo comendo e bebendo. // Também gostaria de ser um sábio. / Os livros antigos nos falam da sabedoria: / é quedar-se afastado das lutas do mundo / e, sem temores, / deixar correr o breve tempo. Mas / evitar a violência, / retribuir o mal com o bem, / não satisfazer os desejos, antes esquecê-los / é o que chamam sabedoria. / E eu não posso fazê-lo. Realmente, / vivemos tempos sombrios.
II
Para as cidades vim em tempos de desordem, / quando reinava a fome. / Misturei-me aos homens em tempos turbulentos / e indignei-me com eles. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // Comi o meu pão em meio às batalhas. / Deitei-me para dormir entre os assassinos. / Do amor me ocupei descuidadamente / e não tive paciência com a Natureza. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros. / A palavra traiu-me ante o verdugo. / Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes / Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // As forças eram escassas. E a meta / achava-se muito distante. / Pude divisá-la claramente, / ainda quando parecia, para mim, inatingível. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra.
III
Vós, que surgireis da maré / em que perecemos, / lembrai-vos também, / quando falardes das nossas fraquezas, / lembrai-vos dos tempos sombrios / de que pudestes escapar. // Íamos, com efeito, / mudando mais freqüentemente de país / do que de sapatos, / através das lutas de classes, / desesperados, / quando havia só injustiça e nenhuma indignação. // E, contudo, sabemos / que também o ódio contra a baixeza / endurece a voz. Ah, os que quisemos / preparar terreno para a bondade / não pudemos ser bons. / Vós, porém, quando chegar o momento / em que o homem seja bom para o homem, / lembrai-vos de nós / com indulgência.
(O poema acima foi extraído do caderno “Mais!”, jornal Folha de São Paulo – São Paulo (SP), edição de 07/07/2002, tendo sido traduzido pelo grande poeta brasileiro Manuel Bandeira.)

(Tradução de Paulo César de Souza) Aos que vão nascer
1
É verdade, eu vivo em tempos negros. / Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas / Indica insensibilidade. Aquele que ri / Apenas não recebeu ainda / A terrível notícia. / Que tempos são esses, em que / Falar de árvores é quase um crime / Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades? / Aquele que atravessa a rua tranqüilo / Não está mais ao alcance de seus amigos / Necessitados? / Sim, ainda ganho meu sustento // Mas acreditem: é puro acaso. Nado do que faço / Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome. / Me dá direito a comer a fartar. / Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.) / As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem! / Mas como posso comer e beber, se / Tiro o que como ao que tem fome / E meu copo d`água falta ao quem tem sede? / E no entanto eu como e bebo. / Eu bem gostaria de ser sábio. / Nos velhos livros se encontra o que é a sabedoria: / Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve / Levar sem medo / E passar sem violência / Pagar o mal com o bem / Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los / Isto é sábio. / Nada disso sei fazer: / É verdade, eu vivo em tempos negros.
2
À cidade cheguei em tempo de desordem / Quando reinava a fome. / Entre os homens cheguei em tempo de tumulto / E me revoltei junto com eles. / Assim passou o tempo / Que sobre a terra me foi dado. / A comida comi entre as batalhas / Deitei-me para dormir entre os assassinos / Do amor cuidei displicente / E impaciente contemplei a natureza. / Assim passou o tempo / Que sobre a terra me foi dado. / As ruas de meu tempo conduziam ao pântano. / A linguagem denunciou-me ao carrasco. / Eu pouco podiam fazer. Mas os que estavam por cima / Estariam melhor sem mim, disso tive esperança. / Assim passou o tempo / Que sobre a terra me foi dado. / As forças eram mínimas. A meta / Estava bem distante. / Era bem visível, embora para mim / Quase inatingível. / Assim passou o tempo / Que nesta terra me foi dado.
3
Vocês, que emergirão do dilúvio / Em que afundamos / Pensem / Quando falarem de nossas fraquezas / Também nos tempos negros / De que escaparam. / Andávamos então, trocando de países como de sandálias / Através das lutas de classes, desesperados / Quando havia só injustiça e nenhuma revolta. / Entretanto sabemos: / Também o ódio à baixeza / Deforma as feições. / Também a ira pela injustiça / Torna a voz rouca. Ah, e nós / Que queríamos preparar o chão para o amor / Não pudemos nós mesmos ser amigos. / Mas vocês, quando chegar o momento / Do homem ser parceiro do homem / Pensem em nós / Com simpatia.
– Bertolt Brecht, em “Poemas 1913-1956″[seleção e tradução de Paulo César de Souza], São Paulo: Editora 34, 2000, p. 212-214.

 

MAIS SOBRE

http://www.releituras.com/bbrecht_menu.asp
https://pt.wikipedia.org/wiki/10_de_fevereiro
http://mepr.org.br/cultura-popular/poesias/96-coletanea-de-poemas-de-bertolt-brecht.html
http://www.elfikurten.com.br/2015/06/bertolt-brecht.html
https://acasadevidro.com/2012/12/15/alguns-poemas-de-bertold-brecht/
A Poesia de Brecht e a História, por Leandro Konder

«RANCHO FUNDO (Fragmento)» por Lamartine Babo

#umpoetaumpoemapordia #072 (10/1)

POETA – Lamartine de Azeredo Babo (Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1904 — Rio de Janeiro, 16 de junho de 1963) foi um dos mais importantes compositores populares do Brasil.

POEMA – Fragmento da letra da canção «Rancho Fundo»
“No rancho fundo / bem pra lá do fim do mundo / nunca mais houve alegria / nem de noite, nem de dia. / Os arvoredos / já não contam mais segredos / e a última palmeira / já morreu na cordilheira.”

MAIS SOBRE

http://regbit.blogspot.com.br/2010/06/lamartine-babo-o-melhor-e-mais.html
http://poesiaretro.blogspot.com.br/2011/02/lamartine-babo.html
http://dicionariompb.com.br/lamartine-babo

«5 (SUCCESS IS COUNTED SWEETEST)» por Emilly Dickinson

#umpoetaumpoemapordia #041 (10/12)

POETISA: EMILY DICKINSON

Emilly Elizabeth Dickinson (Amherst, 10 de dezembro de 1830 – 15 de maio de 1886) foi uma poetisa americana, considerada moderna em vários aspectos da sua obra. WIKIPEDIA

POEMA: 5 (SUCCESS IS COUNTED SWEETEST)

Success is counted sweetest
By those who ne’er succeed.
To comprehend a nectar
Requires sorest need.

Not one of all the purple Host
Who took the Flag today
Can tell the definition,
So clear, of Victory!

As he, defeated — dying —
On whose forbidden ear
The distant strains of triumph
Burst agonized and clear!

(c. 1859)
– Emily Dickinson – ‘Não sou ninguém’. Poemas. [traduções Augusto de Campos]. Campinas: Unicamp, 2009.

TRADUÇÃO DE: AUGUSTO DE CAMPOS

O Sucesso é mais doce
A quem nunca sucede.
A compreensão do néctar
Requer severa sede.

Ninguém da Hoste ignara
Que hoje desfila em Glória
Pode entender a clara
Derrota da Vitória

Como esse — moribundo —
Em cujo ouvido o escasso
Eco oco do triunfo
Passa como um fracasso!

+ SOBRE

Emily Dickinson – poemas


http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet306.htm
https://escamandro.wordpress.com/tag/emily-dickinson/
https://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?poeta=1596

Emily Dickinson – poemas

14 poemas de Emily dickinson -tradução – SEER-UFMG

OUTROS

Olavo Bilac, poeta parnasianista brasileiro

1971 : O poeta chileno Pablo Neruda recebe o Prêmio Nobel de Literatura .

Giovanni Battista Guarini , poeta italiano

María Bibiana Benítez , poeta porto-riquenha

Nikolái Nekrásov , poeta russo

Emily Dickinson , poeta americano

Nelly Sachs , poeta e dramaturgo alemão-sueco

Dulce María Loynaz , poeta cubana

George MacDonald , ministro escocês, autor e poeta

Pierre Louÿs , autor e poeta belga-francês

Rumer Godden , escritor e poeta inglês

Carolyn Kizer , poeta americana e acadêmica

William Plomer , poeta, romancista, libretista e editor sul-africano

Shizuo Itō (伊藤 静 雄), poeta japonês

Na Hye-sok (나혜석), escritor, poeta, filósofo e pintor coreano

«AN DIE FREUDE (Ode à Alegria)» por Friedrich Schiller

#umpoetaumpoemapordia #011 (10/11)

POETA: FRIEDRICH SCHILLER

Johann Christoph Friedrich von Schiller (Marbach am Neckar, 10 de novembro de 1759 — Weimar, 9 de maio de 1805), mais conhecido como Friedrich Schiller, foi um poeta, filósofo, médico e historiador alemão. Schiller foi um dos grandes homens de letras da Alemanha do século XVIII e, assim como Goethe, Wieland e Herder, é um dos principais representantes do Romantismo alemão e do Classicismo de Weimar. Sua amizade com Goethe rendeu uma longa troca de cartas que se tornou famosa na literatura alemã.

POEMA: AN DIE FREUDE

O Freunde, nicht diese Töne!
Sondern laßt uns angenehmere
anstimmen und freudenvollere.
Freude! Freude!

Freude, schöner Götterfunken
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken,
Himmlische, dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder,
Wo dein sanfter Flügel weilt.

Wem der große Wurf gelungen,
Eines Freundes Freund zu sein;
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer’s nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund!

Freude trinken alle Wesen
An den Brüsten der Natur;
Alle Guten, alle Bösen
Folgen ihrer Rosenspur.
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott.

Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels prächt’gen Plan,
Laufet, Brüder, eure Bahn,
Freudig, wie ein Held zum Siegen.

Seid umschlungen, Millionen!
Diesen Kuß der ganzen Welt!
Brüder, über’m Sternenzelt
Muß ein lieber Vater wohnen.
Ihr stürzt nieder, Millionen?
Ahnest du den Schöpfer, Welt?
Such’ ihn über’m Sternenzelt!
Über Sternen muß er wohnen.

TRADUÇÃO DE

Ó, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.

Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis voem
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!

 

+ SOBRE

https://poesiaspreferidas.wordpress.com/2013/05/26/ode-a-alegria-friedrich-schiller/
http://wwwpoetanarquista.blogspot.com.br/2012/11/poesia-friedrich-schiller.html
http://odeter.blogspot.com.br/2014/06/poemas-por-friedrich-schiller.html
https://blogdocastorp.blogspot.com.br/2017/08/friedrich-schiller-poema.html

Clique para acessar o OQNFP_30_1_pedro_sussekind.pdf


https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Schiller

 

três exercícios poéticos de segunda

o texto: exercício fragmental sob o sol

no deserto destes dias
o calor é infernal,

de cozer a seco
toda carne, ainda, crua.


esta nossa carne
nau de sal e sol.

e nestes dias
que se esvaem,
dias de cortes…

dos dedos
palavra alguma brotou…

tudo foi silêncio bruto
imerso na terra escura;
como se o corpo,
sempre, nu,
fosse envolto
num líquido denso,
pétreo e preto,
fosse uma cápsula do tempo,
o húmus de um futuro.


O corpo é

um fóssil d’olhos tristes e garganta rouca de tanto grito surdo;
o corpo é

o corte da fina navalha da lágrima de aço.

poemas de vagner boni


abaixo, criança morta/retirantes, obra de candido portinari

Criança Morta Candido Portinari

‘bora mimetizar…

mi·me·ti·zar – Conjugar
(grego mimetês-oûimitador + -izar)

verbo transitivo

1. Adaptar-se por mimetismo.

2. Imitar.

Palavras relacionadas:

.

“mimetizando”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/mimetizando [consultado em 10-04-2014].
***
e o texto de John C. Dawsey «Turner, Benjamin e Antropologia da Performance:
O lugar olhado (e ouvido) das coisas»

turner_2074

Na buska

organizando o meu blogue de sociologia [SOCIOLOGIA B], vamos pesquisando outros blogues de sociologia…

Blogues sobre Sociologia no Ensino Médio:

http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/um-laboratorio-sociologico
http://nabuska.blogspot.com.br/
http://sociologiaescolar.blogspot.com.br/
http://sociologia-trabalho.tumblr.com/
http://sociologiananet.wordpress.com/
http://sociologianaescola.blogspot.com.br/
http://sociologizar.wordpress.com/
http://sociologianaescola.wordpress.com/
http://www.praxis.ufsc.br/
http://www.labes.fe.ufrj.br/
http://sociologiajkratz.blogspot.com.br/
http://socio-logic.tumblr.com/
http://socionetwork.tumblr.com/
http://www.motherjones.com/media/2012/11/kids-bedrooms-james-mollison
http://sociologiaeantropologia.blogspot.com.br/
http://sociesorry.tumblr.com/
http://sociologiadeimediadigitali.tumblr.com/
http://sociologia-trabalho.tumblr.com/
http://confesionsociologo.tumblr.com/
http://sociologiadastazione.tumblr.com/
http://sociologiauahc.tumblr.com/
http://politica-e-sociologia.tumblr.com/
http://economia-y-sociologia.tumblr.com/
http://sociologiaavida.tumblr.com/
http://sociologias.tumblr.com/
http://sociologiaupla.tumblr.com/
http://filovesofia.tumblr.com/
http://introso.tumblr.com/
http://sociogirls.tumblr.com/
http://sociologia-patricinhas.tumblr.com/
http://s-ociologia.tumblr.com/
http://sociologia-debate.tumblr.com/
http://poderosasdasociologia.tumblr.com/
http://blog-da-sociologia–filosofia.tumblr.com/
http://socioologiamv1.tumblr.com/
http://nossassociologias.tumblr.com/
http://sociologianavida.tumblr.com/
http://aprendendocomsociologia.tumblr.com/
http://sociologia23.tumblr.com/
http://constituicao3bgalois.tumblr.com/
http://socioanalises.tumblr.com/
http://somos-a-diferenca.tumblr.com/
http://9agalois2011.tumblr.com/
http://foggydreamer.tumblr.com/
http://sociologianet.tumblr.com/
http://sociologialucas.tumblr.com/
http://sociologia-debatesobrecolegios.tumblr.com/
http://flaneurcasper.tumblr.com/
http://sociologiasimples.tumblr.com/
http://professormarcos.tumblr.com/
http://depredando.tumblr.com/
http://ojalalohubieraescrito.tumblr.com/
http://www.unitedexplanations.org/2013/07/16/50-satiricas-ilustraciones-de-pawel-kuczynski/

Hélène Roger-Viollet

http://www.roger-viollet.fr/collections.aspx

Maurice-Louis Branger

http://www.yellowkorner.com/artistes/147/maurice-louis-branger.aspx

exercícios de amor e suor

quero ser brega
estúpido como uma flor
quero ser tão cafona
e ser-te [ter] teu amor.

*

quero estar prosa,
lavrar poemas
[com toda a rítmica doce tortura pelas tuas costas,
[com toda a métrica profunda entre tuas coxas.
quero a sorvedura dos lábios nos lábios,
[nas tuas pomas nuas,
quero toda roçadura que planta na língua tua
[o gosto deste líquido verso.
quero assim toda língua vulga na vulva,
e ser toda tua
[nua dor
que ora geme,
que ora treme,
que ora em êxtase
[creme].

Vagner Boni. Sambaqui (Florianópolis), 10 jan. 2010.


Gustav_Klimt_erotica_sensual26

 

 

aula-linguagem

aula. linguagem
Quantas censuras há entre nós?
quantos “nós”…
AMAR RADOS,
AMOR DAÇADOS,
AMPUTADOS,
NÓS…


te olho, te vejo, te sinto, por inteiro, em partes, antropofagicamente morro em tua boca MUDA e cheia de cicatrizes e gozos…

Sorrimos, num desvairado êxtase,
de prazer
todo nosso
no outro,
nós.
10.10.2008
(sala 303, CFH)
Campus Universitário,
Floranópolis

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ao sol implacável – segunda versão

Ao sol implacável, um instante e teu corpo viraria pó. O pó à terra, poeira, poema, poesia arenosa e no meio de si sente-se.. que transcende um limite; ele, se houvera transcender, inventa tentativas.. Solta-se.
Como a Cortázar não posso com a teia, e o aracnídeo que dorme à sombra. E não é o luar – como diriam uns – nem o sol, é um dia todo deitado à toa, ao léu inventando sensações. E se o peão da dama avançasse à quarta casa – derreteria o sol à sombra.
O jogo iniciaria? Os números falam-me do tempo inexistente que vem vencer e ser toda e qualquer ilusão. Onde tu e tudo ilusão e água. Uma ponte, sobre o vazio, feita de tábuas assim na realidade, na fatalidade, na verdade, na ficção, na invenção, na dade, no não, no ão, na ilusão…
O jogo de palavras em fricção que não esconde o sangue, a vertigem e a fome por demais palpáveis, sentivéis, crus. Se pudesse agora beijaria tua boca quente e úmida mas então agora não há tu quiça algo que não corpos de poeira. Ninguém e um outro eu. Vê, dizer a mesma coisa é possível? Miro-te grão de todos os ângulos ou lados aos quais meto-me.
Qualquer coisa entre o gozar e sentir morrer.. Qualquer sonho violeta em tarde ocre. E sabemos então que podemos mais.. Somos a tarde, se me cabe uma paisagem. E arde, arde uma coisa toda feita de gozos, suspensão e entranhas e ferrugem e vãos. É vazio vê!
Sugam o ar quente enquanto sufoco. Mudo em mim tal uma vertigem, uma viagem, uma noite fria – quente? -, e o vento, leve, quase torno-me palavra.
Abres a janela, tens medo e segues a frente. Corre o vento por dentro do peito, e torna na mente a chuva dos ais pela ondulação da face… Ar e ar, Chuva e chuva… Onde se distingue o sentido é o sem sentido apelo.. cadê tu poeta? À porta? À ponte? É um já tão já que não é e fora. Foi frio, tédio… Zona morta. Não zona.
Dei vinte passos mal contados em direção ao mondaréu de seres, apitos, faixas.. Uma orquestra. E sobre o canal, a massa, o fluído de poeira e estranha sutileza…  tentou poesia crua – Adoro obviandades, gritam os pássaros! – como uma flecha que perpassa o corpo e sai sem nunca ter entrado. E só lá esteve todo o tempo.
Quatro meses e o sol ficou, a chuva veio… Imaginação.

exercício de vagner boni


Marcel Duchamp, NU Descendo uma escada- 1912, Óleo em tela

Marcel Duchamp, Nu descendant un escalier n° 2 [Nu descendo uma escada nº 2] (1912, Óleo em tela)